As lavouras de milho do Rio Grande do Sul estão com aproximadamente 60% da área colhida. A safra 2023/2024 ainda não tem uma projeção de volume, mas o certo é que terá perdas e não deverá atingir o montante que se esperava para este ciclo.

Foto: Susana Leite/GES-Especial
O responsável pela quebra da produção do cereal no Estado desta vez foi o fenômeno El Niño, que provocou chuvas acentuadas acima da média, principalmente no segundo semestre do ano passado.
As estimativas iniciais, tanto da Emater quanto da Associação dos Produtores de Milho do Rio Grande do Sul (Apromilho/RS), eram de atingir 6 milhões de toneladas. Esse montante, praticamente, daria conta de todo o consumo do Estado, que fica em torno de 6,7 a 7 milhões de toneladas.
Mas tudo indica que a safra será menor, considera o presidente da Apromilho/RS, Ricardo Meneghetti. “Vamos ter quebras, não tão fortes como nos últimos dois anos, de seca, mas vamos ter quebra sim.”
Período ainda é considerado vulnerável para o milho
Um valor mais aproximado do rendimento da safra do milho deverá ser divulgado durante a Expodireto Cotrijal, feira que ocorre entre os dias 4 e 6 de março, em Não-Me-Toque.
Para Alencar Paulo Rugeri, agrônomo da Emater, a safra do milho encontra-se num período de “sinal amarelo”. “Estamos ainda num período vulnerável”, comenta Rugeri sobre os períodos de grandes volumes de chuva.

Foto: Susana Leite/GES-Especial
Contudo há uma expectativa de que o restante do milho no Estado – em torno de dois terços da produção – recupere aquilo que se perdeu no início da safra.
A esperança de melhora na produção de milho está no fato de que o cereal tem safra longa. Rugeri lembra que o milho começa a ser plantado em julho, na região noroeste do Estado, e termina em dezembro no nordeste.
“Há a dificuldade de ter uma avaliação da safra por conta de uma condição climática que é inadequada. Em algum período ela vai pegar determinadas regiões. Por isso que o primeiro milho teve dificuldade, mas no decorrer da safra a gente tem uma expectativa favorável, porém ainda está numa fase vulnerável, em função de todas as variáveis climáticas”, pondera.
Propriedade em Lomba Grande tem cerca de 100 ha plantados
Na propriedade do produtor rural Valdinei Bernardes, 46 anos, em Lomba Grande, Novo Hamburgo, a sequência de dias nublados prejudicou a plantação. A situação vivida por aqui não é muito diferente do que ocorreu em outras lavouras do Rio Grande do Sul.

Foto: Fotos Susana Leite/GES-Especial
“Foram uns 60 dias praticamente sem sol, isso faz com que se perca muito da produtividade”, explica o agricultor.
No restante da área, que no total chega a 100 hectares, Bernardes planta milho de forma escalonada até dezembro. A expectativa está no desenvolvimento do plantio tardio do milho que tende a ter perdas menores, desde que o tempo colabore.
“A gente prepara solo, faz tudo o que é preciso para plantar, mas não tem o fazer com a chuva ou com a seca”, comenta o produtor.
Cooperativa acompanha dificuldades enfrentadas pelos agricultores
Com expectativa de armazenar em torno de 945 mil sacas de milho, a cooperativa Cotribá também acompanhou as dificuldades impostas pelo clima. A estimativa da entidade é que a quebra da produtividade seja em torno de 35% da expectativa inicial. Esse resultado está relacionado aos mesmos problemas causados pelo excesso de chuva, perda de nutrientes, ataque de cigarrinha, entre outros.
Produtores cooperados à Cotribá abrangem uma área equivalente a 11 mil hectares no Estado. O milho que chega à cooperativa é direcionado para a fábrica de ração da própria Cotribá e também é comercializado para a indústria.
Sequência de dias nublados afetou plantações
Os grandes volumes de chuva em 2023 afetaram o RS de diversas formas. Para a lavoura de milho, tanto o alto volume de chuva quanto os dias nublados prejudicaram o desenvolvimento do grão. A falta de horas de sol em grande parte das regiões do Estado atrapalhou o crescimento e até a polinização das plantas. Essa condição climática provocada pelo fenômeno El Niño mais intenso trouxe como consequência também doenças. Presidente da Apromilho/RS, Ricardo Meneghetti aponta que algumas lavouras apresentaram doenças, como bacteriose e ocorrência de cigarrinha do milho.
Rentabilidade será menor
Os efeitos do tempo úmido e nublado afetaram muito mais o milho plantado cedo, ou seja, entre julho e agosto de 2023. As chuvas praticamente “lavaram o pólen”, e como resultado se desenvolveram espigas desdentadas, com falhas na maturação dos grãos. Esse milho “do cedo”, aponta Meneghetti, teve problema de replantio porque o solo estava mais úmido, encharcado: “E com isso o solo também recebeu a visita de muito mais doença do que de costume”.
Até o momento, diz Meneghetti, já se observou, entre as colheitas mais avançadas, que o milho não tem pesado aquilo que se esperava. “Tem volume, mas não tem peso. Justamente por causa da umidade e por causa do tempo nublado”, explica. As regiões norte e noroeste do RS, principalmente, foram bastante afetadas pela questão climática.
Cereal é vendido direto para a indústria
O milho cultivado pela família Bernardes, onde, além de Valdinei, trabalham o irmão Valedeci, 42 anos, e o pai Arcírio Bernardes, 72, é vendido para cerealistas. Todo o processo na propriedade é mecanizado, desde o plantio até a colheita.

Foto: Susana Leite/GES-Especial
Mecanizar o trabalho foi a solução para que os três e mais um funcionário pudessem dar conta do trabalho. O milho é vendido para indústrias de Lindolfo Collor e de Gravataí a granel.
O grão é colhido, passa por um processo de secagem, depois é armazenado em silos para, então, ser transportado para os compradores. Todo o processo ocorre dentro da propriedade. Após a safra de milho, Bernardes planta soja.
Abertura da safra ocorre em Santa Vitória do Palmar
A experiência agrícola da metade sul do Estado já ensinou agricultores a lidar com a seca na lavoura de milho, e agora vai ensinar também a trabalhar com a questão da drenagem.
As últimas duas safras do grão no Rio Grande do Sul desafiaram os produtores a lidar com a seca. Com a terra castigada pela estiagem, a metade sul do Estado, com suas terras baixas de plantio de arroz, se mostrou como um oásis para os plantadores de milho.
Observou-se que a rotação de cultura tão comum entre soja e milho também pode ser aplicada com arroz e milho. Naquela época o sistema de irrigação do arroz serviu para desenvolver o milho. O resultado foi tão promissor que a abertura da safra do milho do ano passado foi realizada no sul do Estado, em Jaguarão, quando também foi compartilhada a tecnologia.
Este ano, a abertura da 11ª safra do milho retorna ao sul, mas desta vez em Santa Vitória do Palmar, na fazenda Canoa Mirim. Além de marcar o começo da nova safra, será apresentada a tecnologia de drenagem no solo, já que neste último ciclo os produtores rurais tiveram de lidar com excesso de chuva, encharcamento e umidade de solo.
O evento de abertura da safra está marcado para o dia 27 de fevereiro, às 8h30, na sede da fazenda Canoa Mirim, que fica no Km 622 da BR-471, em Santa Vitória do Palmar. Lá será apresentada a tecnologia de sulco/camalhão.
Base da produção de ração para animais de corte
O sistema de produção primária se transformou ao longo das décadas. Diversos fatores contribuem para a realidade da ampla maioria dos produtores rurais, e a falta de mão de obra é uma delas. É por falta de gente para trabalhar no campo que a família Bernardes deixou de plantar batata e aipim e direcionou o trabalho para uma atividade mecanizada, por exemplo. Além disso, a criação de animais para o abate na indústria também se especializou. Isto fez com que o perfil dos produtores também mudasse.
O ciclo completo de plantio do grão, confecção da ração e criação do animal não corresponde à maioria da produção no RS. De modo geral, quem planta milho, por exemplo, vende para a indústria, que transforma o grão em ração para aves, suínos e, em alguns casos, até para gado leiteiro. Por isso a produção de milho ganha relevância, porque não está relacionada apenas com o consumo in natura ou somente na indústria de alimentos que chegam à mesa dos consumidores. O milho é um insumo importante para outras cadeias produtivas do setor agropecuário.
As regiões norte e noroeste do Estado concentram as maiores áreas de plantio de milho. No entanto, é na região dos vales, Serra e metropolitana onde se concentra o maior consumo.
Sul do Estado tem se destacado na produtividade da safra de grãos
Meneghetti destaca que a abertura da colheita será um evento realizado com a Secretaria de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi). Será abordada a tecnologia empregada nas terras baixas, desta vez com ênfase na drenagem. “A gente está junto com a Secretaria da Agricultura demonstrando essa tecnologia (sulco-camalhão) para que o produtor da metade sul tenha também essa opção de produzir não somente arroz irrigado, mas também milho e isso poderá fazer com que o Estado alcance a autossuficiência na produção de milho.” Resultados da safra passada mostram que a região sul colheu em torno de 150 a 180 sacas por hectare durante a seca.
Em busca da autossuficiência
O emprego de tecnologias que permitam aproveitar mais áreas de terra no Rio Grande do Sul é a aposta para tornar o Estado autossuficiente na produção de milho. Um exemplo disso é fazer a rotação da cultura não só com soja, como já é feito largamente, mas também com o arroz irrigado. Por isso os produtores voltam à região sul do Estado para demonstrar exemplos bem-sucedidos de produtividade que possam estimular outros produtores.
Sulco/camalhão empregado na lavoura de milho
O sistema sulco/camalhão é uma forma de estruturar a lavoura formando sulcos entre os camalhões, que são porções de terra mais elevadas. Este método de estruturar a lavoura permite tanto uma irrigação eficiente quanto, também, a drenagem da terra. Estudos da Embrapa já apontavam para a eficácia do emprego dos sulcos/camalhões na rotação de cultura de arroz que é cultivado em áreas de várzea no Rio Grande do Sul.
Em uma publicação de 2006, os pesquisadores da Embrapa Clima Temperado, de Pelotas, Cláudio Alberto Souza da Silva, José Maria Barbat Partfitt, Giovani Theisen e Marcelo Régis Pereira explicam o funcionamento do sistema de sulco/camalhão e também apontam outras culturas, além do arroz, que se adaptam ao método. Milho, soja, sorgo e até a mamona aparecem como espécies que podem ser cultivas sobre os camalhões.