Os números oficiais da safra 2025/2026 do arroz no Rio Grande do Sul confirmaram a expectativa de redução da área planta em relação à safra anterior. Em termos comparativos, segundo números oficiais da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), na safra 2024/2025 o Estado teve uma área plantada de 970 mil hectares.

Foto: Paulo Rossi/Divulgação
Nesta deve ficar ao redor de 892 mil hectares, segundo projeções apresentadas pela Farsul e pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), apresentadas no último dia 5, em coletiva de imprensa, e confirmadas pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), no último dia 12.
O encontro promovido pela Farsul e pela Federarroz serviu não só para apresentar as estimativas, mas também para explicar as razões pelas quais entidades optaram por plantar menos neste ciclo atual. A produção se arroz sempre foi um destaque da agricultura gaúcha.
Mas as dificuldades adjacentes ao trabalho dos produtores rurais começaram a tornar a equação do custo e benefício desfavoráveis para quem vive cultura orizícola. Tudo gira em torno da crise que o setor arrozeiro vive nos últimos anos, ora afetado pelos extremos climáticos – enchentes e sucessivas estiagens – ora vivenciando dificuldades para comercialização, o que inclui desde a competitividade com arroz vindo de fora até questões logísticas e de ordem tributária.
Apontamentos feitos pela Farsul sobre a crise no setor arrozeiro
Presidente da Farsul, Domingos Velho Lopes lembrou que costumeiramente os produtores rurais eram mais “reativos” aos problemas que os afetavam. Mas mas essa forma de encarar as adversidades da agriculta mudou.
Hoje entidades que lideram o setor se valem de dados e estudos para antever problemas e apontar soluções que possam aplacar a crise. É o que a cadeia produtiva do arroz vem fazendo.
Pelo menos desde junho do ano passado reuniões com representantes tanto do governo estadual, quanto do federal já receberam representes da Farsul e da Federarroz para debater soluções para o setor.
Ao apresentar as sete ações que as entidades representativas do setor elaboraram para mitigar a crise do arroz em 2026, o presidente da Farsul sinalizou que muitos dos apontamentos não eram algo que seria feito, mas que já estavam em andamento ou que já haviam sido apresentados para as autoridades.

Foto: Emerson Foguinho/Sistema Farsul
“Buscamos soluções propositivas, sempre nos antecipando aos problemas. E foi nesse sentido que o setor orizicola, já em junho do ano passado, que começamos a identificar a problemática do estoque de passagem”, observa a o presidente da Farsul, sinalizando outras questões que impactam no estoque, como as políticas de exportação adotadas pelo governo federal.
“Isso (as políticas de exportação) apontava para um estoque de passagem grande e isso poderia impactar o mercado já desde o ano passado e também no primeiro semestre deste ano”, pontua.
No encerramento, as entidades reafirmaram a união do setor e definiram que haverá uma pressão contínua sobre a bancada federal gaúcha em Brasília. Será realizado o monitoramento do escoamento de forma diária para provar que o abastecimento está se normalizando.
Os participantes afirmaram que o setor permanece aberto ao diálogo, desde que baseado em dados estatísticos e não em conveniência política.
Sete propostas para mitigar a crise na orizicultura
Apresentada pelo economista-chefe da Farsul, as sete medidas para aplacar a crise da cadeia produtiva do arroz envolvem desde a transparência do cenário econômico junto aos produtores, até articulações de ordem comercial e tributária. O conjunto de propostas, segundo a Farsul, são para o curto e médio prazo, com o objetivo de reverter o quadro de crise do setor. Algumas das propostas já estão em andamento e outras a devem ser implantadas.
1)Difusão clara e transparente da preocupação das entidades com cenário de mercado do arroz para 2026
2)Recomendação de redução de área plantada. Este item já foi trabalhado com os produtores rurais e deve refletir já nesta safra;
3)Busca de mecanismos de comercialização;
4)Uso da Taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura (CDO) como instrumento estadual de estímulo às exportações e escoamento;
5)Proposta de redução de ICMS de forma temporária, no período de maior comercialização, para melhor competir com o Paraguai;
6)Proposta de desconcentração dos vencimentos de Cédulas de Produto Rural (CPR) em 30/03 e 30/04 junto às indústrias, revendas e empresas multinacionais; alongamento de custeios juto às instituições financeiras;
7)Pesquisa, divulgação e medidas contra a venda de arroz fora do tipo especificado na embalagem.
Mais usos para o arroz, além da alimentação
Outro assunto abordado pelo presidente da Federarroz foi o estudo em andamento para o uso do arroz na produção de etanol. “Por meio da Câmara Setorial, encaminhamos solicitação à Assessoria de Assuntos Estratégicos da Presidência da Embrapa para que, via Embrapa Agroenergia, possamos aprofundar os estudos sobre o uso do arroz para etanol. Além disso, essa mesma assessoria está avaliando outros destinos e finalidades para o arroz”, adiantou.
Nunes fez questão de reforçar que não há preocupação em retirar o arroz da alimentação humana, que seguirá sendo seu destino principal. “O que buscamos é potencializar a capacidade produtiva que o Rio Grande do Sul possui, apoiada pelas pesquisas do Irga, da Embrapa e de empresas privadas, que garantem a qualidade do nosso produto, alta produtividade e possibilidade de ampliação de área”, ressaltou.
Por fim, Nunes enfatizou que esses novos destinos não retiram o arroz da alimentação. “Eles agregam valor, geram novas oportunidades, emprego e renda, especialmente na metade sul do Rio Grande do Sul”, finalizou.
Mercosul é assunto tratado pela Federarroz
O presidente da Federarroz, Denis Dias Nunes, destacou a postura das entidades de antecipar cenários e propor soluções. “Fomos surpreendidos por uma das contingências mais difíceis dos últimos tempos na cadeia arrozeira. Em 2025, tivemos uma das maiores colheitas do Mercosul e também uma produção elevada em nível mundial. Isso pressionou os preços”, recordou.
Nunes citou ainda a entrada da Índia no mercado internacional, o que agravou o cenário ao deprimir os valores no mercado global e, consequentemente, na América do Sul, especialmente no Mercosul.
“Somado a isso, tivemos uma supersafra, crédito difícil e juros altos. Esse conjunto de fatores nos levou a uma situação extremamente delicada, com uma recessão muito negativa nesta safra, que se arrasta até 2026. Esse cenário resultou em um endividamento significativo dos produtores”, concluiu.
O presidente da Federarroz afirmou que o setor tem trabalhado dentro da lógica de simetria do Mercosul. “A indústria do Rio Grande do Sul perdeu, nos últimos anos, uma parte importante do seu beneficiamento para indústrias de Minas Gerais e São Paulo, que não produzem arroz, mas importam grandes volumes do Paraguai. Esse é um tema que precisa ser enfrentado”, ressaltou.
Nunes destacou que a Federarroz já conta com uma comissão específica dedicada a estudar o Mercosul, identificar assimetrias e buscar soluções junto aos governos estadual e federal.
“Temos produtividade elevada, mas não conseguimos competir em preços com nossos vizinhos, e isso precisa ser corrigido”, afirmou. O dirigente acrescentou que o setor também trabalha a questão do ICMS, buscando condições que tornem a cadeia mais competitiva.
Governo gaúcho sanciona lei que autoriza uso da Taxa CDO
No final do ano passado, o governador Eduardo Leite assinou a lei que autoriza o uso da Taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura (CDO) como instrumento de apoio direto à cadeia produtiva do arroz. A medida consolida uma demanda histórica do setor arrozeiro, construída ao longo dos últimos anos com participação ativa das entidades representativas.
Presidente do Instituto Rio-Grandense do Arroz (Irga), Alexandre Velho explica que o uso alternativo para a CDO será um dos pontos a serem discutidos em breve entre as entidades.
“O próximo passo será buscar um regramento para o uso da CDO. E serão as entidades Farsul, Federarroz e Irga que trabalharão para fazer esse regramento”, afirmou. “Nada mais justo que uma taxa paga pelo produtor, mas recolhida pela indústria, retorne ao produtor de alguma forma.”
Recurso da taxa CDO poderá beneficiar produtores rurais
A lei que permite o uso da Taxa CDO tem origem no projeto 472/2025, aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa, com 48 votos favoráveis e nenhum contrário. A partir da mudança, os recursos arrecadados pela CDO, tributo estadual que incide sobre quem produz ou beneficia arroz em casca no estado, passam a poder ser utilizados além do custeio institucional do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), permitindo apoio direto aos produtores.
A expectativa é de que o montante disponível chegue a cerca de R$ 38 milhões, sendo aproximadamente R$ 20 milhões destinados a ações de bonificação e escoamento da produção, e outros R$ 18 milhões voltados ao auxílio de produtores impactados por adversidades climáticas.
Abertura oficial da colheita do arroz
Os orizicultores presentes na 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas terão oportunidade de acompanhar uma reunião, que será aberta, da Câmara Setorial do Arroz e que ocorrerá no terceiro dia da programação.
O evento será realizado entre os dias 24 e 26 de fevereiro de 2026, na sede da Embrapa Clima Temperado, em Capão do Leão, e reunirá representantes do setor produtivo, da indústria, da pesquisa e do governo federal.
Durante o evento haverá debates sobre temas que afetam a cadeia orizícola neste momento, com destaque para a crise do setor, medidas em discussão, políticas públicas e encaminhamentos para o cenário atual da produção de arroz no país.
Câmara aborda custos de produção
O presidente da Câmara Setorial do Arroz, Henrique Dornelles, afirma que o encontro em Capão do Leão terá como foco central a situação econômica enfrentada pelos produtores, especialmente no que diz respeito ao preço mínimo do arroz e aos custos de produção calculados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). De acordo com o dirigente, o setor vem, há pelo menos dois anos, questionando a metodologia utilizada nesses levantamentos.
“Os custos de produção divulgados pela Conab têm apresentado falhas metodológicas, tanto na coleta quanto na interpretação das informações junto aos produtores. Isso acaba gerando números imprecisos, que levam o governo a uma leitura equivocada da real situação financeira do produtor de arroz”, destaca.