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ÁREAS RURAIS PROTEGIDAS

Baseado em geotecnologia, projeto da Emater torna mais preciso o manejo ambiental

Com financiamento do Ministério Público, Emater utiliza tecnologia de ponta para restaurar áreas degradadas e promover o desenvolvimento rural sustentável

SUSANA DA SILVA LEITE
Publicado em: 28/10/2025 às 08h:00 Última atualização: 28/10/2025 às 19h:25
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Tecnologia sempre esteve presente no setor primário, desde o arado rasgando o chão para cultivar sementes ao uso de drones para mapear onde os olhos não alcançam. Hoje, mais do que uma ferramenta do dia a dia, a tecnologia é também peça-chave na preservação do meio ambiente, tornando viável o desenvolvimento rural e a preservação dos recursos naturais.

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Reflorestamento começado há mais de 20 anos ainda tem pontos a ser melhorado | abc+



Reflorestamento começado há mais de 20 anos ainda tem pontos a ser melhorado

Foto: Emater/Divulgação

Embora os equipamentos de ponta não sejam uma novidade, eles estão cada vez mais requisitados no setor primário por conta da precisão de entregam. A aplicação de dados na agricultura faz com que o produtor rural não se limite a esperar que a chuva caia do céu para irrigar a lavoura, ela aponta onde está o déficit hídrico na propriedade, por exemplo. Mas os recursos tecnológicos não brotam do chão. É preciso que haja investimento.

É nesse contexto que se situa o trabalho da Emater/Ascar-RS: fomentar o desenvolvimento junto a produtores rurais familiares, aliando a preservação de recursos naturais. Em tempos de extremos climáticos, em que o produtor é castigado ora com estiagem, ora com enchente, mais do que nunca é preciso trabalhar para que a terra se torne mais resiliente. E é aí que entra a tecnologia. Esse trabalho já começou e pretende seguir em andamento.

Em 28 de julho deste ano, a Emater concluiu o projeto que pretende ser o início de uma transformação que tem como base a tecnologia de ponta, associada ao conhecimento de seus técnicos e pesquisadores. Financiado pelo Fundo para Reconstituição de Bens Lesados, do Ministério Público do Rio Grande do Sul (FRBL/MPRS), o projeto “Ações Educativas na Conservação e Restauração Ambiental em Propriedades Rurais do Rio Grande do Sul” tem empregado práticas de conservação e restauração ambiental em 12 Unidades de Referência (UR) em diferentes regiões do Estado.

Esses locais (veja no mapa), além de serem propriedades rurais de produção, estão situados em biomas, como o Pampa e a Mata Atlântica, apresentam diferentes tipos e uso de solo, alguns constituem Áreas de Preservação Permanente (APP), sistemas agroflorestais, campos nativos e outros ainda áreas em processo de restauração.

Reprodução no mapa das 12 Unidades de Referência | abc+



Reprodução no mapa das 12 Unidades de Referência

Foto: Arte Alan Machado/GES

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As 12 Unidades de Referência (URs) do projeto estão distribuídas de forma a representar todas as regiões administrativas da Emater/RS-Ascar. Elas estão localizadas nos municípios de Novo Hamburgo (Regional de Porto Alegre), Canguçu (Regional de Pelotas), Dom Pedrito (Regional de Bagé), Sertão (Regional de Erechim), Trindade do Sul (Regional de Frederico Westphalen), Bozano (Regional de Ijuí), Progresso (Regional de Lajeado), Machadinho (Regional de Passo Fundo), Tupanciretã (Regional de Santa Maria), Garruchos (Regional de Santa Rosa), Vera Cruz (Regional de Soledade) e Cotiporã (Regional de Caxias do Sul). Elas fazem parte da contrapartida da Emater/RS-Ascar na execução do projeto apresentado para o FRBL-MPRS

Uso da geotecnologia

Para alcançar cada rincão das 12 URs, a Emater precisaria de equipamentos que permitissem medir, avaliar e fornecer dados para usar como base na tomada de decisões sobre o manejo adequado. Foi aí que o Fundo gerido pelo Ministério Público RS serviu como incentivo para colocar o trabalho em prática. Os recursos do FRBL foram pleiteados pela Emater em 2021, sendo o projeto executado entre 2022 e 2025.

Thaís Michel  | abc+



Thaís Michel

Foto: Arquivo Pessoal

“O projeto envolveu a aquisição de equipamentos e softwares de geoprocessamento — como um drone multiespectral, GPS portáteis e licenças dos programas ArcGIS e TrackMaker — que modernizaram as ferramentas de trabalho da instituição e ampliaram a precisão das ações de campo. Como contrapartida institucional, foram realizados cursos de capacitação, dias de campo e materiais educativos voltados à conservação e restauração ambiental, fortalecendo a atuação técnica e a sensibilização do público atendido pela Emater”, explica a extensionista da Emater, Thaís Michel, que coordenou o projeto.

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Essas tecnologias permitem a geração de informações que orientam os técnicos na adoção de práticas conservacionistas. Entre as ações, exemplifica Thaís, estão terraceamento, manejo de estradas rurais, plantio em nível, controle de enxurradas e condução da regeneração natural, além de indicar onde cercar, plantar ou restaurar.

Conhecimento compartilhado com produtores rurais

O projeto da Emater teve o envolvimento direto de agricultores familiares, pecuaristas, estudantes, lideranças locais e técnicos da extensão rural, que estiveram lado a lado da equipe da Emater durante o uso dos equipamentos, com demonstrações dos resultados. Uma dessas ações ocorreu em Novo Hamburgo, na propriedade de Tito Lívio Camerini.

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Localizado em São João do Deserto, no bairro Lomba Grande, os 33 hectares do sítio foram se transformando em um oásis ao longo dos anos. Tito lembra que a terra, comprada pela família há praticamente 28 anos (que completará em novembro) era uma área abandonada.

“Compramos com o intuito de fazer um sítio de lazer. Essa foi a intenção inicial. Depois disso, começamos uma atuação na área da pecuária,  e recuperação de pastagens, que veio na sequência. Plantio de milho sempre para consumo para atender à demanda interna.”  As intervenções dentro da propriedade sempre foram executadas com auxílio da Emater, o que confere a Tito um “parceiro de longa data”.

Emater realizou visita técnica no sítio em Lomba Grande que é uma das 12 URs  | abc+



Emater realizou visita técnica no sítio em Lomba Grande que é uma das 12 URs

Foto: Emater/Divulgação

Do cercamento do arroio para proteger o pisoteio do gado, ao plantio de árvores em uma área de 1 hectare dedicada exclusivamente à proteção de nascentes, conferiu à propriedade o “título” de Unidade de Referência, com áreas de preservação de nascentes e cursos d’água. 

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Isto permitiu o ingresso do sítio no projeto Diagnóstico e Monitoramento da Recuperação de Áreas Degradadas Mapeadas em Áreas de Preservação Permanente (APP) de Cursos d’Água nas Bacias Hidrográficas do Rio Gravataí e Rio dos Sinos. 

Iniciado em 2022, prosseguindo até a atualidade, o projeto é coordenado pela Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (Sema/RS) no âmbito do Programa Estadual de Revitalização de Bacias Hidrográficas, que é executado pela Emater/RS-Ascar. 

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Propriedade rural passou por transformações positivas ao longo dos anos

Tito reconhece que o aumento do volume de água brotando da terra foi perceptível após a intervenção ecológica na propriedade. Administrador da propriedade do irmão Tito, Flávio Camerini acrescenta que o reflorestamento e a proteção de nascentes permitiu que o sítio atravessasse tanto as estiagens consecutivas dos últimos anos e quanto a enchente do ano passado sem grandes impactos.

“A água da vertente se manteve e o curso do arroio pouco baixou durante a seca”, lembra Flávio, ao dizer a propriedade também resistiu aos efeitos do excesso de chuva de maio de 2024. O que os olhos do proprietário do sítio testemunharam também aparecem entre os dados elaborados pela Emater. A partir da comparação de imagens de satélites, foi possível observar a recomposição de vegetação ao longo de 20 anos.  A recomposição de mata serviu para proteger as nascentes, além de evitar a erosão do solo com o excesso de chuva. 

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Diagnóstico e ações para o futuro já apontadas

Em junho deste ano, foram realizados na propriedade de Lomba Grande treinamentos técnicos com uso do drone entre outros equipamentos adquiridos com recursos do FRBL.  O aparelho permite que sejam feitos mapas que mostram a atividade fotossintética da vegetação, ou seja, a saúde da planta.

Em uma das imagens captadas pelo drone multiespectral foi possível identificar zonas prioritárias de restauração ecológica, como bordas de mata e pontos suscetíveis à erosão. “A imagem serviu de base para o delineamento das Áreas de Preservação Permanente e para o planejamento da recomposição da vegetação com espécies nativas”, pontuou a Emater em seu relatório, que também foi entregue ao proprietário do sítio. 

Exemplo de análise com drone multiespectral

Geração de dados obtida através do uso do drone multiespectral | abc+



Geração de dados obtida através do uso do drone multiespectral

Foto: Emater/RS-Ascar / Drone multiespectral – Plano de voo automatizado

Mapa em que mostra o índice de vegetação por diferença normalizada (NDVI) da UR de Novo Hamburgo. Os dados são gerados a partir de imagens captadas por drone multiespectral e processadas no software DroneDeploy. A análise utilizou um algoritmo que permite avaliar a saúde da vegetação com base na reflectância da luz visível e do infravermelho próximo. As áreas em vermelho e laranja indicam baixa atividade vegetativa, solo exposto ou vegetação degradada, enquanto os tons de verde representam maior vigor vegetativo. Esses mapas permitem identificar áreas críticas para intervenção, acompanhar a recuperação da vegetação em APPs e avaliar o desempenho das áreas produtivas e das pastagens, subsidiando o planejamento e o manejo sustentável da propriedade.

Geotecnologia representa avanço para agricultura, mas requer investimento

Colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale, a professora doutora da instituição, Roberta Plangg Riegel, afirma que as geotecnologias têm se consolidado como ferramentas indispensáveis para o desenvolvimento da agricultura.

“Essas ferramentas possibilitam o monitoramento detalhado das áreas rurais, sendo possível identificar áreas com estresse hídrico, deficiência nutricional, crescimento desigual e outros sinais de comprometimento da saúde das plantas, permitindo intervenções rápidas e direcionadas. Além disso, o monitoramento em tempo real e a geração de mapas temáticos facilitam o planejamento do uso do solo, a gestão da irrigação, aplicação localizada de insumos e a rotação de culturas, contribuindo para o aumento da produtividade e a sustentabilidade ambiental das atividades agrícolas”, descreve Roberta.

No entanto, a professora da Feevale reconhece que, apesar dos avanços tecnológicos e da disponibilidade gratuita de diversos satélites, ainda persistem desafios. Um deles é relacionado à aquisição e manutenção das tecnologias agrícolas, especialmente entre pequenos produtores. O outro é a necessidade de capacitação técnica adequada, o que permite o uso eficiente desses equipamentos. “Evidencia a necessidade de investimentos em formação profissional e em estratégias que ampliem a inclusão tecnológica no setor rural”, pontua.

Projeto da Emater saiu do papel graças ao FRBL

A análise da professora da Feevale sobre a relevância dessas tecnologias para a agricultura e a ponderação sobre o custo desses equipamentos acaba sendo o mote para a equipe da Emater buscar os recursos para a implantação do projeto. E a chance de realização estava no Fundo para Recuperação de Bens Lesados (FRBL). 

O FRBL é alimentado com recursos provenientes de ações em que o Ministério Público RS atua, dispõe também de uma parceria do Ministério Público do Trabalho (MPT), conforme aponta o presidente do Conselho Gestor do FRBL, João Cláudio Pizzato Sidou, citando ainda que o Fundo conta com doações. Gerido pelo Ministério Público RS, o Fundo tem, em seu conselho, representantes da sociedade civil e do Poder Executivo.

João Cláudio Sidou preside o conselho do FRBL, que concede recursos para projetos | abc+



João Cláudio Sidou preside o conselho do FRBL, que concede recursos para projetos

Foto: MPRS/Divulgação

Periodicamente são lançados editais para os quais entidades tanto ligadas ao poder público, quanto da sociedade civil sem fins lucrativos podem concorrer submetendo projetos. “A entidade recebe o recurso, firma o convênio, firma os termos e executa o projeto”, resume Sidou, ao explicar que o FRBL possui uma equipe responsável por fiscalizar a execução do que foi firmado no projeto contemplado e por acompanhar a prestação de contas ao Ministério Público.

No final de 2024, um edital específico foi lançado para fornecer subsídios a projetos que tivessem a recuperação pós-enchente como proposta. Foram aprovados 29 projetos, eles outro da Emater dentro da temática das geotecnologias. A intenção da entidade é avançar no aparelhamento tecnológico para qualificar as ações de manejo e recuperação de áreas agriculturáveis no Rio Grande do Sul.

Sidou lembra que, ano a ano, a concorrência entre projetos vem aumentando. “Mas esse último edital surpreendeu o Conselho a quantidade de projetos muito bons que nós tivemos”, assinala. Para Sidou, a alta procura pelos recursos do FRBL se explica pela garantia de recebimento dos recursos, pela transparência na aplicação e prestação de contas ao MP e, sobretudo, porque são projetos que tem como finalidade entregar benefícios à sociedade.

“Essa parceria com o Ministério Público do Trabalho nos alavancou muito, nos deu muita força”, acrescenta Sidou, reconhecendo o auxílio para o Fundo. “E outra ação que nós fizemos agora, que eu acho que foi muito boa, que é meio recente, abrimos a possibilidade dos interessados apresentarem os seus projetos para o Conselho Gestor”, comenta. A apresentação dos projetos é uma etapa opcional para concorrer aos recursos do Fundo. “Mas isso nos deu uma clareza muito melhor e mais segurança pra poder contemplar projetos adequados e de impacto social”, comenta.

Os editais do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados do Ministério Público são divulgados diretamente em mprs.mp.br/frbl, onde é possível conferir o andamento dos editais e as entidades contempladas. As oportunidades são abertas tanto para órgãos públicos, como para instituições privadas sem fins lucrativos, como ONGs ou Oscips, por exemplo.

Emater busca mais incentivos para o futuro

Durante a execução do projeto angariado em 2021, o Rio Grande do Sul atravessou a maior enchente da história, que atingiu não só áreas urbanas como também a produção rural. Onde os rios não alagaram foi a chuva que encharcou. Esse desastre trouxe mais desafios para a Emater e, mais uma vez o Fundo gerido pelo MPRS estava no horizonte. “Durante a execução do projeto, foi enviada e aprovada uma nova proposta ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL), também direcionada à conservação e restauração ambiental em propriedades rurais”, lembra Thaís.

Contemplada com recursos do FRBL no edital específico da enchente de maio de 2024, a equipe da Emater não para por aqui. Thaís revela que um terceiro projeto foi submetido, este com om foco na ampliação da aquisição de equipamentos, em função da crescente demanda gerada pelo uso das tecnologias implantadas no primeiro projeto. “Embora ainda não aprovado, a Emater/RS-Ascar pretende seguir buscando novas oportunidades de apoio para consolidar e expandir essas ações em todo o Estado”.

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