Os desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro são um verdadeiro show de cultura durante o carnaval. Na noite desta terça-feira (4), mais quatro desfilaram pela Marquês de Sapucaí, e uma figura em um dos carros alegóricos chamou a atenção das redes sociais: ele tinha cabeça de bode e segurava um tridente.
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Foto: Globo/Redes Sociais/Reprodução
No primeiro carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, estava a figura de Exu Maioral, sob a doutrina quimbanda, uma das religiões de matriz africana no Brasil. O Livro Abre-Alas, da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), o descreve como a união das forças opostas que se complementam, como luz e sombra, vida e morte, dia e noite, etc.
Ele faz parte do primeiro carro de alegoria pois fala sobre a ancestralidade de Xica Manicongo, que é tema do enredo da escola. “Uma antiga história na tradição quimbanda que conta que no caos criacional Exu Maioral separou as duas energias equilibradas nos Exus Primordiais e criou exus de energia masculina e de energia feminina”, descreve o livro.
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Exu Maioral é “um ser andrógino com cabeça de bode, seios femininos e pés de boi que sintetiza na sua figura o equilíbrio do universo, energético e espiritual. Aponta tanto para baixo quanto para cima para dizer que ‘tudo que está acima, também está embaixo’, também conhecido como ‘assim na terra como no céu'”.
O tridente que Exu Maioral carrega traduz a energia tripolar, sendo negativa, positiva e neutra. Além disso, ele representa o domínio dos quatro elementos da natureza, com as três pontas para cima sendo água, fogo e ar, e o cabo para baixo, para a terra.
Ele também une os pólos feminino e masculino, representados pelos lados arredondado e quadrado, respectivamente, e “simboliza a capacidade de estar em todos os lugares, o domínio do espaço e do tempo”.
A estrela de sete pontas, que fica atrás dele no carro, demonstra a espiritualidade dos sete reinos da quimbanda: encruzilhadas, cruzeiros, matas, kalunga, almas, lira e praia.
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Quem é Xica Manicongo?
O enredo da Paraíso de Tuiuti deste ano foi Quem tem Medo de Xica Manicongo?. Ele conta a história de Xica, uma mulher transsexual sacerdotisa da quimbanda, que vivia no Reino do Congo, onde era respeitada, até ser sequestrada e trazida para o Brasil, onde foi escravizada.
Em terras brasileiras, nomeado como Francisco Manicongo, sofreu o primeiro caso registrado de transfobia do País. Conforme o livro, os registros ditam que ele insistia em usar “vestes femininas” e “fazer papel de mulher”. O escravizado foi acusado de feitiçaria à santa inquisição na Bahia, no século dezesseis.
No início dos anos 2000, a então presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Marjoerie Marchi, rebatizou a personagem como Xica Manicongo.