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EXTREMOS

Como o Brasil pode se tornar inabitável em menos de 50 anos: "Toda a sua vida será quente"

Doutor em mudanças climáticas que liderou Expedição na Antártica alerta que estudo da Nasa pode se concretizar

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Publicado em: 14/02/2025 às 15h:29 Última atualização: 14/02/2025 às 15h:45
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Durante nove dias em fevereiro, o Rio Grande do Sul passou por uma onda de calor que elevou as temperaturas acima dos 40ºC, com sensação térmica de 50ºC em algumas regiões

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Antes mesmo do evento provocar a maior máxima do Estado em 115 anos, a crise climática e os conflitos internacionais acenderam um alerta mundial e fizeram com que cientistas ajustassem o relógio do juízo final para 89 segundos antes da meia-noite — ou seja, a humanidade está mais perto do que nunca da potencial catástrofe global que pode dar fim ao planeta.

Aquecimento global afeta a vida dos brasileiros, especialmente aqueles que precisam trabalhar na rua | abc+



Aquecimento global afeta a vida dos brasileiros, especialmente aqueles que precisam trabalhar na rua

Foto: Pixabay

Quando se fala nos impactos globais da ação humana, muitas vezes, a resposta sobre o futuro do próprio País pode não estar clara, mas isso mudou após um estudo da Nasa indicar que o Brasil pode se tornar inabitável até 2070. E, infelizmente, há grandes probabilidades de que isso aconteça, principalmente para a população mais vulnerável.

Líder da Expedição na Antártica, o climatologista, doutor em mudanças climáticas e professor do departamento de geografia Francisco Eliseu Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), explica que as temperaturas tendem a seguir em elevação. Apesar da informação um tanto quanto chocante revelada pela Nasa, o especialista explica que a palavra inabitável “é muito mais forte do que a gente está entendendo”.

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Mais difícil para quem?

Em entrevista ao ABCMais, o professor relembra que o Brasil teve mais de 170 dias com temperaturas altas, prejudiciais ao organismo vivo, somente em 2024, considerado o ano mais quente da história. Estimando que o País enfrentou uma média de 33ºC a 38ºC em mais da metade do ano, ele explica que milhões de pessoas passaram por estresse ambiental, causado pelo aumento do calor junto à umidade e ao ar poluído. 

Aquino afirma que essa condição causa infarto, doenças respiratórias e desidratação em idosos e crianças. “Essas pessoas estão morrendo, isso tem um impacto na sociedade. Isso, para mim, é se tornar inabitável.”

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E quem sofre mais são as pessoas em situações de maior vulnerabilidade, como aquelas que possuem menor poder aquisitivo. De acordo com o especialista, a vida de quem trabalha na rua está cada vez mais difícil, já que estes trabalhadores ficam completamente expostos ao calor extremo durante a maior parte dos dias

“Estão gastando o organismo, envelhecendo, ficando doentes mais rápido, mesmo tendo mais medicina, mais tecnologia, mais hospitais e mais acesso à saúde”, afirma Aquino.

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A importância da umidade

A Temperatura de Bulbo Úmido (TBU) foi usada pela Nasa para calcular a capacidade de resfriamento dos corpos humanos utilizando o suor. Para calcular a medida, um termômetro em temperatura ambiente é envolto em um pano molhado, e, assim que toda água evapora, é avaliado quantos graus o objeto está marcando.

O dia mais quente é aquele em que a umidade do ar está mais baixa, já que dificulta o resfriamento do corpo pela transpiração. “Esse estudo da Nasa diz assim: ‘Olha, já está difícil agora. Se a gente continuar aumentando a temperatura e passar períodos mais secos, com a umidade, você está tornando esse ambiente inabitável'”, explica Aquino.

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E a umidade muito baixa também não é ideal, pois traz malefícios à respiração. Enquanto o corpo ainda consegue diminuir a temperatura com a transpiração, as mucosas do nariz ficam ressecadas.

O que vai acontecer com a vida no Brasil?

Apesar de preocupantes, as consequências das mudanças climáticas não irão condenar a vida na Terra em um curto período de tempo — pelo menos, não como é mostrado nos filmes. “As temperaturas estão passando dos 40ºC rotineiramente no RS. Isso não significa que as pessoas vão ‘cair mortas’ naquele instante na rua, mas significa que o estresse no organismo é cada vez maior.”

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A exposição às temperaturas extremas podem levar, por exemplo, ao infarto, doenças cardiovasculares, além de aumentar a desidratação. Porém, o professor explica que os motivos para isso não são atestados na hora. “Às vezes, o laudo médico está dizendo: ‘ele infartou’, não estava escrito: ‘foi a onda de calor’… Geralmente, esse resultado aparece anos depois.”

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A estimativa de Aquino é de que as pesquisas que possam indicar quantas pessoas morreram pelos efeitos climáticos de 2023 e 2024 comecem a ser feitas somente daqui alguns anos. E isso está cada vez mais perto de acontecer.

Um estudo publicado na revista científica Nature Reviews Earth & Enviroment, em janeiro deste ano, afirma que mais de 260 mil pessoas morreram por motivos relacionados às ondas de calor desde os anos 2000. A pesquisa também usou medida de TBU. “Isso mostra que o calor extremo já é uma grande ameaça à vida humana”, escreveram os cientistas.

Para estes pesquisadores, uma das formas de evitar ainda mais mortes é que os seres humanos se adaptem às altas temperaturas. Por exemplo, com o uso de ventiladores ou ares-condicionados, roupas mais leves e evitando esforços físicos durante os horários mais quentes.

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Assim como os cientistas do estudo acima, Aquino faz uma alerta: “As próximas décadas, ou toda a tua vida, serão de eventos extremos”, começa. “Planeje a sua vida porque, daqui a 30 ou 40 anos, o custo de vida vai ser mais e caro e você vai precisar de ar puro e de um ambiente com ar-condicionado, seguramente.”

O professor explica que, mesmo que tudo fosse feito de forma correta para a preservação do meio ambiente, dando fim à poluição no mundo, o resfriamento do planeta não aconteceria em menos de 100 anos. “Toda a sua vida será quente”, diz o professor. “Lamento dizer isso.”

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