A ilha submersa do tamanho da Espanha, localizada a 1,2 mil quilômetros da costa do Rio Grande do Sul, é um conjunto de montanhas e cânions que, se estivessem em terra, formariam uma paisagem impressionante.
Conforme os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), a gigantesca formação geológica nas profundezas geladas do Atlântico Sul, chamada de Elevação do Rio Grande, já foi uma ilha tropical coberta de vegetação na frente do Brasil. Se não tivesse submergido, seria marcada por fendas profundas e picos com mais de 4 mil metros de altura, o que ultrapassaria o Pico da Neblina, maior montanha do País, que não chega a 3 mil metros.
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Foto: The new Digital Terrain Model (DTM) of the Brazilian Continental Margin: detailed morphology and revised undersea feature names (Alberoni et al. / Geo-Marine Letters, 2019) / LEPLAC – DHN – Marinha do Brasil
Submersa
De acordo com último estudo da USP, todas as estruturas estão completamente submersas assentadas sobre um assoalho marinho de 5 mil metros de profundidade.
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Se pudesse voltar no tempo…
Um viajante veria uma paisagem completamente diferente ao navegar no meio do Eoceno, entre 50 e 40 milhões de anos atrás.
Segundo os pesquisadores, as partes mais altas da Elevação Rio Grande estavam acima da superfície naquela época, formando uma grande ilha vulcânica, de clima tropical e, muito provavelmente, recoberta de florestas e rodeada por recifes.
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Com o decorrer dos anos, contudo, essa paisagem teria sido naturalmente erodida pela ação do vento, da chuva e das ondas, por exemplo, e recoberta por sucessivos derramamentos de lava. Essas ações da natureza deram origem ao que os cientistas enxergam hoje, debaixo d’água, como tapetes de argila vermelha (solo petrificado) espremidos entre camadas de basalto preto (rocha vulcânica).

Foto: Google Earth
As primeiras evidências da Elevação do Rio Grande
- surgiram em fevereiro de 2018, numa expedição que utilizou o navio de pesquisa Alpha Crucis para caracterizar depósitos minerais na ilha;
- dragagens de pesquisa realizadas no topo da elevação trouxeram à tona uma amostra de argila vermelha, que os pesquisadores suspeitaram ser uma espécie de solo fossilizado (paleossolo) — algo que só poderia ter se formado em um ambiente terrestre e de clima tropical (ou seja, na superfície) —, além de outras feições geológicas que sugeriam a existência de praias, rios e erosão por chuva no passado;
- a dragagem, não permitia aos pesquisadores saber como aquela argila estava disposta no topo da ERG — a 650 metros de profundidade. Sabiam apenas que ela estava lá;
- o mistério só foi solucionado numa segunda expedição, realizada oito meses depois, desta vez com o navio de pesquisa RRS Discovery, do Centro Nacional de Oceanografia da Grã-Bretanha. O projeto foi realizado em parceria com pesquisadores da Universidade de Southampton, na Inglaterra.
Definitivamente tropical
De acordo com a revista Scientific Reports evidência definitiva ocorreu após uma análise detalhada da composição e das propriedades (geoquímicas, minerais e magnéticas) da argila coletada.
Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que essa camada argilosa é resquício de um solo orgânico, típico de ambientes tropicais, que só poderia ter se formado na superfície. “Fizemos todas as análises que podiam ser feitas e conseguimos entender a história geológica daquelas argilas”, diz o professor Luigi Jovane, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, que participou das expedições e coordenou as análises do material.
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“Não temos dúvida de que seja um paleossolo; não tem outra fonte para aqueles minerais”, salienta o pesquisador, que acrescenta ainda que, em seu estado original, esse solo era idêntico ao daquela terra vermelha, típica do interior paulista. “O fato de que estamos encontrando esses indícios, de que essa área era uma ilha até pouco tempo atrás, é muito importante, porque mostra que havia uma relação direta com o continente”, avalia.
Entretanto, segundo a USP, isso mão significa que a Elevação do Rio Grande chegou a ficar conectada diretamente com o continente, já que é separada da plataforma continental e do Platô de São Paulo por um cânion profundo, chamado Canal de Vema, que chega a ter 50 quilômetros de largura e 4,8 mil metros de profundidade.
O que Jovane afirma é que tudo indica que a ilha tem uma história conectada com a do Brasil, com clima e solos idênticos no passado.
O motivo de ter submergido
A Elevação do Rio Grande não submergiu em função da elevação do nível do mar, mas pela subsidência da própria ilha, que teria afundado à medida que a câmara magmática que existia abaixo dela (e a empurrava para cima) esfriou. Ou seja, foi a formação geológica que afundou, e não o oceano que a encobriu. É possível que isso tenha ocorrido mais de uma vez, dependendo do comportamento do magma.
Tamanho
Ainda não se sabe a verdadeira altura ou tamanho da antiga ilha, visto que o estudo é baseado em uma única amostra da Elevação do Rio Grande. Segundo a USP, “a elevação inteira, considerando todas as suas estruturas geológicas, tem o tamanho da Espanha [cerca de 500 mil km2] e só o seu maciço principal, a ERG Ocidental, de onde a amostra foi tirada, é maior do que o Ceará [150 mil km2]”.
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