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CRIMES QUE CHOCAM

O que leva um filho a matar os pais? Psicóloga fala sobre transtorno de conduta e sinais de que o adolescente não está bem

No intervalo de cerca de uma semana, em diferentes partes do Brasil, dois adolescentes assassinaram pessoas das próprias famílias

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Publicado em: 01/07/2025 às 17h:23 Última atualização: 01/07/2025 às 17h:39
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No Rio de Janeiro, um adolescente de 14 anos matou a tiros os pais e o irmão, de apenas 3, enquanto dormiam. Pouco mais de uma semana depois, um menino, 13, atirou contra os avós e matou a avó, no Paraná. Afinal, o que leva jovens a assassinarem quem, em tese, está cuidando delas?

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Adolescente de 14 anos matou pais e irmão no dia 21 de junho | abc+



Adolescente de 14 anos matou pais e irmão no dia 21 de junho

Foto: Redes Sociais/Reprodução

Embora seja difícil apontar um motivo exato, a psicóloga Ilana Andretta afirma que há possíveis potenciadores, no que se trata do crime que aconteceu no RJ: transtorno de conduta e fácil acesso a armas de fogo.

O adolescente que confessou ter assassinado os pais, no RJ, disse que matou a família, pois foi impedido de viajar para conhecer a namorada virtual, que mora em outro estado. Já o irmão, ele teria matado apenas para que “não sofresse” com a perda.

Assim como no RJ, um adolescente do Paraná, de 13 anos, disse ter atirado contra os avós por um motivo fútil. No caso, ele teve o acesso ao celular negado. O avô sobreviveu, mas a avó não resistiu.

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Embora os casos mais comuns de familicídio cometidos por crianças e adolescentes estejam relacionados filhos severamente abusados por anos, há casos em que os jovens assassinam os responsáveis por “algum tipo de objetivo egoísta — nunca mais ter que pedir emprestado o carro antes de sair, por exemplo”, segundo um artigo publicado na revista Psychology Today.

Geralmente, eles tendem a exibir comportamentos de transtorno de conduta. “Esses são os jovens que matam sem qualquer remorso e cujo os pais parecem ser amorosos e bondosos”, explica o estudo.

Frieza e o transtorno de conduta

O adolescente do RJ escondeu os corpos na cisterna de casa, onde permaneceram até serem encontrados pela polícia, cerca de quatro dias depois do crime. Ao serem descobertos pela polícia, o jovem confessou e ainda deixou claro, em depoimento, que “faria de novo”.

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E esta é a primeira questão que chama a atenção da professora do PPG de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos): “A frieza com que o adolescente fala dos crimes que cometeu, de ter matado a família.”

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Essa frieza é uma das observações que fizeram a psicóloga pensar no transtorno de conduta, que “envolve uma série de sintomas e sinais que, muito provavelmente, não apareceram do nada”.

Ele é caracterizado por padrões de comportamentos agressivos e antissociais, de acordo com um artigo publicado na Revista de Psiquiatria Brasileira. Como dito pela psicóloga, os primeiros sinais podem surgir cedo, ainda entre o início da infância e a puberdade, podendo persistir até a fase adulta.

Entretanto, Ilana afirma que não é possível diagnosticar o adolescente ou entender uma motivação para cometer o crime. Para isso, seria necessário fazer uma investigação profunda da vida prévia dele, desde como era na escola, se tinha relações interpessoais, até como era o relacionamento com a própria família. “Não o que está publicado nas redes sociais, mas sim o que era rotina real.”

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O transtorno de conduta é diferente de um adolescente que desobedece ou se torna mais irritado, o que é comum. No transtorno, os padrões de comportamento do jovem incomodam e podem ser até perturbadores.

“Uma coisa importantíssima para pensarmos o transtorno de conduta, é a ausência da empatia, da conexão emocional”, afirma Ilana, que possui especialização em Psicologia Jurídica e Psicologia da Infância e Adolescência.

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Adolescentes com o transtorno não aparentam estar sofrendo ou constrangidos quando as próprias atitudes não são boas. Eles “não se importam em ferir os sentimentos das pessoas ou desrespeitar seus direitos”. “Portanto, seu comportamento apresenta maior impacto nos outros do que em si mesmo”, explica o estudo.

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Além disso, os comportamentos antissociais continuam ao longo dos anos, “parecendo faltar a capacidade de aprender com as consequências negativas dos próprios atos”.

Sinais

Questionada se é possível que jovens que tenham propensão para matar demonstrem sinais antes de cometer os crimes, a professora da Unisinos explica que há indícios de que os adolescentes não estão bem. Dentre eles, estão:

• Tempo que ficam jogando;
• Isolamento;
• Dificuldade de interagir socialmente com outras crianças;
• Dificuldade nas relações na escola;
• Reações impulsivas e intempestivas;

Jogos virtuais violentos

Outro ponto que chamou a atenção da psicóloga é como o jovem teria conhecido a namorada virtual enquanto ambos jogavam online. Ela também é uma adolescente, de 15 anos, e mora em Mato Grosso. Recentemente, foi apreendida pela Polícia Civil por suspeita de envolvimento no crime.

Um ponto importante seria “avaliar o comportamento que essa criança tinha diante dos jogos virtuais”, disse Ilana. “Muitos jogos, online e de console, são extremamente violentos. E aquela realidade do jogo virtual passa a ser a realidade do adolescente.”

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Há estudos que mostram que jogos virtuais considerados violentos aumentam a ansiedade e a agressividade de adolescentes, segundo a psicóloga. “E isso também pode ser mais um critério diagnóstico para pensar o transtorno de conduta.”

Entretanto, apesar de ser um campo estudado há anos, o assunto é complexo e ainda não há um consenso. Conforme a resolução da American Psychological Association (APA) mais recente, não há evidência suficiente que ligue comportamentos violentos aos jogos.

“A violência é um problema social complexo que, geralmente, vêm de muitos fatores”, explicou a presidente da APA Sandra L. Shullman, na época em que a resolução foi publicada, em 2020.

Sandra afirmou ainda que “atribuir a violência a jogos não é cientificamente sólido” e roubaria a atenção de outros fatores importantes. Dentre eles, a história da violência, “que sabemos por conta de pesquisas que é o maior medidor da violência futura”.

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Armas de fogo em casa

Em ambos os casos, as armas de fogo estavam em casa, onde os jovens tinham fácil acesso, o que “é um perigo”, principalmente quando se trata de adolescentes, segundo a psicóloga.

O adolescente, que confessou ter assassinado a família no RJ, usou a arma do próprio pai, autorizado por lei a mantê-la como Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC).

Já o que atirou contra os avós no Paraná usou uma arma que ficava guardada em um baú, que ele arrombou, registrada no nome de um tio.

Ilana explica ainda que independentemente dos crimes terem sido cometidos em um ato impulsivo ou de maneira premeditada: “Essa política armamentista, que está de alguma forma inserida na nossa sociedade, é extremamente maléfica para pensar comportamentos na adolescência”, disse.

Ambos os crimes continuam sendo investigados pela Polícia Civil. Até o fechamento desta matéria, os adolescentes estavam internados provisoriamente em Centros de Socioeducação (Censes), nos respectivos estados.

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