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ENTREVISTA EXCLUSIVA

VÍDEO: O que disseram Antonio Fagundes e Christiane Torloni durante visita a Novo Hamburgo

Bate-papo com atores traz reflexões sobre a vida e a pressão do etarismo; confira

Publicado em: 06/06/2025 às 03h:00 Última atualização: 06/06/2025 às 09h:53
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Antonio Fagundes e Christiane Torloni passaram alguns dias de maio no Rio Grande do Sul. Começaram pelo Teatro Feevale, em Novo Hamburgo, com a apresentação da turnê Dois de Nós – Uma Comédia no Espelho. E foi no Hotel Swan que receberam a reportagem para um bate-papo exclusivo.

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Antonio Fagundes e Christiane Torloni em Novo Hamburgo | abc+



Antonio Fagundes e Christiane Torloni em Novo Hamburgo

Foto: Bárbara Ghidini/Hotel Swan

A comédia conta a história de um casal que se reencontra com sua versão 30 anos mais jovem e já atraiu mais de 60 mil espectadores. Em mais de 40 minutos, falaram sobre carreira, paixão pelo teatro e planos para o futuro. Aposentadoria? A palavra nem passa pela cabeça dos dois.

Vídeo

Entrevista com dois gigantes do teatro: Fagundes e Torloni falam de arte e longevidade

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Christiane Torloni e Antonio Fagundes na peça Dois de Nós | abc+



Christiane Torloni e Antonio Fagundes na peça Dois de Nós

Foto: Divulgação

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Com passos firmes, anéis nos dedos e uma roupa que lembrava um roqueiro da década de 1970, Fagundes foi o primeiro a chegar para a entrevista. As mais de quatro décadas de atuação juntos retratada no detalhe. Torloni só se referia a Fagundes pelo apelido Fafá. Um bate-papo em que os dois pareciam contracenar de forma sincronizada. Mas, curiosamente, toda a experiência conjunta em cena, a peça Dois de Nós, escrita por Gustavo Pinheiro, é o primeiro encontro de Fagundes e Torloni no teatro. Dividem o palco com Thiago Fragoso e Alexandra Martins.

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Pela primeira vez juntos no teatro

Christiane Torloni – A gente tem encontros muito ecléticos nos nossos trabalhos, dramas, romances… eu acho que a gente fez só uma novela que era uma comédia mesmo: Louco Amor, de Gilberto (Braga). No cinema, a gente teve um encontro muito bonito no Perfume de Gardênia que tinha uma pegada de comédia.

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Antonio Fagundes – Acho que é uma vitória fantástica nos dias de hoje conseguir fazer o público rir a ponto de aplaudir em cena aberta.

Os desafios de fazer comédia

Fagundes – Acho que é bem mais difícil, a comédia sempre foi vista como um gênero de segunda categoria. O poder tem medo da comédia, porque pela comédia você pode falar o que quiser. Fazer comédia depende de uma expertise que o drama não exige. O drama você facilmente se conecta com ele em silêncio. A comédia te provoca. Então, você tem que ter a exata noção do tempo, porque se você falhar um segundo aquela piada não funciona. Por isso que a gente diz sempre que é mais difícil fazer comédia.

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Torloni – Tem uma coisa interessante que o Gustavo desenha nesse espetáculo, que é uma verdadeira montanha-russa de emoções, então isso tem impactado o público. É um parque de diversão, sim, mas ela (a peça) é um parque de diversão que convoca as pessoas ao melhor da sua inteligência. Eu acho que o que a gente está vivendo com esse espetáculo é muito bonito, a inteligência do público é correspondida pelo texto.

O desafio de formar plateia para o teatro

Fagundes – Existem teatros e teatros. Acho que a gente não deve falar de teatro de forma única. Quando você vê uma peça que não gosta, você para de ir ao teatro? Não, o teatro continua sendo diversificado. Então, sugiro àquelas pessoas que não tiveram uma boa experiência em teatro que não abandonem, que retornem porque existem teatros que atingem ao público de uma forma que outros não.

Torloni – Eu vi o Fagundes no teatro pela primeira vez nos anos 70, no Muro de Arrimo. Eu, atriz e filha de atores, vou seguindo a carreira do Fafá, ele é um ator que sempre me interessou. O público faz a mesma coisa, entra numa sintonia contigo pela televisão, por exemplo, aqui em Novo Hamburgo é (foi) a primeira vez que vai provavelmente assistir ao Antonio Fagundes, a Cristiane Torloni, a Alexandre Martins e o Tiago (Fragoso) no teatro.

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Fagundes – A nossa carreira faz com que aquelas pessoas que nos viram na televisão, principalmente fora do eixo Rio-São Paulo, tenham a oportunidade de ver a gente em teatro. O teatro é que é 3D.

Influência das carreiras paralelas no teatro e na TV

Fagundes – Se a gente não tivesse feito televisão seria mais difícil atingir o público que costumamos atingir ao sair da nossa sede.

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Torloni – Tem atores que nem fazem teatro né, e isso tem a ver muito com o desejo da formação de cada ato. Eu não consigo me imaginar atriz sem fazer teatro.

Fagundes – Para o ator (o teatro) é a base de qualquer outro veículo que ele possa frequentar. A gente sabe de muita gente que não fez teatro e faz muito bem televisão, cinema, mas a gente sabe também que é muito mais difícil fazer isso sem essa base que o teatro dá.

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Torloni – Você tem um encontro, aí sim, inescapável com o público. Aconteça o que acontecer, deu um branco, tropeçou, quebrou uma sandália e vamos em frente e aí você vai vendo como isso faz parte da tua própria criatividade. Mas a grande vantagem é que está nas suas mãos. Para ser um ator de teatro você tem que ser uma pessoa corajosa. Gente que tem medo fica ali protegidinho, atrás de uma câmera. Por isso que você tem hoje os atores do celular, que ficam fazendo milhares de coisas pelo celular. O cara está protegido ali tem uma máquina que está protegendo ele.

A passagem do tempo, etarismo e futuro

Fagundes – Ator não se aposenta, ator acaba.

Torloni – Olha, minha mãe também tem 96 anos, segue firme.

Fagundes – Sempre tem um bruxinho velho para você fazer, o ator segue fazendo. E a gente realmente tem essa felicidade, são poucas as profissões que propiciam isso, e poucas pessoas têm esse privilégio, nós amamos o que a gente faz. A gente não está trabalhando.

Torloni – Engraçado, essa questão do etarismo acho que isso não vai pegar no teatro. Pega em outras categorias, e pega de uma maneira muito violenta e desumana. Porque você começa a ver umas coisas tão bizarras na televisão. Está se tentando baixar a idade de todos os personagens, e isso cria uma infantilização, isso é grave porque você vai ter pessoas de 40 e poucos anos agindo como se tivessem 18 ou 19, 20 e poucos. É legal ter 18 anos quando você tem 18 anos, quando você tem 48 anos é patético

Fagundes – Isso reflete as estatísticas do país. Nós já estamos com mais de 10% da população com mais de 65 anos. Não é nada, mas são 22 milhões de pessoas.

Torloni – Essa coisa do etarismo é uma miséria civilizatória. Porque você pega meninas de 15 anos fazendo botox. Você diz, que é isso? A pessoa nem acabou de crescer, já está operando o peito. Eu vou te dizer uma coisa, fui bochechuda até uns 30 anos e eu disse assim, gente, vou continuar com essa bochecha até o quarto, porque isso é ridículo. Também o tempo tem que passar. E a nossa peça fala sobre a passagem do tempo também, a bênção da passagem do tempo.

Fagundes – A peça é exatamente essa transição, ela pega ele realmente, e o Gustavo faz isso muito bem, ela pega exatamente o que aconteceu com a gente de 30 anos para cá, o que aconteceu com a mulher através do personagem da Chris e da Alexandra, e o que aconteceu com o homem, o que está acontecendo ainda com o homem e que está acontecendo com a mulher. O empoderamento da mulher e, digamos, a destruição desse macho alfa tão tóxico que a gente viveu na década de 70, de 80 e que agora estamos querendo afastar da nossa realidade porque ele não é conveniente. Então, a peça analisa isso com muito bom humor, e é por isso que eu acho que ela funciona. Exatamente essa, digamos, essa evolução que a gente está sempre tentando imprimir.

Torloni – E uma certa gentileza, generosidade com a vida das pessoas, senão você tem que matar um leão por dia, na vida. Isso é injusto, é desumano.Tem um texto que o Fagundes fala na peça que é sobre essa obrigação de você ser o provedor ou a mulher ter a obrigação de ser a do lar. Quer dizer, onde é que está a ternura da vida, a delicadeza da vida, a gentileza da vida, o prazer da vida. Essa pressão que a gente tá vivendo, voltando à questão do etarismo, da inteligência artificial, do eu tenho que vencer na vida. Mas o que é vencer na vida? O que é vencer na vida pra você pode ser uma coisa, pra mim, outra, pra ele, outra, o que é ser honesto, ser feliz. O que é ser feliz? Ser feliz se dando bem em cima do outro, sendo feliz no seu ateliê, pintando seu quadro ou então sendo jornalista, cada um achando o seu…

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