Uma investigação da Polícia Civil revelou como um engenheiro utilizava relações de proximidade e uma estrutura digital complexa para extorquir grandes empresários do Rio Grande do Sul.
Sob o pretexto de vender o silêncio sobre supostos dados sigilosos, o suspeito pedia resgates em criptomoedas que, somados, chegam a R$ 10 milhões, segundo pontam os investigadores. A Polícia ainda busca confirmar quais pagamentos foram relizados. A ofensiva para desarticular o esquema aconteceu nesta quarta-feira (24), com o cumprimento de prisão preventiva e de busca e apreensão em Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
O objetivo é recolher dispositivos eletrônicos, documentos e chips telefônicos que ajudem a dimensionar a totalidade dos crimes.
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Foto: Polícia Civil
A emboscada digital pelo WhatsApp
O esquema começava de forma abrupta e foi denunciado por uma vítima, em janeiro. Conforme relatou para a Polícia, esta vítima foi adicionada compulsoriamente a grupos de WhatsApp junto com seus familiares. Logo em seguida, o golpista enviava mensagens alegando possuir dossiês com informações confidenciais obtidas por meio de infiltrados em empresas e conexões com órgãos públicos.
Para que os dados não fossem vazados na internet ou vendidos a terceiros, ele exigia uma “taxa de anonimato e proteção” de 10 Bitcoins, o equivalente a cerca R$ 4 milhões.
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O que mais impressionou as vítimas e os investigadores da Delegacia de Polícia de Investigações Cibernéticas Especiais (Dicesp) foi o nível de detalhamento dos criminosos. Eles demonstravam conhecimento profundo sobre a rotina das famílias, nomes de funcionários, clientes e parceiros comerciais, o que tornava as ameaças altamente verossímeis.
Do ramo imobiliário aos supermercados
A partir da denúncia de uma das vítimas, a polícia começou a cruzar registros digitais e descobriu que o golpe não era um fato isolado. Empresários de destaque nos setores de construção civil, administração de imóveis e grandes redes de supermercados também estavam na mira do mesmo operador, que mantinha exatamente o mesmo padrão de atuação.
Para mascarar a autoria e burlar o rastreamento dos órgãos de segurança, o investigado utilizava uma tática deliberada: operava um único aparelho celular, mas alternava constantemente dezenas de chips cadastrados em nome de terceiros.
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Traição e falsas pistas envolviam amigos e conhecidos
O avanço dos trabalhos da investigação colocou um engenheiro, funcionário de um grande conglomerado de supermercados, no centro das investigações.
Segundo a polícia, ele aproveitava o acesso a informações privilegiadas no ambiente de trabalho e em seu círculo social para mapear alvos de alto poder aquisitivo. Os próprios sócios da empresa onde ele trabalhava se tornaram vítimas.
A investigação também revelou contornos de traição pessoal. Entre os extorquidos está um idoso aposentado, figura conhecida em Porto Alegre. Segundo a Polícia, ele mantinha uma relação tão próxima com o engenheiro a ponto de tratá-lo como filho, devido a uma longa amizade com o pai do suspeito.
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O investigado usou os dados pessoais desse senhor para habilitar as linhas telefônicas e e-mails usados nos crimes, em uma tentativa de incriminá-lo e despistar a polícia.
Outra vítima recente foi uma arquiteta, amiga íntima da esposa do engenheiro. Usando a proximidade familiar para colher dados, ele enviou as mensagens de extorsão para ela na semana passada, exigindo o pagamento em criptoativos.
Com a apreensão dos materiais em Gravataí e Viamão, a Polícia Civil agora trabalha para analisar o conteúdo dos dispositivos e identificar se há mais pessoas envolvidas no suporte técnico ou no vazamento das informações que subsidiavam os dossiês.