“Foi, sem dúvidas, um dos momentos mais difíceis. Em poucas horas, o fogo levou tudo.” O sonho de transformar memórias congelantes, a -15°C, tornou-se cinzas diante de um incêndio que durou mais de 12 horas. Em outubro de 2025, um sinistro atingiu o Castelo de Gelo, novo empreendimento da Hector Studios, que prometia ser o maior icebar temático do mundo, como 1,2 mil metros quadrados e tematização inspirada na Bela e a Fera.
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Foto: Paulo Pires/GES-Especial
Meses após, novas informações foram reveladas pelos responsáveis, entre eles, o sócio Eduardo Kny, conhecido como Dudu. Além de um impacto financeiro estimado em R$ 25 milhões, três funcionários de uma empresa contratada para fazer a área de refrigeração foram indiciados pela Polícia Civil, devido à retirada indevida de um equipamento chamado de Sitrad, considerado a “caixa preta” que poderia revelar o início do sinistro.
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As informações foram divulgadas em coletiva de imprensa realizada em Porto Alegre, nesta segunda-feira (26).
Dois laudos, mesmo começo do incêndio
Um laudo técnico foi realizado pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP-RS), através de inquérito da Polícia Civil. Outro, foi contratado de forma particular pela Hector Studios. Os dois chegaram ao mesmo ponto quando se fala sobre o início do incêndio. “Os dois laudos apontam com clareza o início do incêndio, no segundo andar, onde era a câmara fria, onde foi instalado o sistema de refrigeração”, aponta.
“Sempre buscar a verdade técnica, não estamos aqui para criar versões, para especular. Apenas respeitar os fatos. Além das autoridades, contratamos uma perícia independente, reconhecida nacionalmente.
O que tu faz quando teu maior projeto pega fogo? Tu contrata uma perícia, para evitar que aconteça de novo”, explica Dudu.
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Investigação e indiciamento
Ao longo de dois meses, as investigações ficaram sem andamento. Em grande parte, devido à retirada indevida, no dia posterior ao incêndio, do Sitrad, um dispositivo técnico comparado à “caixa-preta” das câmaras frias, que armazena dados em tempo real, com tudo que acontecia, como falhas, a temperatura, entre outras informações. Ele é considerado imprescindível para entender o que motivou o início da ocorrência.
O equipamento teria sido removido após funcionários da Dufrio, empresa milionária responsável pela instalação dos equipamentos, identificarem-se como prestadores de serviço da Hector. “Três pessoas foram indiciadas por isso. Devem responder por incêndio culposo, fraude processual, falsidade ideológica”, justifica Dudu. “As pessoas foram de manhã, se passaram por trabalhadores da minha equipe, para retirar e falar com o bombeiro, a área estava isolada”, complementa.
O Sitrad teria reaparecido quando os funcionários foram intimados. “Quando o único equipamento sai da cena antes da perícia, a reconstrução desses fatos se torna muito mais difícil. Essa informação não havia sido comunicada ao Castelo de Gelo, nem apresentada espontaneamente às autoridades. Por que esse equipamento não permaneceu na cena? Por que não houve a comunicação imediata? Por que só apareceu meses depois por um inquérito policial?”, questiona o sócio.
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Ele ainda levanta outras preocupações. “Quem garante que é o equipamento que estava lá, que não foi violado? Mas a Dufrio acha que é normal retirar esse equipamento”, diz.
Dudu relembra que o sistema de refrigeração estava sendo instalado e em fase de testes no dia que ocorreu o sinistro. “Iniciamos o projeto há anos, desde a concepção da ideia. As obras iniciaram no ano passado, com a renovação da fachada, com a retirada cenográfica onde seria instalada a área de refrigeração, porque, por óbvio, estávamos construindo um Castelo de Gelo, as pessoas entrariam a -15°C. Foi instalada a câmara fria, a parte civil começou há meses no andar, com painéis, isolamento do piso, preparação do ambiente. E nada foi feito pela nossa empresa, com respeito e responsabilidade técnica”, alerta.
Sobre a escolha da Dufrio para o serviço, é enfático. “O primeiro dos nossos pilares é a segurança, é a integridade física, a segurança financeira. Fomos na maior empresa do mercado, compramos os melhores equipamentos e se olhar o orçamentos, fomos na Ferrari dos equipamentos, não foi nada amador. Mas especificamente no dia do incêndio, estava se ‘startando'”, pontua, acrescentando que seis ou sete máquinas refrigerariam o ambiente.
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Tinha seguro?
Uma das novidades do caso diz respeito ao seguro, uma das dúvidas de grande parte da comunidade. Conforme o sócio Dudu Kny, o empreendimento ainda não havia contratado. “Não havia seguro, não havia rede de proteção financeira. Quando o Castelo caiu, a empresa caiu junto. Somos uma empresa pequena, apesar de parecer grande. E de outro lado, temos uma empresa bilionária”, coloca.
“Se eu ou a empresa tem alguma responsabilidade, é de não ter seguro, estar descobertos”, completa Dudu. A ideia, ainda, era que houvesse a contratação após a conclusão da instalação dos equipamentos técnicos. Havia negociação com empresas já do setor.
Realocação de funcionários e ingressos vendidos
Segundo o empresário, mais de 30 pessoas foram contratadas, entre artistas do elenco e funcionários, para trabalhar no local. Grande parte foi realocada entre os diferentes empreendimentos da Hector Studios, para que não houvessem demissões.
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Já em relação aos ingressos, durante o lançamento, foram 2 mil entradas vendidas. Os consumidores receberam a opção de troca por experiências nos restaurantes da marca – Hector Pizzaria, Ferrovia Secreta e Era do Fogo – e ainda parte do valor em dinheiro.
Futuro do empreendimento
O sonho de erguer novamente o Castelo de Gelo permanece em pé. Porém, ainda não se sabe se será possível. O inquérito está em fase de finalização e tramita sob sigilo.
“Muito difícil falar isso, pois não tivemos acesso ao local ainda. Mas estruturalmente não sabemos até que ponto está condenado ou não. Foi um incêndio que quase não houve chamas, tudo incinerado por fuligem, no primeiro andar houve algumas coisas preservadas. Estimamos aí um prejuízo de R$ 25 milhões, tudo o que foi perdido e o que precisará ser feito”, explica o proprietário.
Ainda conforme Dudu Kny, o empreendimento, devido ao inquérito e interdição, encontra-se em estado preocupante. “É preciso acessar local, fazer prova judicial. Hoje estão sendo roubados cabos externos e não podemos fazer nada, tem mato crescendo. Estamos devendo alugueis atrasados, para fornecedores. Pessoas que eu devia R$ 50 de material elétrico, pedindo prazo de 12 meses”, lamenta.
“Ainda não sabemos se será possível reconstruir, por vários fatores, técnicos e financeiros.”
Um ajuizamento de ação civil deve ser realizado nos próximos dias contra a Dufrio pela Hector, para buscar o dano sofrido e o nível de responsabilização da empresa que fez esse trabalho.
Veja o que diz a Dufrio
A Dufrio encaminhou ao ABCmais uma nota sobre o caso. Confira na íntegra abaixo:
“A Dufrio acompanha e tem interesse no esclarecimento das causas do incêndio do Castelo de Gelo em Gramado. A empresa entende que seus colaboradores e seu fornecedor agiram de acordo com a orientação dos proprietários do empreendimento e com a autorização dos Bombeiros para a retirada do Sitrad, com o objetivo de preservar informações para elucidar o caso.
Reiteramos que o Sitrad tem identificação única e é inviolável e as informações nele contidas são fidedignas e asseguradas por laudo técnico do fabricante. O aparelho foi entregue à autoridade policial assim que solicitado e está sendo analisado pelo Instituto Geral de Perícias (IGP). Em razão disso e de outras questões importantes ainda pendentes e que não constam no relatório policial, acreditamos que o indiciamento é precoce e equivocado.
A Dufrio é uma empresa sólida com 28 anos de mercado, que atua com base em critérios rigorosos de qualidade e segurança, e colabora plenamente com as autoridades. A empresa apoia seus colaboradores e seu fornecedor terceirizado, confia no processo legal e acredita que o exame técnico dos fatos acarretará na desconstituição do ato de indiciamento pelo Ministério Público.”