Morreu neste sábado (5), em Novo Hamburgo, Adrianus Willem Vogelaar. Ele tinha 93 anos e fez história na aviação brasileira e mundial ao fabricar, por décadas, maquetes de avião da mais alta qualidade. “Líder mundial no que faz”, disse quatro anos atrás, em uma entrevista com Vogelaar, o especialista em aviação Gianfranco Beting, conhecido como Panda Beting.

Foto: Reprodução
Nascido na Holanda, Vogelaar veio com a família para o Brasil ainda jovem. Após passagem pelo Sul do Estado, a família mudou-se para Novo Hamburgo, onde Adrianus começou a criar brinquedos. Artista com rara habilidade manual, logo passou para as maquetes de avião. Era o começo do período de ouro da Varig e, por morar perto de Porto Alegre, onde ficava uma das bases da companhia, ele tratou de vender seus produtos para a empresa.
Começava ali a história da Miniaturas Vogelaar, firma hamburguense que virou sinônimo de maquetes de qualidade na aviação nacional e internacional. A Vogelaar colocou Novo Hamburgo no mapa mundial de quem é apaixonado por aviação. Até poucos anos atrás, era comum que pilotos e entusiastas da aviação viajassem até a cidade do Vale do Sinos para visitar Adrianus Vogelaar, sua fantástica fábrica de aviões em miniatura e seu museu particular.
Expresso Rio Grande-São Paulo
Quatro anos atrás, em entrevista a Panda Beting, Vogelaar lembrou do início da profissão. “Tem peça ali que não sei como consegui fazer. Tinha muita vontade de fazer e fui atrás”, resumiu, dizendo que suas primeiras maquetes profissionais, na segunda metade dos anos 1950, foram para a icônica transportadora hamburguense Expresso Rio Grande-São Paulo.
“Encontrei o diretor e perguntei se ele não queria uma maquete daqueles belos caminhões. Ele disse que sim e encomendou três. E depois mais três. Um dia atravessei a cidade com um desses caminhões e aquilo chamou atenção na rua. Era junho e garanti encomendas de brinquedos até o Natal”, contou Vogelaar na entrevista. “O dinheiro que ganhei ali ajudou na compra do meu primeiro terreno”, frisou.
Maquetes de avião
Era 1959 e o então jovem artesão, que fez curso técnico de marcenaria e já era um sucesso em Novo Hamburgo, foi a Porto Alegre participar de uma exposição na Fiergs. “A Varig estava montando um estande para receber o avião Caravelle e José Machado perguntou pra mim, com a voz rouca: ‘Tu faz maquete de avião também?’ Dá pra tentar, respondi. E passei no escritório dele, conforme combinado. O resultado foi a venda de 25 maquetes de Caravelle”, resume, mostrando o exemplar número 1, que guardou até o fim da vida.
“No ano seguinte, me chamaram na Varig e encomendaram mais uma dúzia de aviões 707, sem nem perguntar quanto eu cobraria”, conta, dizendo que começava ali a produção em escala. Além dos aviões, era preciso fazer figuras de pilotos e comissárias de bordo. “Contei com a ajuda da minha irmã e de algumas senhoras que faziam pintura de porcelana. Foi um espetáculo”, contou na entrevista.
No início dos anos 1970, Vogelaar já fazia maquetes do icônico modelo DC-10 na escala 1:24, com dois metros e meio de comprimento. “Duzentas figurinhas em cada um”, salientou, referindo-se aos detalhes do avião e as figuras humanas que precisavam fazer parte da obra. “Foram 5 mil figurinhas”, calculou. Para dar conta, foi preciso aprimorar as técnicas de trabalho e o uso da resina.

Foto: Reprodução
Para o mundo
Na mesma entrevista de quatro anos atrás, Adrianus Willem Vogelaar listou que, além do Brasil, fez maquetes para empresas e colecionadores de países como Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Venezuela, Jamaica “e até para a Boeing”. “Tinha dez pessoas trabalhando comigo só nas maquetes, da moldagem à pintura e decoração”, lembra. Sempre que a Boeing lançava um avião, mandava desenhos de três metros para que Vogelaar fizesse suas miniaturas.
O holandês de nascimento e hamburguense de coração arriscava ter produzido 5 mil maquetes de avião ao longo de 45 anos, mas não sabia ao certo nem o número de unidades e nem o de modelos. Na entrevista, mostrou exemplos de um avião da companhia aérea Swiss que teve apenas um exemplar produzido e de um raro Atlântico feito em comemoração pelos 60 anos da Varig. “Foram 250 peças. Tive que pesquisar somente em fotografias antigas.”
Na entrevista, Vogelaar disse que sua maior peça foi o Graf Zeppelin LZ-127, feito na escala 1:60 e que atualmente está exposto no Museu da PUC, em Porto Alegre. “O dirigível tinha 240 metros”, destacou. Já a menor maquete (ou uma das menores) foi a de um Learjet 24, um dos primeiros aviões da marca registrados no Brasil.
Zero defeitos
Alvaro Neto, que foi comandante internacional na Varig e estava na cabine do voo do penta, em 2002, assegura que os modelos Vogelaar estão entre os melhores do mundo. “Mesmo com toda a tecnologia que existe hoje em dia”, ponderou. O piloto recorda que, quando viajava o mundo pela Varig, orgulhava-se ao ver expostas nas lojas da companhia as maquetes feitas em Novo Hamburgo. “Eram uma atração.”
“Ache um defeito em um modelo da Vogelaar”, provocou Panda Beting no vídeo, dizendo que todas as peças produzidas pela empresa são “de excelência”. “Adrianus Vogelaar foi um líder mundial no que fez com tanto talento e perfeição ao longo de quase 50 anos. Sua arte ajudou a despertar a paixão pela aviação em muita gente ao redor do mundo”, finalizou em vídeo desta segunda-feira (7) onde lamenta a morte de Vogelaar.

Foto: Arquivo pessoal
Memória de infância
O presidente do Aeroclube de Novo Hamburgo, Alceu Feijó Filho, guarda com carinho uma foto que recebeu das mãos de Adrianus Willem Vogelaar dois anos atrás. A imagem em preto e branco mostra Feijó ainda criança olhando encantado para duas maquetes feitas pelo artista holandês, que sempre levou uma vida muito discreta em Novo Hamburgo.
“A foto foi feita entre 1967 e 1968. Meu pai, o fotógrafo Alceu Feijó, foi fazer uma reportagem com Vogelaar e me levou junto. Foi quando conheci o trabalho do Vogelaar. Era encantador ver aquelas miniaturas com altíssima qualidade. Ele sempre foi uma excelência no que fazia e tinha uma proximidade com o aeroclube”, recorda Feijó.
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