O cenário de uma rua tranquila, onde vizinhos sentavam nas calçadas para tomar chimarrão no final da tarde, mudou drasticamente desde agosto de 2021.
Com a inauguração da República Esperançar, um espaço de acolhimento de pessoas em situação de rua, a Rua Walter Neves, no bairro Cohab casas, teve sua rotina completamente alterada, gerando indignação nos antigos moradores.

Foto: Renata Strapazzon/GES-Especial
“Virou uma cracolândia. Quem não consegue entrar no albergue, muitas vezes por já estar alcoolizado ou sob o efeito de drogas, acaba dormindo nas calçadas ou nas paradas de ônibus”, comenta a aposentada Elizabeth da Silva Pinheiro, 63 anos.
Mas não é só à noite que os problemas se espalham pela rua. Sem poder permanecer na república, os usuários do serviço vagam pelas redondezas durante o dia, pedindo dinheiro e comida nas casas vizinhas.
Em uma praça, localizada na Rua Antônio Carvalho Bitencourt, paralela à Walter Neves, cenas de sexo, e até mesmo de zoofilia já foram flagradas por moradores em plena luz do dia.
Abaixo-assinado
Descontentes com a situação, os moradores, grande maioria deles residente há mais de quatro décadas no bairro, organizaram um abaixo-assinado pedindo a retirada da república do endereço. O documento, entregue há dois meses ao prefeito Volmir Rodrigues, reuniu cerca de 400 assinaturas.
“Entendemos que este tipo de serviço precisa existir, mas que não seja em meio a residências particulares”, comenta uma outra moradora, que pede para não ser identificada.
Desde que a República foi inaugurada, a mulher diz manter as janelas da casa a maior parte do tempo fechadas e se diz amedrontada.
“Mudei a minha rotina, hoje para ir à academia chamo um carro de aplicativos. Não vou mais a pé como antes. Outro dia fui abordada por um dos usuários do albergue que disse saber meu nome e quem morava na minha casa, uma tentativa clara de intimidar”, conta.
O receio em sair na rua, segundo os vizinhos, agora é uma constante. Muitos evitam andar com celulares e joias. Além disso, desentendimentos entre os albergados já tiveram que ser, algumas vezes, contidos pela Brigada Militar.
“Antes as pessoas gostavam de passear na rua com as crianças, o pessoal ficava na frente das casas, conversando. Hoje muita gente desvia daqui, evita passar pela rua por medo”, completa a dona de casa Marisa Clavé, 73.
A situação tem feito com que algumas famílias pensem em mudar de bairro. Moradora da Rua Walter Neves há 43 anos, a aposentada Jussara Batista Pereira, 69, diz que colocará a casa à venda. “Esta situação está desvalorizando nossos imóveis”, desabafa.
Situação "não é de hoje", diz prefeitura
Em nota, a Comunicação Social da Prefeitura de Sapucaia do Sul informou que “não é de hoje que a população em situação de rua vagueia pelas ruas do bairro Cohab, bem como pela cidade como um todo”. “E temos observado, que os moradores continuam oferecendo refeições, muitas vezes sem ao menos os usuários/as pedirem. Sendo que em nossa última reunião de alinhamento com a SMDS (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social), prefeito, Corpo de Bombeiros, vereadores, República e o presidente da Associação dos Moradores da Cohab havíamos feito o acordo de que isso não mais se repetiria, visando diminuir o incômodo que os moradores relataram”.
Sobre o funcionamento do local, a nota especifica que as ações ocorrem de acordo com um plano de trabalho aprovado em licitação, havendo duas modalidades de serviço: república e abrigo emergencial. Durante o dia funciona a República, com 10 vagas para usuários que já deixaram de fazer uso de álcool e outras drogas e estão trabalhando ou estudando. Destas vagas, seis são para homens e quatro para mulheres. “Para essa modalidade, conforme consta no nosso plano de trabalho, as oficinas ocorrem mensalmente e nossos assistidos não ficam na rua, passam o dia ocupados trabalhando, estudando, etc. Os usuários/as que estão pelas ruas, são os da modalidade Abrigo Emergencial”, especifica o texto.
“Ressaltamos que não somos um Centro POP – Centro de Referência Especializado para a população em situação de rua, que funciona no período diurno, ainda não contamos com esse serviço no município.
Sem previsão de mudança
Mesmo com as constantes reclamações e a insatisfação dos moradores, a prefeitura destaca que, no momento, não há, por parte da administração municipal, a intenção de mudar a República de endereço. “Antes, eles ficavam na Praça General Freitas, dormiam nos bancos e até mesmo nas casinhas de artesanato, nas calçadas do Centro e bairros próximos ao Centro, além de outros locais do município. Permaneciam embaixo das marquises das lojas. Não tínhamos local adequado. A equipe de abordagem social tentava vagas em albergues de outros municípios para aqueles que desejassem ir. No inverno fazíamos ações, inicialmente com doações de cobertores e marmitas à noite e a partir de 2019 até 2021 abrimos o Ginásio João Freitas Filho para acolhimento emergencial no período de inverno. Salientamos que com a inauguração do espaço da República Esperançar, que foi uma exigência do Ministério Público para ofertarmos um serviço de qualidade e resgate da dignidade à população em situação de rua, não foi mais necessário realizar as ações emergenciais de inverno”, pontua a nota.