Já no navio de imigrantes italianos em direção ao Brasil, a diversidade linguística da Itália, com seus vários dialetos, naturalmente se misturou para que se tornasse mais fácil a comunicação. Ali começava a se formar uma nova língua. Ao chegar ao Brasil, esses imigrantes tiveram contato com a língua portuguesa. Apropriando-se de palavras do português, a nova língua ganhava mais “ingredientes”. Nascia assim o Talian, língua neolatina, única no mundo baseada em dialetos vênetos.

Foto: Aldo Toniazzo/Divulgação
Nestes 150 anos de imigração italiana, o Talian virou a língua oficial em 30 cidades gaúchas (além de quatro catarinenses), além de ser reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como referência cultural brasileira. Mas esta trajetória feita de muita mistura enfrentou e enfrenta obstáculos.
Em 1941, um decreto nacionalista do Estado Novo proibiu o falar Talian, entre outros falares estrangeiros. Quem falasse seria preso. “Este processo foi duro. Muitos não sabiam português, então evitavam sair de casa para não serem flagrados ou denunciados. Jovens e crianças foram estimulados a falar só português, com isso o processo de morte do Talian se iniciou com muita força”, analisa João Tonus, professor e ex-secretário de Cultura de Caxias do Sul, que se dedica à salvaguarda do Talian.
Dialeto era motivo de chacota
Passada a proibição, a tentativa de destruição da língua se deu por uma estratégia tão danosa quanto: a chacota, conceituando o Talian como um falar de pessoas ignorantes, fazendo os colonos sentirem vergonha da única língua que dominavam. “E permaneceu por muitas dezenas de anos por medo, depois por desprezo e bullying, por medo de exclusão nas oportunidades de emprego, nos grupos sociais. Um crime contra os cidadãos e contra uma cultura, uma riqueza de toda uma região do Rio Grande do Sul”, pontua Tonus.
Era preciso reagir para preservar a língua
A valorização da língua teve início ainda no ano de 1924, com a primeira publicação em Talian que se tem notícia: Vita e Stòria de Nanetto Pipetta (Vida e História de Nanetto Pipetta), de Frei Aquiles Bernardi, no Stafetta Riograndense. Em 1937, todas as crônicas foram reunidas e publicadas em livro. Outras obras chegaram a ser escritas, mesmo nos anos proibidos. Mas foi a partir de 1970, especialmente nos inícios dos anos 1990, que os escritores se reuniram e definiram uma gramática comum e assim se consolidou a Língua Talian. Nos últimos anos, publicou-se uma gramática e um dicionário.
Mobilização para perpetuar a língua
Na segunda década dos anos 2000, pesquisas feitas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), Associação dos Municípios da Encosta Superior do Nordeste (Amesne) e Secretaria Estadual da Cultura (Sedac) chegaram à mesma conclusão: o Talian está bastante vivo entre a população mais idosa, mas praticamente morrendo entre os jovens.
Diante deste cenário e desde a consolidação da língua, entusiastas como João Tonus se mobilizam por iniciativas que estimulem a prática entre os mais jovens. Uma das formas é a oficialização do Talian como segunda língua oficial por 30 cidades gaúchas. Em algumas delas, inclusive, o tema é ensinado nas escolas, como em Antônio Prado.
“Além de Antônio Prado, com certeza, mais uma dezena de municípios tem o Talian inserido no ensino fundamental. Na Serra Gaúcha, o maior movimento atual é conscientizar as famílias e as escolas que esta língua ficará viva se for praticada entre as gerações, se os nonos e os pais falarem com os filhos e netos”, pontua Tonus.
Neste sentido, o assunto chegou a universidades. Desde 2021, a Unicentro, do Paraná, oferece cursos de ensino do idioma. A Universidade de Caxias do Sul (UCS) aderiu à ideia e iniciou suas aulas no ano passado, iniciativa idealizada por Tonus. “Este curso da UCS tem foco na família. São encontros em casa, na família, pelo sistema de ensino a distância. Se compõem músicas, crônicas, provérbios, histórias e cultura da imigração”, detalha o professor.
As aulas de Talian na UCS ocorrem via Google Meet, com ensinamentos de componentes gramaticais e elementos culturais, como música e literatura, a partir de uma estrutura curricular desenvolvida por Tonus, com o apoio da professora Sabrina Fadanelli, coordenadora do Programa de Línguas Estrangeiras da UCS.
“Não é de hoje que a UCS pesquisa sobre a imigração italiana. Acolhemos e conseguimos ajustar o curso e planejar junto com os ministrantes para que ficasse agradável, pedagógico e cheio de referências culturais”, complementa Sabrina.
A professora explica que em 2025 serão duas edições do curso. Uma, que começou no último dia 13, e é voltada para iniciantes. A próxima edição será para quem já tem mais contato com a língua, incluindo para quem fez o curso em 2024. Inscrições seguem abertas pelo ucslinguas@ucs.br e pelo Whats (54) 9931-6841.
Escolas também ensinam a preservar o legado
Antes de chegar à universidade, o Talian já era ensinado em escolas da Serra Gaúcha. Desde 2010, a língua integra o currículo em colégios de Antônio Prado. Idealizadora da iniciativa, a professora Maria Inês Bernardi Chilanti conta que houve anos em que 28 turmas, da educação infantil ao 5º ano do ensino fundamental, participaram.
“A ideia inicial era para ser em italiano, mas com a demanda dos alunos, as atividades foram desenvolvidas também em Talian”, conta. Além de Antônio Prado, cidades como Serafina Corrêa e Nova Bassano também promovem iniciativas do gênero.
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A professora Maria Inês sugere ainda que a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) estimule o ensino da língua falada pela maioria dos alunos nas escolas da rede, bem como prefeituras apoiem grupos de teatro e corais em Talian. “Ele é mais que uma língua. É um veículo para a transmissão da cultura italiana e da história das famílias que migraram para o Brasil”, defende Maria Inês. Será uma lástima, uma pena, um crime se esta riqueza coletiva mantida sem nenhum custo público deixar de existir. Ela é a atração maior do maior complexo turístico do Rio Grande do Sul”, defende Tonus.
Arte ajuda a propagar o Talian
A arte também contribui para propagar o idioma dos descendentes italianos. Desde 1982, o grupo teatral Miseri Coloni encena peças em Talian. “Hoje, 43 anos depois, esta iniciativa é considerada a pioneira e a base para uma retomada do orgulho de ser imigrante, de ser colono”, afirma Tonus, que também atua no grupo.
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Ele lembra que o Miseri também teve um programa de rádio em Talian, e motivou o surgimento de outros programas. “Estima-se que hoje existam mais de 250 programas em rádio tradicionais, em web e lives”, pontua.
Em outubro do ano passado estreou a coprodução entre Brasil e Itália “Até que a música pare”, da cineasta gaúcha Cristiane Oliveira. Grande parte da produção é falada em Talian. O filme narra a história do casal Alfredo e Chiara, interpretados por Cibele Tedesco e Hugo Lorensatti, do Miseri Coloni. Na história, depois que o último filho sai de casa, Chiara decide acompanhar o marido em suas viagens como vendedor pelos botecos da Serra Gaúcha.
Filmado em cidades da Serra – Antônio Prado, Veranópolis, Nova Roma do Sul e Nova Bassano -, o longa aborda temas como relações familiares e luto, mas apresentados em outra perspectiva.
“A escalada recente dos discursos de ódio rachou muitas famílias no Brasil. Esse filme surge um pouco dessa dor e ao longo da construção do longa a gente se perguntava muito sobre quais são as palavras que fazem com que você desista de alguém que você ama. Qual é o limite da tolerância?”, explica a diretora.