“Sinto que posso acreditar na justiça da terra.” Essa declaração é de Letícia Mello, 41 anos, neuropsicopedagoga especializada em autismo, analista do comportamento e mestre em educação. Ela se manifestou após a notícia de que o cirurgião plástico Marcelo Evandro dos Santos teve R$ 10 milhões em bens bloqueados durante operação da Polícia Civil de Santa Catarina. Desde o ano passado, ela tem usado as redes sociais para falar sobre autoestima.

Foto: Arquivo pessoal
A decisão é um desdobramento da operação Temiscira, nome inspirado na cidade da mitologia grega que abriga o palácio das amazonas, e foi deflagrada pela Delegacia de Proteção dos Direitos das Mulheres e Crimes Contra as Relações de Consumo.
Natural de Florianópolis, Letícia é filha de gaúchos que viveram em Novo Hamburgo: o jogador e ator Breno Mello e Amelina Santos Corrêa, conhecida como Mana de Xangô, ambos já falecidos.
Letícia foi a primeira entre as quinze vítimas que denunciaram o cirurgião em uma ação criminal por lesão corporal em cirurgias realizadas em Florianópolis e Balneário Camboriú. Na quarta-feira (29), ela recebeu a informação diretamente do delegado da Polícia Civil de Florianópolis sobre os resultados da operação, um momento que representa um avanço significativo na busca por justiça.
Em 29 de fevereiro de 2024 (ano bissexto), a empresária passou por uma cirurgia estética em Florianópolis. O procedimento, que envolveu intervenções nas costas, glúteos, papada, abdômen, pernas, braços e mamas, durou cerca de dez horas. A série de procedimentosrealizados de uma só vez é conhecida como “X-Tudo”.
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Letícia saiu da cirurgia com intensas dores no corpo e com o lado direito paralisado e falta de ar. Ela foi transferida para outro hospital já que o primeiro não tinha UTI. “Em nenhum momento, em 20 dias que ele ficou comigo, disse o que eu tinha. Ele disse que era uma reação do meu corpo por eu ter a pele negra”, lembra.

Foto: Arquivo pessoal
Apesar de relatar seus sintomas ao médico, ele negou a gravidade da situação. Ao todo, Letícia ficou 72 dias internada, durante os quais partes da pele de suas pernas foram utilizadas para tratar áreas necrosadas de seu corpo.
“No dia 28 de fevereiro de 2025, completará um ano da cirurgia em que tive 25% do corpo queimado. Fiquei 20 dias sob os cuidados desse cidadão que me deixou ali para morrer. Depois disso, outro profissional assumiu meu caso e realizei seis cirurgias para reconstrução da barriga”, relembra Letícia.
Em abril, ela enfrentará o médico em uma audiência presencial, que será a primeira oportunidade de se encontrar com ele desde o ocorrido. “Sinto que vidas importam muito. Se ele não se importou com a minha, eu me importo com as outras que vieram a operar. Quando decido compartilhar que tentei tirar minha vida, mas encontrei a força para continuar, fico completamente feliz.”
Com mais de 69 mil seguidores do Instagram, ela divulgou imagens de um ensaio fotográfico nas redes sociais para mostrar as complicações resultantes da cirurgia. “Quero que mais mulheres não passem pelas mãos dele ou de nenhum profissional que nos deixe assim. Não somos apenas um pedaço de carne”, enfatiza Letícia.
Mesmo já indiciado pela Polícia Civil no caso de Letícia, o cirurgião Marcelo Evandro dos Santos segue divulgando seu trabalho nas redes sociais, em busca de novos clientes. A reportagem não localizou a defesa do médico. O espaço segue aberto para manifestação.