“É uma mistura de raiva com tristeza”, desabafa a dona de casa Marisa de Vargas, 58 anos, sobre se deparar com a sepultura da família violada e vandalizada no Cemitério João XXIII, no bairro Capão da Cruz, em Sapucaia do Sul.
No último fim de semana, diversos túmulos do local foram danificados. Pedras e caixões foram quebrados e animais mortos e bebidas alcoólicas deixadas no lugar. Segundo Marisa, a prática de trabalhos religiosos no local não é novidade.

Foto: Acervo Pessoal
“O que eu nunca tinha visto, era quebrarem caixões, retirarem os ossos. Isso é um desrespeito, um absurdo e se a gente reclama, alegam que estamos sendo intolerantes com a religião”, diz. Nas redes sociais, o relato é de que religiosos de outras cidades, como Viamão e Cachoeirinha, seriam os responsáveis pelos trabalhos e atos de vandalismo realizados nos cemitérios sapucaienses.
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Além do João XXIII, a situação também ocorre no Pio XXII, no bairro Lomba da Palmeira. “Infelizmente tenho vários familiares que estão sepultados nos dois cemitérios e é uma tristeza vermos o descaso com que esses locais são tratados”, comenta a administradora Valéria Junqueira, 48.
“Moro próximo ao Pio XXII, então passo na frente todos os dias, em todos os horários. Ele é fechado somente na frente e de um dos lados. O lado que fica próximo a uma mata nativa que tem aqui é completamente aberto, qualquer pessoa pode entrar. Tem até uma trilha que é usada por usuários de droga e moradores de rua”, conta.
Por causa da insegurança no cemitério, a comerciante Alice Vaz, 50, diz que vai retirar os restos mortais do pai dela do Pio XXII.
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“Não quero correr o risco de um dia chegar no cemitério e ver que a ossada do meu pai foi furtada para ser usada em trabalho religioso. Isso é o cúmulo. Já falei com meus irmãos e nos próximos dias vamos transferir os restos mortais dele para um cemitério particular”, comenta.
Procurada, a Prefeitura de Sapucaia do Sul respondeu em nota, enviada pela assessoria de imprensa, que “lamenta o ocorrido e informa que está atuando de forma integrada com a Guarda Municipal para coibir essa prática, incluindo operações específicas de combate ao vandalismo”.
“No momento, não é possível divulgar mais detalhes para não comprometer as ações em andamento”, informa o texto.
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Falta de muro é problema no Capão da Cruz
No Cemitério João XXIII, no bairro Capão da Cruz, outro problema que se arrasta há anos é a falta de muro no local, às margens da RS-118.
Segundo moradores próximos, a queda do muro teria ocorrido ainda durante as obras de duplicação da RS-118 e a situação estaria perdurando por cerca de quatro anos sem solução.
Durante as obras de duplicação da rodovia, a qual foi inaugurada em dezembro de 2020, o cemitério foi centro de discussões, já que parte de sua área, cerca de 10 metros do terreno, estava no caminho do projeto.

Foto: Renata Strapazzon/GES-Especial-Arquivo
Na época, uma das alternativas pensadas foi a desapropriação de parte da área do local e a remoção de 224 túmulos, com a retirada dessas sepulturas e a transferência para gavetas no Cemitério Pio XII, no bairro Lomba da Palmeira.
Porém, para realizar essa transferência, os corpos precisariam estar identificados e as famílias, autorizar a mudança. Nos casos em que não houvesse identificação, testes de DNA deveriam ser feitos para tentar identificar descendentes. Desde então, o problema segue sem solução.
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No ano passado, o secretário de Planejamento Urbano do município, Rafael Stroher, explicou que havia o projeto de refazer todo o muro em volta do cemitério e que ele estava parado, esperando a definição de um processo que corre junto ao Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer).
Por meio de nota, a Prefeitura reforçou, nesta semana, a existência deste projeto, mas destacou que “a execução está condicionada à definição do Daer sobre a posição final da pista lateral da rodovia”. O Daer foi procurado, mas não retornou os contatos feitos pela reportagem.