Uma comissão formada por moradores em busca de melhorias para o então 4º distrito de Gravataí. Este é considerado o início do que viria ser a história do município de Canoas que completa 86 anos nesta sexta-feira (27).

Foto: Arquivo Thiago Matheus Würth
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Debaixo de um poste de eucalipto no chamado mato do Pestalozzi, espaço hoje conhecido como Praça da Bandeira, na Avenida Guilherme Schell, cerca de 25 pessoas se reuniram para debater as demandas locais. A chamada comissão pró-melhoramentos teve seu primeiro encontro ainda em 1933 com a cobertura do jornal Correio do Povo.
“Eles se encontraram com a imprensa da capital e isso teve uma ampla cobertura jornalística na época. Entre os melhoramentos, estava a pavimentação com faixa de cimento para uma estrada que conectava a ponto do rio dos Sinos, em São Leopoldo, até a ponte do rio Gravataí”, explica a professora doutora Cleusa Graebin, do Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Bens Culturais (PPGMSBC) da Unilasalle.
O grupo, que tinha como um dos líderes Thiago Würth – fundador do instituto que atende alunos atípicos e homenageado em nome de rua, no Harmonia, e de escola, no Mathias Velho – deu os primeiros passos para a emancipação que viria seis anos depois da primeira reunião.

Foto: Arquivo Thiago Matheus Würth
“Esses movimentos já solicitavam uma série de demandas para o crescimento daquele espaço. Questão do trem, ônibus, luz, policiamento, água, estradas e a própria praça. Foram manifestos, circulares, discussões, associações que iam se formando no então distrito de Gravataí e com isso cresceu esse movimento pela emancipação da cidade”, detalha Cleusa.
Em 1938, o distrito foi elevado a condição de vila, movimento encabeçado pelo médico Victor Hugo Ludwig – prefeito de Gravataí em 1936 que dá nome a uma escola no bairro Mathias Velho. “Ele foi até Porto Alegre, levar uma carta, também dessa comissão, expondo os motivos para emancipação. Em 27 de junho de 1939, Canoas se torna um município emancipado de Gravataí”, conta a professora, cuja pesquisa contou com o apoio da doutora Miriane Steiner de Souza e da mestra Miriele Steiner de Souza, ambas integrantes do PPGMSBC.
Entre rios, terras e céus; entre canoas, trens e aviões
A origem do nome Canoas é sempre motivo de curiosidade. Segundo informações, árvores presentes neste território eram utilizadas para a fabricação deste tipo de embarcação. O nome também foi dado a um dos muitos capões, vegetação típica da região. Um deles é o Capão das Canoas, próximo a primeira estação férrea da cidade que é considerada o centro do povoamento urbano do município.
Mas a ocupação deste pedaço do Brasil, como canta o hino canoense, começou lá em 1733, com a instalação de um rancho por Francisco Pinto Bandeira. Num espaço de 150 anos até a inauguração da via férrea, o território foi ocupado por famílias que vieram do interior, descentes de imigrantes alemães e italianos com plantações e criação de gado leiteiro, além do comércio – setor que permanece forte na cidade até hoje.
O espaço também foi ocupado por quem vinha de Porto Alegre e região para veranear mesmo antes da emancipação, reforça a professora Cleusa Graebin. O clima fresco em razão do Sinos e Gravataí, incluindo a localidade conhecida hoje como Praia de Paquetá, influenciou na construção de casas e pequenos hotéis.
A proximidade com os rios se somou a proximidade com o trem. Em 14 de abril de 1874 – data marcada no brasão de Canoas – foi inaugurado a via férrea entre Porto Alegre e São Leopoldo. A data é considerada um marco no povoamento urbano, segundo as pesquisas do jornalista e historiador João Palma da Silva, autor do livro As Origens de Canoas.
“É justamente a vinda dessas famílias para o então povoado que vai dando fomento à reunião de pessoas, à criação de um distrito – primeiro do Caí, depois Porto Alegre e depois Gravataí. Lembrando que era uma grande fazenda, a Fazenda Gravataí, da família Pinto Bandeira. Por isso, também a memória dessa família é tão forte na cidade”, ressalta Cleusa.
Se a linha férrea desenvolveu o povoamento, a instalação do 3º Regimento de Aviação Militar (3º RAv) também contribuiu para a elevação da importância do distrito. Fundada em 1933 em Santa Maria, a corporação foi transferida para Canoas em 1937, dois anos antes da emancipação.
A vinda o 3º regimento, trouxe para a cidade duas figuras que contribuíram para a história de Canoas: o próprio João Palma Silva, então militar e telegrafista da estrada de ferro; e Nemésio de Miranda Meirelles, também militar e fundador dos dois primeiros jornais de Canoas: O Cruzeiro e O Canoense, em 1935 e 1937, respectivamente.
Mas a corporação enfrentou dificuldades em relação a distância com a sede municipal em Gravataí. No ano seguinte, 1938, o então Cap. Av. Miguel Lampert, começou a ter conversas com o governo estadual para solucionar a questão. De acordo com o livro de João Palma da Silva, três cenários foram debatidos: transferência da sede municipal para Canoas; anexação do território de Canoas à Porto Alegre; e emancipação de Canoas, junto com a anexação de Santa Rita do Rio dos Sinos, na época distrito de Caí e atualmente Nova Santa Rita.
A solução veio no ano seguinte. A emancipação foi assinada em 27 de junho de 1939. A instalação do município se deu em 15 de janeiro de 1940, com a eleição do prefeito Edgar Braga Fontoura.
Canoas, cujo maior símbolo é um avião, é delimitada pelos rios dos Sinos e Gravataí e pelos arroios Brigadeira e Sapucaia. Por dentro, seus bairros são divididos em leste e oeste pela BR-116 e cortados por avenidas e viadutos.