Uma casa colorida, repleta de livros e com muitas histórias esperando a sua vez de ganhar vida na imaginação de quem lê. Dentro dela, mora um bibliotecário por vocação, dedicação e amor pela literatura. Esta é a Biblioteca Comunitária Dilan Camargo, no bairro Harmonia, coordenada pelo escritor Jairo Luiz de Souza, 63 anos. O espaço vai ser reinaugurado neste sábado (5), após ser atingido pela enchente no ano passado.
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Foto: Nicole Goulart/Especial
“É muito bom poder retornar. É muito bom se tornar uma pessoa útil dentro da comunidade”, define Jairo sobre reabrir oficialmente a biblioteca após tantos meses de limpeza, reforma e reorganização. As prateleiras abrigam um novo acerco de cerca de 3 mil livros, a maioria doados por moradores e parceiros que conhecem de perto esse espaço e até desconhecidos que se sensibilizaram com a situação.
“Nada aconteceria se não fosse a ajuda da comunidade e de pessoas que eu nem conheço. Teve uma moça que mora aqui no bairro, passou por aqui e perguntou se eu precisa de alguma coisa. Eu falei sobre o forro e ela me doou o forro. Se não fosse a ajuda, não tinha como fazer”, relembra todo o apoio que recebeu.
Mesa, cadeiras, puffs, e alguns exemplares foram também adquiridos através do programa federal Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura. “Eu tenho um pouco de dificuldade com computador e com essas burocracias, mas tentei e consegui. Vou tentar participar de mais editais porque temos demandas, não só a aquisição de livros, mas a conta de luz e reparos”, comenta.
Convite feito
No entanto, esta não foi a primeira vez que a biblioteca ficou danificada por algum evento climático. Segundo Jairo, foram pelo menos quatro episódios de temporais e ventanias que prejudicaram o funcionamento do espaço nos últimos anos.
Por isso, todo o esforço deve ser recompensado com uma casa cheia. A biblioteca será reinaugurada no sábado, a partir das 17 horas. Toda a comunidade está convidada para celebrar mais um recomeço. “Vai ter bolo. E digo para as pessoas trazerem um prato de salgado se quiserem”, afirma. A festa também promete disponibilizar brinquedos, livros e kits escolares para levar para casa, ambos estarão pendurados na árvore em frente à biblioteca.
“Sentimento de resiliência”, afirma escritor
Desistir, sem dúvidas, é uma palavra que não está no vasto vocabulário deste escritor que já foi letrista de banda de rock, aluno de teatro e vendedor por 20 anos. A resiliência não é somente por manter a biblioteca, mas por manter a dedicação ao espaço.
“Tive infarto com parada cardiorrespiratória, amputei uma perna, tive câncer”, conta. Desde que inaugurou, entre o final de 2008 e o início de 2009, a biblioteca ficou fechada por cerca de um ano para Jairo se recuperar do tratamento e de uma cirurgia. Na época, se chamava Simões Lopes Neto, em homenagem a um professor da faculdade que gostava do escritor. Quando reabriu, decidiu homenagear o também escritor Dilan Camargo com o foco em literatura para crianças.

Foto: Nicole Goulart/Especial
“É um sentimento de resiliência, de poder voltar e fazer o que mais gosto. Tem um significado afetivo e social, de poder levar a literatura para a comunidade. Não foi fácil, mas valeu o esforço. Conseguimos tornar a biblioteca melhor do que antes”, destaca.
Mesmo com um acervo reduzido, de 5 mil exemplares antes da enchente para 3 mil atualmente, os livros estão cada um no seu lugar, esperando pelos antigos e novos leitores. O mais novo cadastrado é o Douglas Vieira, 32 anos, morador do Mathias Velho. “Estou para parar aqui faz tempo. Eu a minha prima amamos ler e eu vou trazer ela aqui. Quando tem um lugar assim, é muito bom. Temos que fortalecer e valorizar para incentivar”, afirma Douglas que pegou dois livros emprestado.
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Foto: Nicole Goulart/Especial
“Antes da enchente, o acervo era grande e o público também. Depois da enchente, as pessoas ainda estão retornando e agora tem algumas pessoas novas como o Douglas”, observa Jairo.
Relíquias de uma biblioteca comunitária
Uma coleção de revistas de artes com mais de cem edições; edições dos anos 1940 e 1950, em capa dura, dos clássicos de Machado de Assis, Baruch Spinoza, John Dewey, John Dupré, Honoré de Balzac e Humberto de Campos. Além de edições da revista que história em quadrinhos Vertigo, publicada pela editora Abril nos anos 1990, e da versão em inglês do livro O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk – primeiro autor turco vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 2006.
Esses são alguns dos achados que bibliotecas comunitárias têm o poder de ter. Os livros são uma surpresa até para o próprio Jairo que ainda não conseguiu terminar de catalogar o acervo atual. “Esse aqui eu vou ter que ler. Humberto de Campos é muito bom”, diz entusiasmado.

Foto: Nicole Goulart/Especial
A biblioteca oferece livros mais recentes como o título Antes que o Café Esfrie, de Toshikazu Kamaguchi, e Eleanor & Park, de Rainbow Rowell, junto com exemplares de Agatha Christie e George R. R. Martin. São livros de literatura infantil, infanto-juvenil, brasileira, estrangeira, poesia, romance, ou seja, para todos os gostos.
Busca-se voluntários
Apesar do espaço pequeno, tem muito trabalho ainda a ser feito. O coordenador do espaço precisa de um bibliotecário voluntário para catalogar os livros no computador e conseguir fazer um controle melhor do que entra e do que sai como empréstimo. “Também preciso de alguém que possa fazer a limpeza, subir escadas. Antes da enchente, eu tinha parceiros que faziam isso, mas também foram atingidos e ainda estão se recuperando”, relembra.
A biblioteca também está aberta para novas doações de livros, exceto didáticos, e em bom estado de conservação. Os interessados no voluntariado ou na doação, podem entrar em contato pelos números (51) 3463-2805 e (51) 99802-7059, ou acessar o Instagram @bibliotecacomundilancamargo. Localizada em uma rua com nome de escritor, a biblioteca fica na José Veríssimo, 252, bairro Harmonia.