Aguardando uma ficha na fila formada em frente ao Centro de Esporte e Lazer Caic, na manhã desta sexta-feira (31), no bairro Guajuviras, Dolores Garcia, 64 anos, segurava firme, com as duas mãos, uma pequena pasta de cartolina carregada de documentos.
“Estou com tudo na mão e hoje não saio daqui sem encaminhar o registro da minha casa”, disse. “É um sonho que meu pai morreu sem conseguir conquistar. Tentou, pela última vez, em 2002. Hoje, enfim, eu consigo.”

Foto: LEANDRO DOMINGOS/GES-ESPECIAL
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Assim, com documentos em mãos e o sonho vivo na cabeça, centenas de pessoas se reuniram em um mutirão organizado pela regularização fundiária de terrenos da extinta Companhia de Habitação do Estado (Cohab-RS).
A iniciativa batizada de Projeto Terra – Eu sou Cohab integrou, em um mesmo espaço, a Secretaria Municipal de Habitação e Regularização Fundiária (SMHRF), a Secretaria Estadual de Habitação e Regularização Fundiária (Sehab), Registro Civil, Registro de Imóveis, Tabelionato, Defensoria Pública, Ministério Público e Exército.
A força-tarefa reunida visa agilizar processos e garantir as escrituras dos imóveis, conforme explicou o secretário de Assistência Social de Canoas, Márcio Freitas, que acompanhou os trabalhos.
“São gerações de pessoas que lutam pelo direito de chamar de sua a própria casa”, ressaltou. “Não vamos medir esforços para que cada uma garanta este sonho, o que é uma reivindicação muito antiga em Canoas.”
Custo alto
Também à espera da chamada, Rose Monteiro, 63 anos, afirma que o mutirão é uma oportunidade para quem não tem dinheiro garantir a escritura, já que o preço dos “papéis” ultrapassa R$ 8 mil.
“A gente tentou se informar lá em casa e acabou descobrindo que é tudo muito caro”, observou a moradora do Setor 1 do Guajuviras. “Na época, já dava quase R$ 8 mil de papéis. Ninguém lá em casa tem condições de pagar.”
Conforme o secretário Márcio Freitas, toda a iniciativa foi planejada visando justamente o custo zero para a população, já que grande parte não tem condições de arcar com os custos da documentação.
“É tudo de graça”, afirma. “Estamos atendendo a população de maneira digna, entendendo que esse é um processo necessário, mas que a maioria não conseguiria fazer parte se não houvesse a gratuidade dos serviços.”

Foto: LEANDRO DOMINGOS/GES-ESPECIAL
“Esperei uma vida”, diz aposentada
Uma das primeiras moradoras do Setor 2 do bairro Guajuviras, Maria Arlete Ribeiro, 70 anos, lembra muito bem de outros mutirões em que participou sem conseguir a regularização da casa.
Ela aponta que, em 1992, houve um mutirão organizado na Associação dos Moradores do bairro. Já em 2022, a movimentação foi semelhante no ginásio do Caic. O problema é que as demandas não foram atendidas.
“Esperei uma vida e espero que enfim consiga encaminhar os documentos”, desabafa. “Em 1992, eu levei tudo o que pediram direitinho. E em 2002 também. Só que, depois do mutirão, ninguém deu continuidade ao processo.”
Demanda
De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação, Canoas tem 4.394 imóveis aptos a serem regularizados. Trata-se do terceiro maior município com imóveis aptos, ficando atrás apenas de Pelotas e Porto Alegre.
O que muitos não sabem é que, além do bairro Guajuviras, há toda uma área, do outro lado da Avenida Boqueirão, nas imediações da Avenida A. J. Renner que também fazia parte da Companhia de Habitação do Estado (Cohab-RS).
Devido à demanda, o mutirão organizado em Canoas continuará neste sábado (1º), novamente no ginásio Centro de Esporte e Lazer Caic, das 9 às 16 horas.
“A gente compreende que alguns moradores queriam que houvesse uma divisão, mas organizamos tudo durante dois dias para que todos sejam contemplados ao longo do mutirão”, conclui o secretário Márcio Freitas.