Ari Melo, 55 anos, perdeu a pequena casa que alugava no bairro Mathias Velho, em Canoas, quando a enchente do ano passado inundou metade da cidade. Inicialmente abrigado em Gravataí, acabou se tornando morador de rua.
“Recebo um benefício, mas não consigo pagar o aluguel e comprar comida com ele”, diz. “Já tentei encontrar um cantinho para morar, mas ainda não deu. Então, continuo assim, vivendo um dia depois do outro, na rua.”

Foto: Paulo Pires/GES
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Ao voltar para o antigo bairro em que morava, Ari relata ter encontrado uma situação muito pior de miséria e mendicância. Acabou parando no Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC) por indicação.
“Me disseram que está meio abandonado”, lembra. “Parei e notei que havia outras pessoas na volta. Falaram que tinha gente dormindo lá dentro, mas não vi ninguém entrando e saindo.”
A permanência de pessoas em torno do prédio do HPS vem chamando a atenção, por meio de postagens de vídeos e imagens, desde a última semana, no entanto, é algo que moradores e comerciantes observam há quase um mês.
Morando a poucos metros do Hospital, Clara Fontoura, 54 anos, aponta que os primeiros começaram a dormir no local depois que um prédio próximo, onde dormiam, acabou alugado e passou a operar desde cedo.
“Eles dormiam debaixo de um toldo, mas o lugar acabou alugado e virou lanchonete”, explica. “Se mudaram para a frente do HPS. Chegaram outros e se instalaram ali na volta. Triste, mas o Hospital só serve para isso hoje”, lamenta.
Preocupação
Com um comércio instalado em frente ao Hospital de Pronto Socorro, Fábio Silva, 52 anos, explica que o cenário criado na fachada do HPS tem relação direta com a pouca vontade da Prefeitura em ver a obra concluída.
“No começo, a gente via uns vinte peões entrando para trabalhar, mas hoje se vê, no máximo, dois”, aponta. “Um conversou com a gente e disse que nem estavam pagando a empreiteira, por isso a coisa estava meio parada.”
Para Silva, o melhor seria ter mantido o Hospital de Pronto Socorro reaberto, com os setores reforçados, à medida que o tempo passasse e houvesse a compra de equipamentos.
“Só largaram os tapumes e enrolam desde que fecharam”, diz.
Reabertura
Durante o ápice da enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, no dia 4 de maio, o Hospital de Pronto Socorro de Canoas precisou ser evacuado.
Na época, os atendimentos acabaram transferidos para uma porta de emergência aberta no Hospital Nossa Senhora das Graças.
Meses depois, no dia 30 de setembro de 2024, a Prefeitura de Canoas reabriu o Hospital de Pronto Socorro para atendimentos de baixa complexidade.
Na época, havia três consultórios, sala de estabilização, 12 leitos de observação, 34 leitos de internação, laboratório e raio-x.
Cerca de 60 profissionais acabaram transferidos durante o processo de reabertura, no entanto, o local voltou a ser fechado no dia 16 de dezembro.
A justificativa, apontou a Prefeitura, era a otimização das obras necessárias para que o HPS voltasse a funcionar plenamente.
“A Passos de tartaruga”, diz secretário
Questionada por meio da assessoria de comunicação, a Prefeitura de Canoas se limitou a informar que as obras no HPS de Canoas continuam.
No começo do mês passado, pela quinta vez desde as enchentes de 2024, a Secretaria Municipal de Saúde adiou a reabertura da casa de saúde: o novo prazo é 26 de fevereiro.
Durante a coletiva organizada pela Administração, o secretário de Saúde, Marcelo Reis, chegou a citar a morosidade das obras.
“Existe a obra, hoje, muito a passos de tartaruga porque houve a necessidade de revisão dos projetos, mas ela está em execução. Existe recurso federal e estadual que custeia essa execução.”

Foto: Paulo Pires/GES
Local é acompanhado, avisa a Prefeitura
Por meio de nota encaminhada pela assessoria, a Prefeitura de Canoas informa que a equipe de Abordagem Social da Secretaria de Assistência Social atua de forma contínua e sistemática no atendimento a pessoas em situação de rua em diversos pontos da cidade.
As ações ocorrem diariamente, aponta a Administração, com oferta de acolhimento no Albergue Municipal, encaminhamentos para a rede socioassistencial, orientações sobre benefícios como Bolsa Família, além de direcionamentos para serviços de saúde e emissão de documentação civil.
Apesar do trabalho persistente da equipe técnica, parte significativa das pessoas abordadas recusa o acolhimento noturno e os encaminhamentos oferecidos, optando por permanecer nas ruas, inclusive em frente a prédios públicos, explica a nota.
A área no entorno do Hospital de Pronto Socorro é um dos locais que vêm sendo acompanhados com frequência, defende a Secretaria de Assistência Social. Mesmo após diversas tentativas de diálogo, a maioria das pessoas permanece resistente ao acolhimento e demais formas de auxílio.
Por fim, a Prefeitura destaca que, conforme a legislação vigente e as diretrizes da Política Nacional de Assistência Social e dos Direitos Humanos, não é permitida a retirada forçada de pessoas em situação de rua dos espaços públicos.
Para humanizar a abordagem e estabelecer vínculos com essas pessoas, a equipe oferece café com leite, lanche e, quando necessário, cobertores. A ação visa garantir o atendimento digno e respeitoso, mesmo quando há recusa ao acolhimento institucional, conclui a nota.