Servidor de carreira do Município há 19 anos, Marcelo dos Reis mal se sentou na cadeira como secretário de Saúde de Canoas e já tem uma missão complexa: transferir a emergência do Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC) para dentro do Hospital Universitário (HU) em 40 dias.

Foto: LEANDRO DOMINGOS/GES-ESPECIAL
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O prazo pactuado entre Secretaria Estadual de Saúde e Município deve gerar uma mudança no tumultuado atendimento à população que hoje é prestado na porta do Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG).
Na avaliação do novo secretário, esta e outras mudanças serão necessárias para que a saúde de Canoas deixe o quadro “caótico” que vive, com milhares de pessoas à espera de consultas e exames até um ano.
Em entrevista, Marcelo trata de questões espinhosas que marcam a administração da saúde em Canoas: do passivo contraído ao longo dos anos até a dificuldade na gerência de três casas de saúde.
“O prefeito [Airton Souza] só fez um pedido: ele quer gestão e humanização”, afirma. “Com todo o respeito aos secretários que já passaram, eu não sou pavão. Então, eu quero fazer o meu trabalho para que a saúde funcione simplesmente.”
DC – Qual é a sua prioridade número um ao assumir a Secretaria Municipal de Saúde?
Sec. Marcelo – Em primeiro lugar, nós vamos promover uma quebra da visão do Governo do Estado perante Canoas. Vamos vestir a sandália da humildade e deixar a nossa própria regulação que vigorou por anos. Estamos promovendo a implantação do Gercon, que é o sistema de regulação ambulatorial do Estado. Canoas tinha a chamada gestão plena. Isso tira o poder do Estado sobre o Município. Tudo porque Canoas tinha essa mania de pensar que precisava de uma regulação própria. Hoje, ao introduzir o sistema Gercon, o Estado nos enxerga e passa a encaminhar pacientes do Município e dos outros 157 para o qual é referência no Rio Grande do Sul. Era um controle fechado. Isso não era bom. Demonstrava um desalinhamento com a Secretaria Estadual da Saúde. Isso vai significar uma saúde alinhada com o Estado, o que vai propiciar o aumento de verbas e estrutura para Canoas.
DC – A estratégia visa uma repactuação do Programa Assistir? Porque o Município sempre deixou clara a perda nos repasses devido à implementação do programa.
Sec. Marcelo – Perfeito. Para mantermos um discurso alinhado com o governador [Eduardo Leite] e com a Arita [Bergmann, secretária Estadual de Saúde], a gente tem que demonstrar a nossa boa vontade. O Assistir tem regramentos e exige cumprimento de metas. Isso acaba impactando no repasse. Eu sei que já bateu muito nas perdas e houve brigas homéricas com o Estado, mas está na hora de olhar para dentro, sermos humildes e perguntar o que ofertamos? Será que informamos a devida produção? Talvez não. Então, a partir de agora, toda e qualquer ação que será tomada pela Secretaria Municipal de Saúde, Gabinete do prefeito Airton Souza e Procuradoria do Município estará com o Governo e a Secretaria de Saúde do Estado.
DC – E como anda a mudança da emergência do HPS para o Hospital Universitário? Também é uma prioridade?
Sec. Marcelo – Com certeza. Agora temos um prazo estabelecido pelo Estado para tirarmos a porta de emergência do HPS e removermos para a estrutura no HU em, no máximo, 40 dias. É no máximo. Isso foi pactuado com o Estado. Agora vem a parte de trabalhar em cima dos custos. Precisamos saber quanto dinheiro isso vai custar. É obrigatório quantificar e saber o tamanho da mudança que vamos fazer. Vamos fazer um cronograma detalhado dos custos e das ações necessárias para que, daqui a no máximo 40 dias, a operação esteja concluída. Porque nós não podemos fazer e depois dizer ‘ahhh, mas faltou isso e aquilo’. Porque nós vamos fazer. Isso vai acontecer conforme pactuado e atendendo a todas as necessidades sanitárias, técnicas e administrativas necessárias.
DC – Sabemos que a saúde de Canoas sempre foi muito cara. Houve apontamento da Administração de R$ 800 milhões por ano para manter o funcionamento da estrutura. Por seu conhecimento técnico e administrativo, há como equilibrar as contas?
Sec. Marcelo – O Governo Federal estabelece 15% dos recursos próprios do Município devem ser repassados para a Saúde. Isso precisa ser revisto. É muito difícil não conseguirmos duplicar os 30% de repasses para a saúde. Por mais que eu seja bom em números, ainda não houve tempo de sentar com a contabilidade e o Fundo Municipal, mas acredito que não chegue a 30 atualmente, parando em uns 28%. Mesmo assim, é um caminhão de dinheiro e vamos trabalhar para diminuir esta conta drasticamente. Como? Garantir a efetividade dos serviços prestados. Precisamos rever contratos e nos perguntar se é isso que precisamos? Precisamos discutir. Além disso, o próprio secretário de Governo João Portella sempre bateu na tecla que Canoas não tem tamanho para ter três hospitais. A nossa máquina hospitalar é gigantesca. Vamos manter três hospitais? Ok, mas vamos adequar a característica de cada um e analisar as habilitações e repactuações para garantir o máximo de recurso externo possível para desafogar o nosso déficit. Porque a maior parte do custo está ligada ao tamanho dos nossos hospitais e o que cada um abarca. Vamos fazer um olhar clínico em cima de cada um.
DC – Mas o HPS de Canoas vai voltar a abrir as portas após a conclusão da reforma, certo?
Sec. Marcelo – Se falava em obras prontas em dezembro para uma reabertura em janeiro do ano que vem da unidade com totais características para operar normalmente. A obra segue e será finalizado, porém vamos tratar com a Secretaria Estadual de Saúde que finalidade nós vamos dar para aquela unidade hospitalar. Isso é importante. Estaremos abertos ao que o Estado apontar. Agora, quanto a reabertura, inicialmente se pensava em uma conclusão em dezembro, mas hoje sabemos que não será possível. Imagine que temos a obra e mais toda a aquisição de equipamentos, mobiliário e a parte de rede informática. A obra segue para ele reabrir, mas o que foi feito até agora além disso? Só não vamos dizer que nada, porque não é verdade. A Secretaria bateu em uma barreira chamada Engenheiro Biomédico, com especialização em Engenharia Clínica. Não havia o técnico responsável por fazer o termo de referência. Para criar orçamentos juntos a empresas especializadas e aquisições a nível nacional.
DC – Há muita reclamação quanto ao tempo de espera de atendimento, seja nos hospitais, UPAs ou UBSs. Diante da chegada do frio, preocupa que esta fila irá aumentar?
Sec. Marcelo – Com certeza, a preocupação é grande. Mesmo que não faça mais frio como antes, as doenças respiratórias vão aparecer e o número de pacientes tende a aumentar nesta época. Vamos organizar uma Operação Inverno integrada entre Hospitais e demais unidades visando, principalmente, o atendimento de idosos e crianças. Porque tende a aumentar à noite e durante a madrugada. A gente sabe que isso não muda. A pessoa está em casa, sente um calafrio, começa a febre e ela corre para uma unidade em busca de atendimento. Vamos garantir o acolhimento principalmente nas UPAs. Me comprometo a neste primeiro momento fazer a coisa andar administrativamente como necessário, mas em breve quero circular eu mesmo pelas UPAs. Precisamos acolher a população, mas para isso vamos ter que fiscalizar e cobrar os prestadores de serviço.
DC – É longa a lista de pacientes à espera de consultas e exames. Além disso, os pacientes apontam uma espera de até um ano? É possível mudar este quadro?
Sec. Marcelo – Eu soube deste tempo de espera e só não tive um AVC, porque não era hora. Isso é inaceitável. Quero inicialmente entender o volume do passivo e observar o que as unidades ofertam para acabarmos com esta demanda reprimida. Porque a tendência é que este período só cresça, se a situação continuar assim. Além disso, temos um problema de cadastro muito grande. Porque a pessoa mudou de telefone, mudou de cidade ou já fez o exame particular e não ficamos sabendo. Precisamos definir um protocolo para demonstrar um esforço real da Prefeitura de Canoas e da Secretaria de Saúde para achar o cidadão que marcou a consulta ou exame e atendê-lo. Porque de trás de cada número há um CPF há uma vida. Se chamamos a dona Vilma e no dia ela não comparecer à consulta, queremos saber por quê? É este olhar humanizado que precisamos ter. Porque hoje, se a dona Vilma não aparecer, ninguém mais se preocupa. Isso vai ter que mudar. É um cenário caótico que Canoas vem enfrentando.