Na noite do último sábado (3), um grupo formado por 40 indígenas da tribo Kaingang entrou em um terreno na Avenida Santos Ferreira, no bairro Estância Velha, com o objetivo de ocupá-lo.

Foto: LEANDRO DOMINGOS/GES-ESPECIAL
A Brigada Militar (BM) foi acionada por moradores da área e agiu rapidamente para impedir que o prédio fosse tomado. Não houve conflito e os indígenas acabaram acatando a ordem da BM para deixar o espaço.
Quem passa pela área, entretanto, pode observar as barracas na calçada da Avenida Santos Ferreira. Isso porque o grupo não deixou o local e, segundo lideranças, nem deixará.
Dorvalino Refej Cardoso explica que o Brasil tem uma longa dívida com a população indígena no País. O que aconteceu no sábado, na avaliação dele, não foi uma invasão, mas uma “retomada.”
“Ninguém invadiu nada”, afirma. “Houve uma tentativa de retomada de um espaço que antes pertencia aos Tupis que durante anos habitaram Canoas. Porque a dívida do Brasil com o meu povo é enorme.”
O líder indígena esclarece que a área onde, há mais de duas décadas, funcionava um prédio do Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) hoje serve apenas para acumular lixo.
“Eu não entendo por que Canoas não tem uma área destinada à população indígena?”, argumenta. “Escolhemos esta área porque há 24 anos não existe uma atividade. Os Tupis viviam aqui e achamos justiça que nós agora possamos viver.”
Artesanato
O assunto, informou o líder indígena, acabou com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e deve ser tratado em âmbito do Governo Federal. Enquanto isso não acontece, eles permanecerão na área.
“Vamos continuar aqui criando o nosso artesanato”, afirma Dorvalino. “Tropeiros conquistadores tiraram meu povo daqui, quando chegaram, em 1725. Já é hora dos indígenas retomarem o espaço que têm direito.”

Foto: LEANDRO DOMINGOS/GES-ESPECIAL
Quem são os Kaingang?
A tribo Kaingang, na verdade “Kanhgág”, é um dos maiores povos indígenas do Brasil. Eles vivem em mais de 30 Terras Indígenas em quatro estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.
O povo Kaingang acabou marcado por várias invasões de colonos e exploradores, que culminaram na perda de grande parte de seus territórios e na redução significativa de sua população.
A colonização, a busca por recursos naturais e a falta de reconhecimento de seus direitos foram fatores que contribuíram para esse processo, conta a História do País.
Situação é delicada, diz comandante
À frente do 15º Batalhão da Polícia Militar (BPM), o tenente-coronel Clóvis Ivan Alves lembra que Canoas não tem um histórico de ocupação por povos indígenas, o que surpreendeu quando a denúncia chegou à BM.
“Houve uma tentativa de ocupar a área, mas a Brigada Militar trabalhou rápido e evitou o problema”, esclarece. “Não houve a necessidade de conflito e ninguém desacatou a autoridade policial.”
Quem passa pela área em torno da Avenida Santos Ferreira 3.000, pode observar uma viatura da Brigada Militar parada no local. O monitoramento, avisa o coronel, deve ser permanente.
“Agentes da Funai acompanharam a ação e já passamos o assunto para autoridades do Estado, mas o monitoramento continua”, frisa. “O assunto é delicado e a Brigada Militar permanece em alerta para qualquer tentativa de ocupação irregular.”
Plano de ação
Foi às vésperas da Páscoa que a Prefeitura de Canoas anunciou um plano de ação para evitar a consolidação de ocupações irregulares na cidade. Na época, o Município estava preocupado e chegou a anunciar rondas.
Por meio do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M), houve a união de esforços de Secretarias com um planejamento de monitoramento constante de modo a impedir a apropriação indevida de qualquer terreno.
“Canoas já possui um histórico de ocupações irregulares”, frisa. “Então vamos manter o nosso pessoal nas ruas, fiscalizando e garantir que o desenvolvimento urbano ocorra de maneira regular, sem áreas públicas sendo ocupadas a esmo”, comentou o chefe da unidade de fiscalização da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Jonathan Martins.
A reportagem questionou a Prefeitura de Canoas sobre o plano de ação e a tentativa de ocupar um terreno no último sábado. Acabou informada, por meio da assessoria de comunicação, que o Município não irá se manifestar sobre o assunto.
Sem retorno
O DC também contatou a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), porém, até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.