Um estudo realizado pelo Observatório La Salle analisa o mercado de trabalho na capital gaúcha e em 34 municípios da região metropolitana. O Boletim Especial apresenta dados sobre ocupação e rendimento médio por raça/cor no período comparativo entre o segundo trimestre de 2024 e 2025.

Foto: Paulo Pires/GES
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De acordo com o estudo, a proporção de pessoas de 14 anos ou mais ocupadas na região metropolitana apresentou uma queda na participação de pessoas pardas (14% para 12%) e um pequeno aumento na participação de pessoas pretas (9% para 10%). Já a participação de pessoas brancas foi de 76% para 78%.
“Podemos perceber que o mercado de trabalho da região se tornou mais branco e menos pardo em sua composição de ocupados, com a participação de pretos crescendo singelamente”, explica o economista e professor da Universidade La Salle, Moisés Waismann.
O boletim também aponta a variação de rendimento médio mensal real entre brancos, pardos e pretos de 14 anos ou mais na região metropolitana. O comparativo observa um aumento de 4,6% na renda entre pessoas pardas e uma significativa queda de 6,1% entre pessoas pretas. No grupo de pessoas brancas, praticamente não houve variação, aumentou 0,1%.
“Para as pessoas pretas no mercado de trabalho, o rendimento médio caiu consideravelmente. As pessoas pretas estão crescendo e sendo absorvidas pelo mercado. No entanto, a remuneração no emprego está piorando, visto que o rendimento está em queda. Já para os trabalhadores pardos ocorre o inverso, houve retração no número de ocupados, mas o rendimento médio aumentou”, destaca.
Waismann salienta que o objetivo do boletim é verificar variações no período analisado entre o segundo trimestre de 2024 e 2025.
“Comparamos os meses de abril, maio e junho. As dificuldades enfrentadas pelos pretos e pardos são estruturais. Quando há corte no quadro de funcionários, a força de trabalho de pessoas pretas é mais vulnerável. As mudanças ainda ocorrem de forma tímida. O mercado de trabalho é majoritariamente branco.”
O boletim foi elaborado a partir dos dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral.
Em Canoas
A estudante de museologia Ana Júlia Rocha, 28 anos, conta sobre as experiências no mercado de trabalho.
“Ainda existe muita diferença entre o setor cultural e corporativo para quem não é branco. Postos de trabalho na área corporativa são muito mais restritos para as pessoas pretas. O setor cultural abre um pouco mais de espaço nesse sentido. Eu, por exemplo, tentei migrar para o setor corporativo e não obtive um resultado satisfatório. Infelizmente, as oportunidades são muito escassas. São muitas barreiras, o fator racial é uma das principais. Quando se trata da raça negra, o preconceito existe em qualquer setor, inclusive no cultural, mas um pouco menos”, observa a moradora do bairro Harmonia.
Ana Júlia trabalha há um ano no Sesc Canoas, como responsável pela BiblioSesc. “O Sesc é um exemplo positivo. Sou grata pela oportunidade. Quando não há espaço no mercado de trabalho, os negros passam por um processo de marginalização. Em Canoas, o mercado de trabalho é bem difícil. Não há muitas oportunidades. O racismo existe na cidade. Não há como negar. Às vezes, o negro tem um grande potencial, mas precisa se contentar com o mínimo. A situação é bem complicada. Na minha opinião, ainda vai demorar pelo menos uns 100 anos para sentirmos uma mudança significativa de verdade”, lamenta.
Programa incentiva a inclusão racial no mercado de trabalho
Criado para promover a qualificação profissional de pessoas residentes nas áreas de abrangência das operações da Petrobras, o Programa Autonomia e Renda oportuniza também a inclusão racial. Os cursos gratuitos oferecidos pelo Programa nos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) e Sul-rio-grandense (IFSul) somam uma média de 40% dos estudantes autodeclarados pretos e pardos.
Atualmente, o Programa tem três turmas em andamento no IFRS-Campus Canoas: de Auxiliar de Serviços Diversos, Isolador de Tubulações e Pintor Industrial, totalizando cem matriculados.
A seleção de estudantes para os cursos oferecidos tem preferência por candidatos com renda familiar menor ou igual a meio salário mínimo ousem vínculo formal de emprego, pessoas pretas e pardas, mulheres, transgêneros, transexuais e travestis, indígenas, quilombolas, migrantes, refugiados e pessoas com deficiência. Os alunos se qualificam para atuar no setor industrial, o qual tem alta demanda por profissionais, e recebem bolsas-auxílio mensais durante o período de aulas. As bolsas são R$ 660,00 ou, no caso de mulheres com filho(s) de até 11 anos, R$ 858,00.
Segundo o IFRS-Campus Canoas, novas turmas serão ofertadas em breve. A divulgação será feita pelo site autonomiaerenda.com.br e redes sociais do @ifrscanoas.