Um patrimônio instalado há mais de duas décadas que já fazia parte do cotidiano de quem frequentava a Ulbra, em Canoas, passa agora a preencher a paisagem de moradores e turistas que passam pelo Largo da Estação Férrea, em Caxias do Sul.
A Locomotiva a Vapor nº 520 Mikado (2-8-2), fabricada pela American Locomotive Company (Alco) e seu tender, um vagão especial para transportar combustível, foram transferidos para o município da Serra gaúcha nesta quarta (2) e quinta-feira (3). A grande operação foi organizada pela Prefeitura de Caxias do Sul e empresas parceiras.
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Foto: Divulgação/Fokuss Videojornalismo e Prefeitura Municipal de Caxias do Sul
Com o banner “voltando para a casa”, a máquina será instalada na estação, como parte do processo de revitalização e recuperação da memória do espaço público. A ideia é restaurar e torná-la um cartão postal da cidade no próximo ano. Isso porque foi a criação da estação férrea e as atividades da malha ferroviária entre o município e Montenegro que contribuíram para Caxias do Sul ser elevada aos status de cidade em 1910.
Para toda essa operação, foi necessário construir parte de um trilho para deslocar a máquina e dois grandes caminhões guinchos para posicioná-la em cima de duas carretas plataforma. E a partir disso, transportar até a cidade.
A locomotiva fabricada em 1921 pesa cerca de 80 toneladas e é um patrimônio do Departamento Nacional de Transporte e Infraestrutura (Dnit). A estrutura instalada na Ulbra desde 2001 foi doada pelo órgão à Caxias do Sul. Conforme informado pela universidade, a locomotiva estava apenas depositada no câmpus.
Nas palavras do prefeito Adiló Didomenico é um “patrimônio histórico de valor imensurável”. “O modelo é igual ao que circulava de Caxias do Sul a Montenegro. Então, para nós tem uma importância histórica muito grande”, declarou durante visita à Ulbra em março deste ano.
Por ter esse teor histórico e cultural, futuramente impulsionando o turismo local, a locomotiva teve valor estimado em R$ 2,4 milhões pela prefeitura.
De onde vem a locomotiva e por que foi doada?
A locomotiva pertencia inicialmente à empresa Rede Ferroviária Federal S.A (RFFSA), que entrou em liquidação em 1999. Em 2001, foi firmado um convênio que permitiu a posse provisória do patrimônio com a Ulbra.
O acordo tinha prazo de 12 meses, podendo ser prorrogado pelo mesmo período. No entanto, a universidade tinha a obrigação de “cuidar da restauração, manutenção e segurança adequadas das locomotivas a vapor”, conforme o item 4.1 do documento. Era também obrigação da empresa dar suporte à universidade para fazer a manutenção.
E de acordo com a Prefeitura de Caxias do Sul isso não foi feito. “A Ulbra possuía um prazo para revitalização do conjunto da locomotiva, mas não cumpriu sua obrigação, perdendo o direito sobre a locomotiva e tender”, argumenta o prefeito caxiense.
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Foto: Divulgação/Fokuss Videojornalismo e Prefeitura Municipal de Caxias do Sul
Ainda segundo o convênio, qualquer descumprimento ou denúncia podia implicar na rescisão e na transferência da locomotiva para onde a empresa determinar.
Com a extinção oficial da RFFSA em 2007, todo o seu patrimônio ferroviário foi transferido para os cuidados do Dnit. Sendo assim, o departamento passou a ser o proprietário – e doador – da locomotiva instalada na Ulbra.
Projeto de lei foi aprovado para arcar com os custos
Para retirar a locomotiva, a prefeitura precisou arcar com os danos estruturais causados na Ulbra. A universidade se posicionou para receber a indenização integral, valor que não poderia ser custeado pelo município sem a aprovação do Legislativo.
Em fevereiro deste ano, a prefeitura apresentou o Projeto de Lei (PL) nº 38/2025 para ter autorização do pagamento. A matéria foi aprovada por 12 votos a cinco em março, mas teve discussão em torno do valor.
Cerca de R$ 500 mil estão reservados para a indenização. “Se colocou o estudou do teto que pode ser gasto. Não vai ser este valor que vai ser gasto”, garantiu o líder do governo na Casa, Daniel Santos (Republicanos). Segundo informações da própria administração municipal, a Ulbra ainda calcula os prejuízos.