É com cor, coroa e ancestralidade que a Feira do Livro de Nova Santa Rita chega a 25ª edição na próxima semana. Entre a terça (17) e a quinta-feira (19), o Parque Olmiro Brandão será palco de diversas atividades culturais e educativas para valorizar a leitura. O evento é gratuito.
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Foto: Dani Berwanger
E como toda feira do livro, a iniciativa também homenageia e enaltece uma personalidade pela sua obra e contribuição. Em Nova Santa Rita, será a primeira vez que uma mulher negra será patrona do evento. A escritora e educadora Perla Sântos, 42 anos, é quem dá nome a esse feito.
A patrona é autora de obras que tratam da nobreza africana, trazendo a história de reis e rainhas, príncipes e princesas do continente africado. Além disso, é coordenadora de Espaços Educativos Afro-Brasileiros e Indígenas (Eeabis) em duas escolas da rede municipal da capital. Os núcleos tratam de identidade, cultura negra e educação antirracista com professores e alunos.
“Eu me sinto super honrada principalmente porque sou a primeira mulher negra da feira de Nova Santa Rita. Já teve um homem negro, mas eu não sabia que eu seria a primeira mulher. Espero que isso também inspire outras escritoras”, afirma.
A programação completa da 25ª Feira do Livro de Nova Santa Rita será divulgada nos próximos dias através dos canais oficiais da administração municipal. A iniciativa deve contar com a presença da comunidade, estudantes e educadores, além de estandes de venda.
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Confira a entrevista com a Perla Sântos
Diário de Canoas (DC): O que significa para você ser a patrona da 25ª edição da Feira do Livro de Nova Santa Rita?
Perla Sântos: Significa muito. Isso não presenta somente para mim, mas também para todas as outras mulheres que vieram antes. Foram muitas que pavimentaram esse caminho para eu estar onde estou hoje.
Eu não sabia que eu seria a primeira mulher, fiquei sabendo ali na hora. Espero que isso também inspire outras escritoras. Eu vim da periferia e lá a gente se preocupava com a questão alimentar, não se preocupava com outras coisas.
Ocupar esse lugar é importante porque a escrita para mim sempre foi um refúgio, um alívio. Então, eu quero que jovens se inspirem porque a escrita negra é diferente. A gente traz esse legado, essa ancestralidade, o sagrado.
DC: Tem alguma atividade que você vai desenvolver na feira?
Perla Sântos: No segundo dia de feira, dia 18, às 14h30, eu vou fazer uma roda de conversa. Eu vou fazer uma contação de histórias com crianças. Eu vou trazer a nobreza negra, que é uma série de livros que estou trabalhando.
São histórias de nobres de origem africana. Vou falar especialmente da história de uma princesa negra Zacimba. Acho importante porque são contos de protagonistas. Fala de uma África diferente que não é apenas sofrimento.

Foto: Rafael Rezende/PMNSR
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DC: Como começou a sua trajetória?
Perla Sântos: Foi ainda na adolescência. Eu escrevia bastante e o meu professor de literatura na escola me indicou falar com o Oliveira Silveira. Eu nem sabia quem era.
Foi ai eu tive o contato com o grupo Semba e fui uma aluna. Ali ele me mostrou uma história de pessoas negras protagonistas. E eu queria contar a história dessas pessoas. Mas para isso tinha que estudar.
Eu comecei a sonhar com a universidade e eu nem sabia que existia de graça. Eu gostava de escrever, escrevia muito, sobre as coisas que eu via e vivia, mas que não sabia que tinha um nome para essas coisas. Eu não sabia da palavra racismo.
E eu nunca imaginei ter um livro, ter a minha foto ali. Mas eu comecei a ver outros escritores e isso me inspirou. Ai como professora, eu comecei a criar materiais sobre a nobreza negra porque eu via os meus alunos não se sentirem representados. Eram materiais que enalteciam essas figuras.
Em 2023, participei da Expofavela e ali uma editora, a Editora Gaúcha, se interessou pelos conteúdos. E ai virou livro. A minha proposta é que as pessoas se encantem e aprendam sobre essa ancestralidade e esse protagonismo.
DC: E qual é o trabalho que você desenvolve nos Eeabis?
Perla Sântos: A ideia é trabalhar com os professores e com os alunos essa educação antirracistas durante todo o ano. Não é apenas “teve um caso de racismo”. Nós não orbitamos entorno do racismo, mas sim entorno das potências dessas histórias.
Dentro dos núcleos, tem que ter um número mínimo de ações ao longo do ano. E também dentro da realidade de cada escola. Mas o mais importante é que seja durante o ano todo, não apenas em novembro.
DC: E qual é o impacto dessa homenagem na sua carreira, no seu trabalho?
Perla Sântos: Eu penso que é um impacto muito positivo. Principalmente pensando nas mulheres porque estamos vendo muita violência contra tá mulher.
E a feira foi toda organizada entorno da nobreza. O tema é “Nossas histórias têm cor, têm coroa e têm ancestralidade” e isso é um convite para conhecer mais afundo essas histórias. É uma outra imagem que temos do grande continente africano.
Falar disso numa feira do livro é uma oportunidade ajudar a combater essa injustiça. Acredito que é um momento também de reflexão e de enaltecimento dessa negritude.