Estudantes do curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) lançaram nesta terça-feira (23) o Reame (Rede Emanuel de Afeto, Medicina e Escuta), um projeto voltado ao acolhimento e ao cuidado com a vida.

Foto: Bruna Santos/Ulbra
FAÇA PARTE DA COMUNIDADE DO DIÁRIO DE CANOAS NO WHATSAPP
Idealizado pelo Centro Acadêmico de Medicina da Ulbra (Camu) e pelo Núcleo de Acolhimento ao Estudante de Medicina (Naem), com apoio da universidade, o projeto cria um espaço acolhedor e contínuo de diálogo, escuta e troca de experiências entre acadêmicos e profissionais da área, construindo uma rede de apoio mútua que fortaleça vínculos, diminua angústias e promova o desenvolvimento humano e profissional.
O lançamento do Reame ocorre durante o Setembro Amarelo, campanha mundial de prevenção ao suicídio. Os encontros serão realizados mensalmente, com temas específicos como “Primeiros Desafios da Medicina”, “Espiritualidade e sentido na prática médica”, “Luto e perdas na formação médica”, entre outros assuntos que atravessam a jornada dos futuros médicos.
LEIA TAMBÉM: SUS Gaúcho é lançado; Governo anuncia investimento bilionário para reduzir filas para consultas e cirurgias no RS
Homenagem que gera transformação
O projeto é uma homenagem a Emanuel Pandini Pilon, um estudante que marcou a trajetória de muitos colegas e cujo legado inspirou a criação do espaço. A estudante Laura Lemos, uma das idealizadoras do movimento, lembra a convivência com o amigo. “A partida dele deixou um silêncio imenso, mas desse silêncio nasceu o desejo de criar um espaço onde ninguém precise atravessar suas dores sozinho. A Medicina exige muito de nós, noites em claro, cobranças e medos, e às vezes esquecemos que antes de sermos futuros médicos somos seres humanos. O Reame é um convite para olharmos uns para os outros com empatia e coragem”, conta.
A iniciativa surge diante de um cenário mundial preocupante: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 bilhão de pessoas sofrem de algum transtorno mental, e mais de 75% não recebem tratamento adequado em países de baixa e média renda.
O mundo perde aproximadamente US$ 1 trilhão anualmente por não tratar corretamente a ansiedade e a depressão. No Brasil, estima-se que 23 milhões de pessoas tenham depressão, doença diretamente associada ao suicídio e considerada uma das mais incapacitantes da atualidade.
Diversos estudos demonstram que acadêmicos de Medicina apresentam taxas significativamente maiores de ansiedade, depressão e ideação suicida em comparação à população geral da mesma faixa etária. Para enfrentar esse desafio, o Reame se apresenta como um espaço de acolhimento em momentos de crise e, principalmente, como uma ação preventiva e contínua. Seu propósito é romper com o isolamento, fomentar redes de solidariedade e estimular a construção de uma cultura acadêmica mais saudável. O lema do projeto sintetiza sua essência: “Afeto que transforma, escuta que acolhe.”
Prevenção e compromisso com a vida
Durante o evento de lançamento, o professor e psiquiatra César Webber, convidado para palestrar, destacou a importância da escuta qualificada e do olhar atento à saúde mental. “Sempre digo aos meus alunos que desejo que sejam especialistas em gente. Precisamos estar preparados para identificar sinais de risco e oferecer apoio, pois esse é um compromisso de todo médico, seja ele psiquiatra ou não.”
Segundo a OMS, cerca de 97% dos casos de suicídio estão associados a doenças mentais não tratadas, não diagnosticadas ou tratadas de forma inadequada, o que mostra que a prevenção é possível. Fatores de proteção como autoestima elevada, bons laços sociais e familiares, religiosidade, resiliência e inserção no mercado de trabalho são elementos que contribuem para reduzir as vulnerabilidades.
LEIA AINDA: Cinco estudantes são baleados e dois morrem em Sobral
Saúde mental na formação médica
O reitor da Ulbra, Adriano Chiarani, reforça o caráter coletivo da proposta. “Esse projeto nasce para fazer a diferença na vida de quem precisa, em um tempo em que estamos cada vez mais hiperconectados, mas muitas vezes desconectados de nós mesmos e do outro. Emanuel, em hebraico, significa ‘Deus conosco’, e esse sentido de presença e cuidado se expande por meio de cada um de nós. Nosso propósito é que as pessoas encontrem significado e felicidade em sua caminhada”, destacou o reitor.
O coordenador do curso de Medicina da Ulbra, professor Marcelo Guerra, destaca a importância da iniciativa.”Existe uma pesquisa centenária de Harvard que reafirma que a coisa mais importante para a felicidade não é poder, não é dinheiro; são os amigos,. Muitas vezes, o aluno chega com a meta de se tornar um grande especialista e esquece de valorizar o presente da graduação. Precisamos vencer o credencialismo e formar, acima de tudo, bons médicos”, relatou.