O que significa ser pai depois uma tragédia? Para o seu Antônio Arduino Muniz, 63 anos, significa o “destino de Deus, ter um compromisso maior e ir cuidando, aconteça o que acontecer. Não saio de perto deles.” Um ano depois da enchente, ele e sua família, vão passar mais um domingo do Dia dos Pais longe da realidade que estavam acostumados antes, mas com fé de que dias melhores virão.
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Foto: Paulo Pires/GES
Os moradores do bairro Mathias Velho foram atingidos pela catástrofe e precisaram ficar em abrigos. Atualmente, morando nas casas temporárias no bairro Estância Velha, seu Antônio, como é conhecido, sua esposa Iara e os dois filhos Fernando e Leonardo ainda estão se ajeitando na residência. Por isso, a programação para domingo segue em aberto.
“Olha, não temos nada marcado ainda, nenhuma previsão do que vamos fazer. Ano passado, estávamos no abrigo, teve uma comemoração e foi bom. Agora, estamos aqui e vamos levando conforme dá”, conta.
Pai de dois jovens atípicos, Antônio fala devagar com os filhos, sendo que um é mais calmo e o outro mais agitado. “Eu quero ser um pai calmo”, destaca. Como está desempregado, a rotina da família tem sido simples. “Às vezes, nós vamos juntos no mercado para buscar um pão”, relata sobre o que costuma fazer com os filhos.
Fé no futuro
O que aconteceu ano passado ainda está vivo na memória deste homem de fé. “A água já estava no meio da canela. Eu disse para eles que íamos sair. Mandei eles irem para a estação que eu ia ficar cuidando da casa para não roubarem nada. Mas ninguém estava desconfiado de que a água ia subir tanto”, relembra Antônio.
“Eu não queria sair. Deu um tufão e água veio no umbigo. No meio da rua, eu comecei a chorar, mas veio uma voz e me disse para clamar”, relata, citando uma passagem bíblica. Antônio estava cuidando da residência na Rua Curitiba e precisou andar por cinco ruas para se salvar do alagamento. “Só por Deus e ele me guardou.”
“É difícil, mas tem que ser forte. Mas graças a Deus, estou recuperando bem. Escuto oração, tem a igreja aqui na frente e vamos ali. Sempre confiando em Deus de que vai melhorar e que o pior já passou”, completa Antônio.
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Desejo de pai
Seu Antônio é o responsável pela família também em razão da saúde de sua esposa que teve um derrame cerebral há dois anos atrás. “Temos que ir levando.”
Perguntado sobre o que compartilha com os filhos, Antônio fica encabulado e diz “nada no momento, nada especial”, mas quem vê tanta devoção pode acreditar que ele ensina otimismo, mesmo nos momentos mais difíceis. “Tem horas que eu fico olhando e vejo que a nossa vida dá uma volta. Mas com fé em Deus, vai melhorar”, afirma.

Foto: Paulo Pires/GES
Quem vê isso, quieto num dos cantos da pequena casa temporária, é Fernando, o filho mais novo de Antônio. Ele fala pouco e responde bem devagar, diz o pai, mas não deixa de demonstrar carinho. Acompanhou atentamente todo o relato e sorriu paras as fotos.
Um dos desejos de Antônio é que os filhos consigam entrar no mercado de trabalho. “Esse mês ele vai fazer 23 anos, mas não pode trabalhar. Já entregou currículo em vários lugares para tentar, ver se pega, mas não chamam. Olham para ele e mandam aguardar”, desabafa o pai.
“Estamos indo devagar, conforme vai. Escapamos da morte. Perdemos a nossa casa que está condenada, mas estamos com casa no momento. A Prefeitura ajuda com cesta básica. Só às vezes me sinto triste pelo que era até pouco tempo, mas vamos melhorar”, completa.