Em tempos de consumo acelerado nas plataformas digitais, cupons e frete grátis distribuídos diariamente pelos principais marketplaces, a concorrência dos camelódromos deixou de ser o colega da banca ao lado que vende a mesma capinha de celular. Enquanto os vendedores gastam as cordas vocais para atrair clientes, o comércio digital aperfeiçoa o algoritmo e impulsiona anúncios com preços agressivos.

Foto: Paulo Pires/GES
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Diante dessa realidade, os vendedores das tradicionais bancas de camelódromo na Avenida Victor Barreto, no Centro de Canoas, focam em estratégias para conquistar e reter clientes no comércio físico de “bugigangas”.
Quem passa pelo local já deve ter ouvido a famosa frase: “Oi, amigo(a). O que tu procura?”. Embora a tática não seja nova, a vendedora Maria Eduarda Machado, 21 anos, garante que o método inicial de atendimento “ganha” o cliente.
“Na maioria das vezes, o que atrai o consumidor é a atenção, é você mostrar o produto, testar ele. É literalmente se disponibilizar a atender o cliente”, pontua.
Para a jovem, apesar do avanço e expansão de plataformas como Amazon, Mercado Livre e Shoppe, a capacidade de interagir, testar produtos, oferecer garantia e dar suporte pós-venda são os pilares que fidelizam os clientes e garantem a relevância do comércio de rua.
“Vou dar um exemplo prático. Esses dias, uma senhora idosa estava procurando um rádio para comprar, mas ela não sabia conectar o bluetooth. Além de testar o produtor, ensinamos como usar as funções do rádio. Essa experiência fidelizou a cliente.”
Preço não é o único fator de decisão
Proprietário há 10 anos de uma banca no camelódromo, Cléber de Oliveira, 36, observa uma mudança significativa no perfil do consumidor e nos produtos procurados ao longo de uma década.
“No início, a demanda era focada em eletrônicos e acessórios para celular. Carregadores e fones de ouvido eram muito procurados. Agora, o perfil mudou para itens de bazar e utensílios de casa, especialmente no inverno, como meias, toucas e luvas”, afirma.
Sem conseguir competir com o preço dos marketplaces devido aos custos operacionais, Oliveira cita a conveniência como a principal vantagem dos camelódromos.
“Tipo, não tem como competir no preço, mas tem como competir na entrega imediata do produto. A pessoa está aqui, olha, testa e já leva. Não precisa ficar esperando dias pelo produto.”
Ele exemplifica com situações de urgência: “Por exemplo, a pessoa quebrou o controle. Ela precisa naquela hora, não pode esperar dias para vir. Então ganhamos na emergência e rapidez.”

Foto: Paulo Pires/GES
Pechincha e pagamento em dinheiro
Responsável pela banca comprada pelo pai, Luciano Machado, 22, revela que a prática de barganhar segue comum entre os clientes.
“O pessoal quer desconto. A pechincha é um atrativo para os compradores. Diferentemente do on-line, no camelódromo o cliente consegue negociar o valor do produto com o vendedor”, explica.
Com a clientela principal composta por pessoas de mais idade, o pagamento em dinheiro físico lidera a preferência.
“Acho que 80% dos meus clientes são idosos. A maioria ainda não mexe na internet e paga em dinheiro. Eles preferem ir ao caixa eletrônico, sacar e pagar em espécie. É difícil um idoso pagar com o cartão ou Pix.”
Tradição e identidade do camelódromo
Com origem na venda de chapéus de palha na década de 1950, a maior e mais antiga banca do camelódromo de Canoas se tornou um negócio familiar e um símbolo de nostalgia para muitos moradores. Ao longo das décadas, o espaço manteve produtos que perderam força no comércio local, como os brinquedos, preservando uma oferta variada para quem circula pelo Centro.
Mesmo diante da tecnologia e da transformação nos hábitos de consumo, a banca aposta na combinação entre tradição, atendimento e variedade para seguir relevante.
“Já faz um tempo que a última loja de brinquedos fechou no Calçadão. Optamos por continuar com uma variedade de brinquedos. Acreditamos que é um produto que precisa ter. A estratégia é competir não apenas por preço, mas pela experiência de compra e pela relação construída com os nossos clientes ao longo do tempo”, avalia a proprietária Edna Caroline Bernadez.