Durante a inauguração da loja da Havan em Novo Hamburgo, no dia 22 de novembro, um aparentemente anônimo morador de Canoas ganhou espaço ao entregar uma faca como presente encomendado ao empresário Luciano Hang.
Hang acabou impressionado pela peça de metal forjado, com lâmina cuidadosamente ornamentada e seu nome escrito com pingos de ouro. Agradeceu muito ao cuteleiro responsável pela confecção da peça.

Foto: Paulo Pires/GES
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O que quase todos os presentes não sabiam é que o prefeito de Novo Hamburgo, Gustavo Finck, encomendou a lâmina cortante com cabo a uma das maiores autoridades em cutelaria do Rio Grande do Sul.
Aos 42 anos, Fábio Passos tem entre a clientela não somente o prefeito de Novo Hamburgo. Suas peças são encaminhadas para os Estados Unidos e Europa. Tudo graças ao reconhecimento conquistado em uma arte milenar.
“O Hang [Luciano] é sempre visto pilchado, então o prefeito Finck entrou em contato e disse que queria dar uma faca a ele”, conta. “Aceitei na hora, mas ele queria a garantia de que eu entregaria pessoalmente. Foi um momento especial.”
Morando em uma humilde casa no bairro Guajuviras, Passos mantém uma rotina artesanal na criação de lâminas na oficina que montou na garagem de casa. Tem como “ajudante” somente o cãozinho Snoopy.
Trabalha com fogo, martelo e bigorna para forjar o aço para moldar peças em aço, que serão ornamentadas com cabos resistentes criados a partir de madeiras nobres e materiais que estão entre os mais nobres do mundo.
“É uma arte, sem dúvida”, diz. “Eu não posso dizer que dá muito trabalho, porque quando a gente faz o que gosta, o serviço deixa de ser pesaroso. Passo às vezes um dia e noite inteiro na oficina sem nem perceber.”

Foto: REPRODUÇÃO
Começo
Quem observa a habilidade do cuteleiro pode imaginar que ele trabalha há décadas moldando peças pontiagudas em aço, mas a história do trabalhador com a cutelaria é mais recente do que se imagina.
Funileiro desde os 16 anos, tinha como única experiência, até o começo da década passada, o pedido de um tio para afiar um conjunto de facas enferrujadas. Aproveitou para consertar o cabo de cada uma no processo.
Foi em 2012, no entanto, durante uma visita na Expointer, que Fábio resolveu comprar uma faca. Na época, mantinha em casa uma oficina de chapeação e, ao chegar em casa, percebeu ter pago caro demais, devido à simplicidade da peça.
“Eu analisei aquela faca e pensei que conseguiria reproduzir algo parecido na oficina”, lembra. “Dei uma de metido. Fui atrás do aço e comecei a brincar. Do nada, criei quatro facas. Consegui vender duas para vizinhos aqui mesmo no bairro.”
A essa primeira experiência se seguiram outras ao longo dos anos. O avanço, no entanto, exigiu especialização, com curso de aperfeiçoamento sobre como trabalhar e moldar o aço.
Com um trabalho cada vez mais arrojado, começou a ganhar clientes e se comunicar com outros cuteleiros do RS afora. As encomendas para colecionadores não demoraram a aparecer, exigindo o abandono da oficina automotiva.
“Descobri que poderia ganhar mais dinheiro criando facas do que com a oficina de chapeação”, relata. “A cutelaria movimenta um universo onde o trabalho artesanal é realmente valorizado.”

Foto: Paulo Pires/GES
Livro
O ponto de virada na trajetória de Fábio Passos como um importante cuteleiro aconteceu em 2020. Na época, ele criava uma peça para um cliente no interior do Estado quando tomou contato com a obra Legado de Aço.
Bíblia da cutelaria brasileira, a obra organizada por Michel Gruenberg reúne os melhores profissionais e os trabalhos mais arrojados criados por cuteleiros em um único e enorme volume.
“Um amigo meu [o cuteleiro Arnaldo Cesar de Miranda Rocha] disse que eu deveria estar no livro”, recorda. “Pensei que não me aceitariam, mas encaminhei fotos para o autor e ele adorou meu trabalho.”
Fábio Passos teve suas lâminas impressas no best-seller e, desde então, a clientela cresceu e exigiu novos investimentos e mais horas na oficina para atender à demanda.
“Precisei investir na oficina, é claro”, afirma. “Também estudei mais e melhorei os projetos, mas a base permanece a mesma, que é moldar camadas de aço sobre camadas de aço até que o acabamento fique perfeito.”
Sobre o futuro, o trabalhador defende que manterá a consistência na criação, mas sem nunca perder o cuidado dedicado ao criar os detalhes em cada peça, da ponta da lâmina ao cabo.
“Eu não imaginava que a cutelaria me abriria portas e que faria tantos amigos. Inclusive, já pediram para vir à oficina apenas para me ver trabalhar, o que para mim é uma honra”, salienta. “Atendo a todos com o maior prazer.”

Foto: Paulo Pires/GES
Machadinha
Embora a tradição gaúcha seja gigantesca no ramo, os cuteleiros não vivem somente de facas, adagas e punhais. Fábio cria também machados e até cachimbos por meio da forja do metal sob temperaturas elevadas.
“Trabalhar com o aço exige regras”, esclarece. “Faca gaúcha, por exemplo, é bem caracterizada, mas o cuteleiro não precisa se limitar e pode criar os instrumentos e molduras que quiser.”
Quem quiser acompanhar o trabalho de Fábio Passos pode segui-lo por meio do perfil no Instagram @fabio_passos_cutelaria, onde ele exibe cada novo trabalho e faz contatos com clientes.
O preço médio de cada peça pode variar entre R$ 2.500 e R$ 12 mil, dependendo da complexidade da encomenda, com o tempo médio de cada trabalho variando entre dias e semanas até a conclusão da obra.