Até onde você iria de bicicleta? Pois um grupo de cinco amigos de Canoas decidiu ir de Tramandaí, no litoral gaúcho, até Viña del Mar, no Chile. A aventura de 2,6 mil km em mais de 40 dias teve lindas paisagens, histórias para contar e muita superação.
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Foto: Arquivo pessoal
Roberto Borba Hartmann, Carlos Afonso Chuck, Hermes David Ramos, Oraci Vieira Soares Junior e Jair Mário Cardoso, com idades entre 54 e 61 anos, deram a largada no dia 12 de outubro e chegaram ao destino final no dia 22 de novembro – somando 41 dias.
O intuito inicial era misturar as areias dos oceanos Atlântico e Pacífico, mas o coração e a cabeça de cada um guardava a vontade de provar que dá para realizar grandes feitos.
Roberto teve um problema de saúde, precisou passar por transplante de medula e agora está fazendo quimioterapia. Já Chuck, como é conhecido entre os amigos, teve que colocar prótese no quadril e às vezes tem dificuldade para andar. Por isso, a aventura foi tão especial.
“Todos nós estamos acima dos 50 anos. Além da idade, cada um teve suas questões pessoais para superar. Mesmo com as dificuldades, continuamos lutando. Conseguimos realizar um sonho. Acho que é isso que fica”, destaca Roberto.
O grupo só retornou na sexta-feira passada (28), de ônibus e autoridades locais para o transporte das bicicletas, fechando 47 dias de muitas pedaladas. O sentimento é de dever cumprido.
“A palavra superação funciona bem. Eu não sabia que ia ter essa proporção. Para mim, éramos só mais cinco ciclistas fazendo esse trajeto. Foram muitas subidas e quando voltamos de ônibus, eu vi o tanto que a gente pedalou. Não gosto de bancar o herói, mas acho que nos superamos”, destaca Chuck.
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Só foi possível com planejamento
Tudo começou em 2023, quando Roberto, Chuck e David, pedalaram de Canoas até a Colônia de Sacramento, no Uruguai. O trajeto menor, de 1,4 mil km, trouxe a empolgação para uma empreitada maior e mais complexa. Na volta, já começaram a planejar e a amadurecer a ideia.

Foto: Arquivo pessoal
A proposta era misturar as areais dos oceanos Atlântico e do Pacífico, ideia inspirada na viagem de outro ciclista, como conta Chuck. “Um mês depois do nosso retorno, eu já comecei a pensar no que poderíamos fazer. Olhei no mapa, pesquisei e pensei nos Andes. Ai já fui planejando, ver quem já tinha ido, como foi. Lancei a ideia e eles gostarem.”
“No início, parecia muito distante isso de pedalar 2,6 mil km, mas foi se tornando realidade. Tivemos muito planejamento”, conta Roberto.
No caminho, muito vento, muitas subidas, grandes amplitudes térmicas e o menor custo possível. “Não tínhamos carro de apoio e as bikes ficaram com 35 kg da carga cada – comida, roupas e as barracas. A ideia era acampar. Se não desse, a última opção era um hostel”, relata Roberto.
E como toda viagem, tem os seus perrengues. “Acho que o pior dia foi um que pegamos chuva, frio e não sabíamos onde iriamos dormir no Uruguai. Ele lembro muito desse dia porque eu estava tremendo. Mas isso foi pra mim porque para cada um pode ser diferente. Para o Roberto deve ter sido o dia do vento”, relembra.
E para o Roberto realmente foi o dia do vento. “Encaramos uma grande diferença de temperatura. De dia chegava perto dos 40 °C, enquanto que à noite baixava até 2°C. E o vento estava contra de 60 km/h na Cordilheira dos Andes”, afirma.
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Só foi possível com paciência
Roberto é o mais novo do grupo, com 54 anos, já aposentado e morador no Centro de Canoas. Enquanto que Chuck, 60 anos, também morador do Centro, ainda trabalha como arquiteto. Os demais amigos também estão na casa dos 60.
Ou seja, cada um tem uma vida diferente, mas que precisaram conviver por mais de 40 dias. A rotina carregava um certo estresse, apesar da intenção de ter uma boa experiência.

Foto: Arquivo pessoal
“São cinco adultos, com certa idade, convivendo 24 horas por dia. São gostos diferentes, pensamentos diferentes, então tivemos que trabalhar muito a empatia, a paciência. Tudo tinha que ter o sim de todos, o companheirismo. Tem que ter disciplina e planejamento. Com isso, deu tudo certo”, observa Roberto.
Além da convivência, também era necessário ter paciência com a falta daquilo que é o básico no dia a dia. “Senti falta das coisas de casa, do conforto do banheiro, da cama, de abrir uma geladeira e ter coisa dentro. São detalhes para dar mais valor. Não foi só nessa viagem, mas acho que é uma lição que fica”, entende Chuck.
Tudo documentado
O grupo de amigos integram coletivos de ciclistas que gostam de rodar pela cidade e fazer trajetos mais longos. Em Canoas, tem o Pedalantes, com nove anos de existência, e o Quinta do Pedal, um dos mais antigos com 18 anos.
Essa vivência no ciclismo também trouxe a necessidade de documentar essa aventura, de mostrar como foi para os amigos e familiares. O conteúdo também serve para quem, um dia, planeja encarar a estrada em cima de duas rodas. Os episódios estão disponíveis no canal Cicloviajando, no YouTube.