A união de um grupo de moradores do condomínio Parque Canoas Allegro, no Mato Grande, tem transformado a realidade de animais abandonados e em situação de rua desde a enchente de 2024. A iniciativa disponibiliza casinhas comunitárias que operam como refúgio para gatos e cães. Fixadas na rua do condomínio, as estruturas abrigam até seis animais individualmente.

Foto: Paulo PIres/GES
A ação do grupo chama ainda mais atenção após casos como o do cachorro Orelha, morto após um ataque na Praia Brava, em Florianópolis. Orelha era um animal comunitário, como os cuidados pelos moradores do condomínio em Canoas.
No local, eles disponibilizam ração, água e medicação (quando necessário) para os animais abrigados nas casinhas feitas com tambores de plástico e madeira. Integrante do grupo, a aposentada Rose Gonçalves, 67 anos, fala sobre a evolução do projeto.
“A enchente foi o ponto de virada que levou à formalização do projeto. Com a inundação, muitos animais buscaram refúgio no condomínio. Chegou a ter de 30 a 40 gatos no entorno. A Suzie e o Jamison [antigos vizinhos] tiveram a ideia de construir casinhas para abrigar esses animais. Foi quando o projeto começou a receber ajuda de outros moradores que tinham disponibilidade”, explica Rose.
Apesar da mudança dos idealizadores, o projeto não parou. A equipe atual, composta por cerca de dez moradores, continuou os cuidados, revezando-se diariamente para garantir que os animais fossem alimentados e assistidos.
“Os desafios são constantes. Além dos custos para manter o projeto, existe o vandalismo e a oposição de alguns moradores. Pessoas mal-intencionadas já roubaram cobertas, ração e também quebraram o telhado das casinhas. Já ouvimos até ameça de envenenamento dos gatos”, revela.
O tráfego de carros também é uma preocupação diária para a segurança e à vida dos animais. “Eles têm total acesso aos perigos. Os veículos ficam estacionados na frente das casinhas. Os gatinhos gostam de ficar debaixo dos carros. Ainda não aconteceu nenhum acidente, mas é uma preocupação a mais.”
Com quatro gatos comunitários fixos, a luta contra a esporotricose (doença fúngica contagiosa) exige um compromisso financeiro e de tempo significativo por parte dos voluntários. “O tratamento é caro e longo. Três gatinhos estão com esporotricose. Estamos dando a medicação necessária. Cada um ajuda como pode. Toda e qualquer contribuição é bem-vinda”, destaca o farmacêutico e protetor Richard Carrassai, 25.
Busca por uma lar permanente
O grupo se dedica a promover adoções, muitas vezes com o apoio de ONGs. Casos como os cães Polar e Princesa, adotados e levados para um sítio, e a história de cachorrinha Athena, adotada por uma moradora do condomínio, demonstram o impacto positivo e transformador do trabalho realizado.

Foto: Paulo Pires/GES
“O objetivo final sempre é adoção, seja dos gatinhos ou dos cães que passam pelo projeto. O espaço que disponibilizamos é para dar suporte até encontrarmos uma família para eles. Alimentamos, damos carinho e atenção, cuidamos da saúde e procuramos adoções responsáveis”, salienta a moradora Maria Eduarda Souza Alves, 26.
Também moradora do condomínio, Francini Saenz, 37, adotou uma cachorrinha abandonada amarrada nas casinhas comunitárias.
“Havia uma corrente de aço no pescoço dela. Infelizmente, as pessoas fazem essas coisas. Usam o espaço como ponto de abandono. Meu marido e eu vimos aquela situação e o coração falou mais alto. Resgatamos ela. O que era para ser um lar temporário virou permanente. Batizamos de Athena. Hoje, ela tem um lar e uma família para chamar de sua”, conta a operadora de turismo.
No São José
Na Rua Largo Sete de Setembro, no bairro São José, moradores cuidam de um cachorro de forma comunitária. O animal de porte grande recebeu uma casinha na praça da região.

Foto: Paulo PIres/GES
“Ele é um fofo. Só tem tamanho. Cada pessoa chama ele de um jeito. Amigo, Guel, guri, são vários apelidos. Cada um deixa ração, troca a água, arruma as cobertinhas dele. Ele é querido por todos. Uma protetora animal é responsável pelas entrevistas de possíveis adotantes. Seguimos na esperança que ele encontre um lar”, finaliza Letícia Matunaga.
O que diz a lei
Em Canoas, a Lei Nº 6.749, de 2024, detalha a questão dos animais comunitários. No artigo 6°, o texto estabelece que considera-se animal comunitário “canino ou felino que, apesar de não ter tutor único e definido, estabeleceu com membros da comunidade onde vive vínculos de afeto, dependência e manutenção”.
Os responsáveis-cuidadores são membros da comunidade onde o animal estabeleceu vínculos de afeto e dependência. Esssas pessoas “serão cadastrados pela Secretaria Municipal de Bem-Estar Animal (SMBEA) e receberão comprovante de cadastro no qual constará qualificação completa sua e do(s) animal(is).”
A legislação também autoriza a colocação de dormitórios, comedouros e bebedouros para animais de rua no município de Canoas.