Um dos lançamentos mais recentes da música brasileira é o álbum 80 anos (Remixes), que revive e celebra o legado da Orquestra Afro-Brasileira, grupo nascido no Rio de Janeiro em 1942, que marcou a música nacional com discos históricos como Obaluayê (1957) e o álbum homônimo de 1968.
O projeto, lançado em 31 de julho pela gravadora Amor in Sound, reúne grandes nomes da música atual, incluindo Marcelo D2, Emicida, Criolo, Rael, Cut Chemist e outros, além de uma participação especial de artistas de Novo Hamburgo: o produtor musical Pedro Dom e o MC Zilladxg.

Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
Pedro Dom, que vive na Califórnia desde 2017, conta que a amizade com o produtor Mario Caldato Jr, um dos idealizadores do selo Amor in Sound, foi fundamental para abrir portas em sua carreira internacional. “Logo que cheguei aqui, conheci o Mario e nossa amizade gerou colaborações com artistas como Seu Jorge, Rodrigo Amarante e Planet Hemp”, relata. O produtor também destaca seu trabalho recente como diretor musical do disco É o que a casa oferece, de Gabriel da Rosa, lançado pela renomada gravadora Stones Throw.
Legado Cultural
O interesse pela Orquestra Afro-Brasileira e seu legado cultural sempre esteve presente nas conversas entre Pedro Dom, Mario Caldato Jr e sua esposa Samantha, que lideram o selo Amor in Sound. “Eles já comentavam a importância da orquestra para a cultura brasileira e a ideia de criar um álbum de remixes com amigos e produtores”, explica Dom.
Foi durante a pandemia, em 2020, que ele iniciou a produção de seu remix usando uma MPC, um estúdio portátil, convidando músicos que já trabalharam com ele em Novo Hamburgo para participar do processo colaborativo, entre eles Lorenzo Flach (guitarra), Guilherme Ceron (baixo), Bruno Neves (bateria) e Zilladxg (MC).
“O Lucas (Zilladxg) é meu parceiro mais consistente de composição dos últimos 15 anos, juntos tivemos a Orquestra Livre, banda natural de Novo Hamburgo que liderei de 2007 a 2017. Os músicos citados anteriormente também fizeram parte dessa banda”, conta.
“Vitória gloriosa”
O resultado é um trabalho feito a partir de samples do disco 80 anos da Orquestra Afro-Brasileira, que Pedro Dom cuidadosamente fragmentou e reorganizou, dando vida a novos arranjos, percussões, sopros e vozes, mesclados às composições e letras criadas em parceria com seus colegas.
“Enquanto eu ouvia o disco e o cortava em mil pedaços, para então os reorganizar em um novo arranjo (com percussões, sopros e vozes) eu compartilhava o que tinha com Ceron, Lorenzo, e Bruno pra que eles pudessem criar suas partes em casa, durante a pandemia. Assim que eles me mandavam os seus materiais, eu organizava e mandava de volta pro Zilladxg escrever a letra”, detalha o produtor.
Hoje, o álbum está disponível em todas as plataformas digitais e já tem até versão em vinil com pré-venda na Europa. Para Pedro Dom, estar ao lado de nomes consagrados como Nação Zumbi, Criolo, Emicida, Cut Chemist, J Rocc e Marcelo D2 representa “uma vitória gloriosa” depois de “muitas pequenas derrotas” no underground musical. “Sinto muita humildade e um sentimento de ‘corre’ absurdo até chegar a esse patamar”, afirma. Atualmente está produzindo o disco de Flor, filha do Seu Jorge.
Do tapete de casa para o mundo
Responsável pelas rimas do remix assinado ao lado de Pedro Dom, o MC Zilladxg também é natural de Novo Hamburgo e relembra a origem da colaboração, feita inteiramente à distância, em plena pandemia. “Pedro é meu amigo e colaborador de anos, sempre fizemos ótimas músicas juntos. Era pandemia e ele me contou sobre o projeto da Orquestra. Achei genial, pois já conhecia o trabalho da Orquestra e do Mário Caldato”, conta.
O processo de gravação foi simples, mas simbólico. “Escrevi na mesma semana que ele me mandou a versão final do beat. Gravei sentado no tapete de casa (risos). Com o lockdown essa era a única forma de fazermos acontecer e o resultado ficou incrível”, afirma.

Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
Estar no disco é, para Zilladxg, uma experiência de grande peso artístico e emocional. “É gratificante estar num trabalho tão grande desses, honrando o legado da Orquestra Afro-Brasileira, essa orquestra pioneira e tão importante para nossa cultura, e também estar com esse time galáctico de artistas envolvidos no projeto. Vindo de Novo Hamburgo, a gente sabe que é mais difícil tudo, mas é possível. Tem que seguir acreditando e trabalhando para que essas oportunidades nos encontrem em movimento.”, finaliza.
O álbum está disponível em todas as plataformas através do link orcd.co/80anosremixes, e a faixa com os artistas de Novo Hamburgo é a Rei Zumbi.