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Literatura

Convite do Grupo Sinos para cobrir feira na Ásia mudou a vida de jornalista que agora lança primeiro livro sobre jornada na Malásia

Ex-integrante da redação da revista Lançamentos retorna a Novo Hamburgo para lançar obra inspirada nos quatro anos em que viveu no país asiático

Dário Gonçalves
Publicado em: 10/07/2026 às 17h:58 Última atualização: 10/07/2026 às 17h:59
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Foi uma pauta sobre a indústria coureiro-calçadista que mudou completamente o rumo da vida da jornalista Daniela Barrier. Em 1994, quando trabalhava na revista Lançamentos, do Grupo Sinos, ela recebeu a missão de acompanhar uma comitiva do Vale do Sinos até Hong Kong para cobrir uma das maiores feiras de couro do mundo. A viagem, inicialmente profissional, despertou uma paixão pelo Oriente que a levou a pedir demissão, mudar de país e construir uma trajetória internacional que atravessou nove países em mais de três décadas.

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Família Barrier e guia na Trilha dos Caçadores de Cabeça na Malásia | abc+



Família Barrier e guia na Trilha dos Caçadores de Cabeça na Malásia

Foto: Divulgação

Agora, mais de 30 anos depois daquela cobertura, Daniela retorna a Novo Hamburgo para lançar seu primeiro livro. “Um traje para o aniversário do sultão e outras histórias verídicas” reúne 17 crônicas inspiradas nos quatro anos em que viveu na Malásia e será apresentado na próxima terça-feira (15), das 18 às 20 horas, na Fundação Scheffel, em Hamburgo Velho.

Para ela, voltar justamente à cidade onde iniciou a carreira tem um significado especial. “É graças ao Grupo Sinos, e também a Novo Hamburgo — uma cidade do interior do Estado, mas que sempre teve um pé no estrangeiro por causa da indústria calçadista voltada à exportação — que a minha vida tomou esse rumo. Foi esse ambiente que me proporcionou a abertura para aprender inglês, despertar a vontade de conhecer novos mundos e, depois, receber a oportunidade concreta de ir para Hong Kong“, relata

A ligação de Daniela com a cidade começou após um intercâmbio de dois anos na Inglaterra. Ela voltou ao Brasil em 1989, ingressou no curso de Jornalismo da Unisinos e, no ano seguinte, começou a trabalhar no Grupo Sinos, conciliando a rotina da redação com as aulas à noite.

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“Eu tinha voltado da Inglaterra falando inglês fluentemente. Trabalhei no Grupo Sinos de 1990 até o início de 1994. Eu era muito jovem, trabalhava durante o dia e fazia faculdade à noite. Fui muitíssimo bem acolhida na redação. Eles me deram responsabilidades muito cedo e valorizaram o meu texto.”

A viagem que mudou tudo

Por dominar a língua inglesa, o Grupo Sinos decidiu enviá-la para cobrir uma grande feira do couro em Hong Kong, acompanhando empresários do Vale do Sinos, representantes da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo (ACI) e da indústria coureira. Daniela viajou também ao lado do jornalista Aurélio Decker.

Além de Hong Kong, a cobertura incluiu Guangzhou, na China, onde empresas brasileiras começavam a acompanhar a transferência gradual da produção de calçados para o país asiático. “Era o comecinho do renascimento da China. A reportagem mostrava que o Vale dos Sinos precisava prestar atenção naquilo, diversificar, investir ainda mais em qualidade, porque a China começava a ganhar espaço. Eu tive a sorte de ver esse momento de perto”, lembra

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Mas a maior descoberta daquela viagem foi pessoal. “Foi um encontro com Hong Kong que foi paixão à primeira vista”. Ao voltar ao Brasil, Daniela pediu demissão e foi morar em Hong Kong.

Daniela Barrier em Borneu, ilha localizada no sudeste asiático  | abc+



Daniela Barrier em Borneu, ilha localizada no sudeste asiático

Foto: Divulgação

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Primeiro assumiu o escritório de uma pequena exportadora gaúcha instalada na cidade. Depois passou pela Star TV, onde cresceu profissionalmente até atuar como produtora. Na sequência, trabalhou para empresas como NBC, CNN e MTV. “Morei quase sete anos em Hong Kong. Primeiro produzia programas mais documentais. Depois fui para a CNN, trabalhando com notícias diárias. Foi uma experiência muito rica”, define.

Vida nômade

Em Hong Kong, Daniela conheceu o diplomata francês Gilles Barrier, com quem se casou em 2001. A partir daí, passou a acompanhar as missões diplomáticas do marido, vivendo em diferentes partes do mundo.

Ela fez mestrado em Ciência Política na Universidade Sorbonne, trabalhou durante quatro anos na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, e depois morou em Lisboa, Rio de Janeiro, Nova York, Paris, Estocolmo, Kuala Lumpur e, atualmente, vive em Sydney, na Austrália.

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A cada três ou quatro anos, uma nova mudança de país. “A vida diplomática é muito nômade. Sempre precisei me adaptar. Continuei trabalhando com escrita e pesquisa, mas cada mudança exigia recomeçar de alguma forma.”

E por que a Malásia?

Apesar de já ter vivido em nove países, foi na Malásia que a autora encontrou o cenário para seu primeiro livro. Segundo ela, o país reúne elementos que sintetizam toda a sua experiência como viajante. “Foi na Malásia que o meu olhar nômade finalmente se fixou. Foi ali que encontrei um lugar que conseguia reunir todas as minhas experiências anteriores vivendo no exterior”, afirma.

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Ela explica que o país é um multicultural formado por diferentes povos, religiões e idiomas. “É o país mais multicultural que já conheci. Eles têm três grandes religiões convivendo lado a lado — o islamismo, o budismo trazido pelos chineses e o hinduísmo dos indianos — além dos povos indígenas. São mais de cem línguas faladas. Essa diversidade me fez refletir sobre a minha própria língua, sobre estar perdendo o português, e o francês e o inglês convivendo dentro de mim.”

Família Barrier em Penang | abc+



Família Barrier em Penang

Foto: Divulgação

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Outro aspecto que a aproximou da Malásia foi a natureza. A vegetação tropical, os cheiros, as cores… tudo fazia pensar no Brasil. “Depois de tantos anos vivendo na Europa, foi uma sensação de voltar para casa.”

Durante os quatro anos em Kuala Lumpur, Daniela também atuou no Museu Nacional da Malásia. Foi ali que descobriu uma ligação histórica entre os dois países. “Descobri que os portugueses chegaram a Malaca em 1511, poucos anos depois de chegarem ao Brasil. Eu não conhecia essa história comum entre malaios e brasileiros. Tudo isso foi reforçando a vontade de escrever.”

Memórias que atravessam continentes

O resultado foi uma coletânea de 17 crônicas que mistura reportagem, relato de viagem e memória pessoal. “São fatos reais de viagens que fiz sozinha ou com a minha família, sobre a história, as religiões, a cultura, a língua, a vida urbana, a floresta, tudo misturado com memórias pessoais. Observando a Malásia, eu voltava à minha infância no Brasil, aos meus primeiros trabalhos, à minha vida em outros países. Usei a Malásia real como uma viagem pelas minhas próprias memórias.”

A crônica que dá nome ao livro nasceu de um convite para participar da comemoração de aniversário do sultão da Malásia. O protocolo determinava que os convidados usassem trajes típicos de seus países, dando início a uma sequência de situações inusitadas narradas com humor.

Um traje para o aniversário do sultão e outras histórias verídicas | abc+



Um traje para o aniversário do sultão e outras histórias verídicas

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial

Uma história que atravessa gerações

A relação da família Barrier com o Grupo Sinos também acabou atravessando gerações. Cerca de 30 anos depois de Daniela deixar a empresa, seu filho Arthur Barrier, nascido na França e estudante da Universidade McGill, no Canadá, realizou estágio na redação do Jornal NH.

Ele chegou ao Rio Grande do Sul justamente na véspera da enchente histórica de maio de 2024. “No dia seguinte, fechou o aeroporto. Porto Alegre e Novo Hamburgo começaram a alagar. Ele estava sozinho no Brasil. A minha mãe mora em Novo Hamburgo, mas já tem pouca mobilidade. O pessoal da redação virou a família dele naquele momento”. Hoje, Arthur vive em Moçambique, no continente africano.

Para Daniela, essa ligação afetiva com a empresa tornou o lançamento em Novo Hamburgo ainda mais simbólico. “Eu nunca tive dúvida de mandar o Arthur estagiar no Grupo Sinos. Sabia que ele seria bem tratado e que seria uma boa escola. O Grupo Sinos sempre teve um lugar muito especial no meu coração. Fazer o lançamento em Novo Hamburgo é muito emocionante para mim”, finaliza.

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