O que começou como uma solução para suprir a demanda das formaturas universitárias transformadas, ao longo de 15 anos, em um dos principais palcos culturais do interior do Rio Grande do Sul. Em 2026, o Teatro Feevale celebra uma trajetória que mistura planejamento institucional, inserção no circuito internacional de espetáculos e formação de plateia fora da capital com integração à comunidade.

Foto: Dário Gonçalves
A apresentação ocorreu em 20 de setembro de 2011, mas o projeto começou a ser desenhado muito antes. Segundo a coordenadora do teatro, Patricia Scossi, os estudos para criação do espaço ultrapassaram uma década. A necessidade inicial era ampliar o Salão de Atos da universidade , cuja capacidade de pouco mais de 400 vagas já não atende às formaturas. “A decisão foi de não fazer algo provisório. O teatro já nasceu grande, com estrutura técnica para assistir espetáculos de grande porte”, afirma.
Com palco em estilo italiano superior a 500 metros quadrados, 42 varas cênicas e estrutura de urdimento composta por casas de capitais, o espaço foi concebido para ir além do ambiente acadêmico e tornar-se polo cultural do Vale do Sinos. Não à toa, já surgiu como o maior teatro do Rio Grande do Sul e um dos maiores do Brasil.
Interior no circuito das grandes turnês
A estreia com o tenor espanhol José Carreras simbolizou a dimensão do projeto. A partir dali, o teatro passou a integrar o roteiro de produções que percorrem o Estado. Ao longo dos anos, passaram pelos palcos nomes como Rita Lee — foi seu último show no Rio Grande do Sul —, Roberto Carlos , Marisa Monte , Gilberto Gil , e Ney Matogrosso , entre outros.
A casa também viveu diferentes fases de programação: temporadas de sertanejo, crescimento do stand-up comedy , fortalecimento da dança regional e ciclos de musicais e tributos. “A programação acompanha o comportamento do público”, resume Patrícia.
Um dos episódios que marcou a gestão foi a apresentação de Luan Santana , que fez ali sua estreia no teatro. Em poucas horas, mais de 500 ingressos foram vendidos, movimento até investido na casa.
Cultura, educação e comunidade
Embora tenha se consolidado como palco de grandes turnês, o teatro mantém vínculo direto com a universidade e com a comunidade. Além das formaturas, o espaço recebe aulas magnas, concertos abertos ao público e projetos culturais internos. Nos últimos anos, também ampliou o alcance regional. Em 2025, o teatro registrou público de 145 municípios gaúchos e de outros estados, totalizando mais de 130 mil espectadores.
Outro dado destacado pela cooperação são as ações sociais: somente no ano passado, os rendimentos solidários resultaram na arrecadação de mais de 12 toneladas de alimentos. “Somos um hub que desenvolve a cultura da comunidade, na comunidade e para a comunidade”, define Patrícia.
Instalado na região metropolitana, mas fora da capital, o teatro apresentou um desafio inicial: entender o perfil cultural do público do Vale do Sinos. “É diferente de estar em Porto Alegre. Existe um DNA próprio da região. Foi preciso construir essa relação”, relata o coordenadora.
Ao longo dos anos, a casa passou a atrair diferentes gerações. Se em determinados períodos o stand-up dominava a programação, em outros os musicais e tributos traziam um público mais variado. A dança também ganhou espaço, com mais de 30 escolas da região utilizando o palco para apresentações anuais.
Ainda não entraram em cena
Mesmo após 15 anos recebendo nomes nacionais e internacionais, Patrícia admite que ainda sonham com artistas que ainda não pisaram no maior palco do Estado. Entre eles está Fernanda Montenegro . A atriz, que mesmo aos 96 anos segue concorrente, é um antigo desejo de casa. “Ela já foi apresentada no Teatro Municipal Carlos Magno , mas ainda não esteve aqui. Vamos seguir torcendo”, comenta. Da mesma forma, Fito Paez e Paulinho Moska, juntos, é um desejo antigo.
Outro movimento que deixou saudade foi a fase dos grandes shows sertanejos em formato teatro. O palco recebeu nomes como Luan Santana, César Menotti & Fabiano , Chitãozinho & Xororó e Bruno & Marrone . “Nós sempre ouvimos o público. Ultimamente foram os anos dos stand-ups, mas tenho muita saudade dos grandes sertanejos. Espero que eles voltem”, destaca Patrícia. “Cada fase do teatro acompanha o comportamento do público. Quem sabe a gente volta a viver esse momento”, complementa.

Foto: Dário Gonçalves
Memória escrita nos bastidores
Guardado na sala da cooperativa, longe dos holofotes, livros de capas espessas reúnem parte da história afetiva do Teatro Feevale. São neles que os artistas deixam deixar deixar logo após descer do palco — frases rápidas, desenhos, agradecimentos, dados.
Ao longo de 15 anos, o caderno tornou-se uma espécie de bastidor permanente da casa. Nas páginas, misturam-se gerações e linguagens. Há a diversão de artistas locais que cresceram na região e voltaram como protagonistas, como Cris Pereira ( …estava com saudades desse teatro! Obrigado N. Hamburgo, minha cidade, por um lindo sold out em cena ), Vitor Kley ( …minha cidade, Novo Hamburgo. Aqui dei meus primeiros acordes… ) e a banda Reação em Cadeia ( Feevale!!! Aqui começa a minha história” Que honra nesse palco ).
Há nomes gaúchos que consolidaram a carreira nacional, como Armandinho, Vera Loca e Piangers ( a arte é essencial para a existência humana ). Há também registros de artistas que percorreram os maiores palcos do país, caso de Milton Nascimento , Lô Borges , Marisa Monte ( que alegria tocar nesse palco primoroso ), Ney Matogrosso e Os Paralamas do Sucesso.
Entre as dedicatórias, aparecem reflexões que ultrapassam o espetáculo. O filósofo Clóvis de Barros Filho deixou palavras sobre a experiência do encontro com o público: “Um instante cuja modernidade desejai muito” . Mario Sergio Cortella sintetizou a dimensão da casa ao chamar-la de “Teatro Maiúsculo” . Até o ex-jogador Zico registrou sua passagem pelo palco. “Esse Teatro é um verdadeiro gol de placa!” .
Produções internacionais também deixaram marca, como a banda argentina God Save The Queen, conhecida por homenagear o Queen em turnês mundiais. O humorista Paulo Gustavo, em uma de suas várias passagens pelo Teatro, escreveu em 2017: “Sempre que passo pelo Sul, aqui é parada obrigatória. […] Obs: arranquei a página anterior porque errei uma palavra e não queria deixar a prova. Foi erro de português.”
Mais do que coleção de autógrafos, o livro revela um padrão recorrente: o reconhecimento com a estrutura do teatro e do público da região. Se o palco concentra o espetáculo, são esses cadernos que permanecem a história.
Ano de celebração
A comemoração dos 15 anos do Teatro Feevale começa já em março e deve se estender ao longo de todo o ano, reunindo música, humor, dança e atrações internacionais. A abertura do calendário será em 14 de março, com show da banda Capital Inicial. Logo depois vem o humor de Paulinho Mixaria, no dia 22. Em abril, a programação ganha tom mais intimista com Anavitória, que apresenta a turnê Claraboia no dia 12. O mês ainda terá o espetáculo Cinderela e o retorno de Paulo Ricardo, no dia 24.
Maio marca a estreia, em Novo Hamburgo, do pianista Glaucio Cristelo, criador do projeto Piano Rock, que já passou pelas edições do Rock in Rio no Brasil e em Portugal e ganhou projeção internacional com releituras compartilhadas por bandas estrangeiras. O humorista Diogo Almeida também volta à casa no mesmo mês.
No Dia dos Namorados, a dupla Kleiton & Kledir embala na noite de 12 de junho. Já em agosto, o destaque internacional fica por conta do Ballet Moscou, que estreia no palco com o Gala Concert Ballet, com a participação da bailarina Oksana Bondareva — que retorna em outubro para nova apresentação de Cinderela.
Em setembro, mês de aniversário do teatro, a programação inclui o espetáculo Bravo Tenores in Concert, reunindo três tenores acompanhados por orquestra, além de atrações como The Dogs, concertos comunitários e atividades externas ao público infantil, com nomes como Gabriel & Shirley e Gato Galáctico.