No Dia Nacional do Quadrinho, comemorado neste 30 de janeiro, a história de Onei Rodrigues ajuda a explicar por que as HQs seguem atravessando gerações. Aos 52 anos, o morador de Novo Hamburgo guarda em casa mais de 7 mil revistas em quadrinhos acumuladas desde a infância. Mais do que um acervo de dar inveja, a coleção carrega uma trajetória de aprendizado e afeto, iniciada quando os gibis foram a porta de entrada para a leitura e, de certa forma, para o mundo.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Natural de Caçapava do Sul, Onei cresceu em uma família de oito irmãos, em uma área rural e isolada. A mudança para Novo Hamburgo, aos 8 anos, representou uma virada decisiva. Ao ingressar no ensino fundamental, enfrentou dificuldades por ainda não saber ler. Mas a sensibilidade de uma professora, que passou a associar palavras às imagens, despertou o interesse do aluno pelos quadrinhos.
O primeiro contato foi com um gibi da Turma da Mônica, “Planos Infalíveis do Cebolinha”, e a partir dali a relação não teve mais volta. “Eu tinha dificuldades, aí associei o desenho com as palavras e acabei gostando”, relembra. Pouco tempo depois, já folheava revistas nas bancas acompanhado da mãe, descobrindo um universo que, segundo ele, “abria a mente” a cada nova história.
De moeda em moeda
A coleção cresceu aos poucos, de maneira quase escondida. Sempre que o pai lhe dava dinheiro para comprar uma carteira de cigarros, o pequeno Nei guardava o troco para investir em mais um gibi. “Ele não sabia quanto custava e não perguntava se tinha troco. Meu pai só sabia que, com o dinheiro que ele me dava, era possível comprar o cigarro”. Com o tempo, as histórias infantis deram lugar aos super-heróis da Marvel e da DC, com personagens como Hulk, Homem-Aranha, Batman, Superman e Wolverine.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Entre todos, o Capitão América ocupa um lugar especial. Não apenas como personagem favorito, mas como referência de vida. “Eu comecei a trabalhar aos 12 anos. Aos 14, já era chefe de setor em uma fábrica. Muito disso veio da liderança que eu via no Capitão América”, conta. Segundo Onei, a forma como o herói liderava, com respeito e companheirismo, influenciou diretamente sua postura profissional. “Nunca fui um chefe autoritário. Sempre entendi que liderar é respeitar.”
Valor inestimável
Muitas das revistas ainda contêm o preço pago por elas, o que revela que, somadas, representam um valor financeiro significativo. Frequentador de sebos, houve um tempo em que era avisado sempre que um novo acervo chegava. “Teve época em que gastei um salário inteiro em quadrinhos”, admite. As compras diminuíram há cerca de dez anos, quando iniciou a construção da própria casa, mas o desejo de ampliar o espaço dedicado às HQs permanece.
Apesar de possuir exemplares raros, cobiçados por colecionadores e capazes de alcançar valores elevados no mercado, vender nunca foi uma opção. “Eu brinco que, quando eu morrer, quero um caixão ou um buraco maior para ser enterrado junto com os quadrinhos e ler eternamente”, diz, em tom bem-humorado. “Mas, falando sério, quero que eles sejam doados a uma biblioteca ou escola. Algum lugar onde crianças possam ter acesso a esse universo.”
Lidos e relidos
Diferentemente de muitos colecionadores, Onei não trata suas revistas como peças intocáveis. Pelo contrário. Crianças são bem-vindas para conhecer, folhear e ler os gibis. “Não é pra mim. Eu quero que as crianças conheçam os heróis que eu conheci”, afirma. Ele faz questão de apresentar cada personagem, contar suas histórias e explicar que aqueles heróis vistos hoje no cinema carregam trajetórias muito anteriores às telas.
O colecionador garante que já leu todos os exemplares, e não apenas uma vez. “No mínimo, umas vinte vezes cada um. Muitas bem mais”, afirma, dizendo que consegue contar a história antes mesmo de abrir a revista.
Entre os favoritos, seguem Hulk, Capitão América, Homem-Aranha e Superman. Para ele, personagens como o “spider” representam alguém comum, com dificuldades, e que aprende que poder não é sinônimo de dinheiro, mas de responsabilidade. “Eu não tenho superpoderes, mas tenho o poder de ajudar ou não. E isso também traz grandes responsabilidades”, finaliza.