A dificuldade de encontrar profissionais qualificados, a mudança no perfil dos jovens e o distanciamento entre escolas e empresas estiveram no centro de um encontro realizado nesta quarta-feira (10), em Novo Hamburgo.
Promovida pela Fundação Liberato, pelo Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) e pelo Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), o evento reuniu lideranças empresariais para discutir caminhos para a formação profissional e o desenvolvimento econômico da região nos próximos anos.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
A iniciativa integra o movimento Formação Profissional para o Desenvolvimento de Novo Hamburgo, criado a partir da aproximação entre as três instituições e que pretende aproveitar o marco dos 100 anos de emancipação do município, celebrados em 2027, para construir uma visão estratégica de futuro voltada à educação, à inovação e ao desenvolvimento econômico.
Segundo o presidente do IBTeC, Valdir Soldi, o encontro foi pensado como uma oportunidade para ouvir o setor produtivo antes da definição de qualquer proposta concreta. “Estamos diante de um desafio muito grande para o futuro: a falta de profissionais. E não apenas a falta de mão de obra, mas também a carência de qualificação”, afirmou.
A intenção, segundo ele, é organizar as contribuições recebidas e dar continuidade ao trabalho por meio de grupos menores, focados em temas específicos. A expectativa é que, ao longo dos próximos meses, sejam construídas propostas capazes de aproximar instituições de ensino, empresas e poder público.
Falta de profissionais vai além da qualificação
Entre os empresários presentes, um dos consensos foi que o desafio da formação profissional começa antes mesmo da qualificação técnica. Presidente do Sindicato da Indústria de Máquinas e Implementos Industriais e Agrícolas de Novo Hamburgo e região (SinmaqSinos), Marlos Schmidt defendeu uma abordagem regional e afirmou que o problema envolve diferentes etapas.
Na avaliação dele, o primeiro desafio é atrair pessoas para a formação. Depois vêm a requalificação e a retenção, etapa que considera especialmente crítica devido aos elevados índices de evasão. Somente após esses obstáculos aparece a qualificação profissional propriamente dita, seguida da inserção no mercado de trabalho.
Schmidt também defendeu a definição de indicadores que permitam acompanhar os resultados das ações que venham a ser desenvolvidas.

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Já o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), José Cláudio Blos, destacou que a transformação nas relações de trabalho alterou o interesse dos jovens por determinados setores produtivos.
Segundo ele, a possibilidade de atuação remota e o avanço da tecnologia criaram novas perspectivas profissionais, reduzindo o interesse de parte dos trabalhadores por atividades tradicionalmente ligadas ao ambiente de fábrica.
Aproximação entre escolas e empresas
Outro ponto destacado foi a necessidade de reduzir a distância entre o ambiente escolar e o setor produtivo. Vice-presidente de Educação da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom, Estância Velha e Dois Irmãos (ACI), Cristine Schneider defendeu uma educação mais conectada à realidade dos estudantes e das comunidades.
“A sala de aula precisa ser convidativa, porque tudo está no celular. Precisa ser um lugar sem tédio. Sou muito contra formar professores EAD, a sala de aula precisa ser vivida, experienciada”. Também avaliou que o debate sobre educação deve envolver gestores públicos e aproximar empresas, escolas e sociedade.
A empresária ressaltou ainda que a discussão não pode ficar restrita ao ensino técnico ou profissionalizante, mas deve alcançar a formação desde os primeiros anos da educação básica.

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Movimento busca alinhar formação e demanda do mercado
Para o diretor-executivo da Fundação Liberato, José de Souza, a principal motivação do movimento é justamente reduzir o descompasso entre os profissionais formados pelas instituições e as demandas efetivas das empresas.
Segundo ele, essa aproximação costuma existir no momento de criação dos cursos e das escolas técnicas, mas tende a enfraquecer com o passar dos anos. “A educação profissional precisa manter uma relação muito próxima com quem vai empregar esses profissionais no futuro”, observou.
Na mesma linha, o diretor do IFSul Novo Hamburgo, Rodrigo Dias, destacou que a instituição nasceu em um momento de transformação econômica da região, marcado pela diversificação produtiva após a crise enfrentada pelo setor calçadista a partir dos anos 1990.
Segundo ele, os cursos ofertados passaram a priorizar áreas ligadas à tecnologia justamente para acompanhar as novas demandas da indústria regional. Para que esse processo continue ocorrendo, ele avalia que é fundamental ouvir o setor produtivo e compreender suas necessidades. “Precisamos reconhecer essas demandas para adequar nossos cursos e garantir que eles estejam dialogando com o setor produtivo de Novo Hamburgo e da região”, afirmou.
Planejamento para os próximos 50 anos
Embora ainda esteja em fase inicial, a proposta dos organizadores é ampliar a participação de universidades, escolas, empresários, trabalhadores e representantes do poder público. A expectativa é que os debates resultem na elaboração de um planejamento estratégico voltado ao desenvolvimento social, econômico e tecnológico da região.

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“A provocação é justamente essa: olhar para os próximos 50 anos e pensar como estamos nos organizando para o futuro”, resumiu Rodrigo Dias.
Segundo os organizadores, as contribuições apresentadas durante o encontro serão agora sistematizadas para orientar as próximas etapas do movimento.