De dezembro de 1971 a 17 de outubro de 2025, Jorge Luz dos Santos, conhecido como Inspetor Luz, dedicou a vida à Polícia Civil de Novo Hamburgo. Foram mais de cinco décadas de serviço, de enfrentamento à criminalidade, casos que marcaram a cidade e histórias que ainda reverberam. Ao completar 75 anos em 18 de agosto, atingiu a idade limite prevista por lei para servidores públicos e, no dia 17 de outubro, a aposentadoria compulsória foi publicada oficialmente.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Em entrevista ao Grupo Sinos, Luz refletia sobre a carreira, os riscos enfrentados, as conquistas e os momentos de dor. E foi justamente enquanto falava à reportagem que um papel chegou em sua mesa: “Comunicamos a publicação dos seguintes atos de aposentadoria”. Nele estava seu nome e a oficialização de que agora é um homem aposentado.
“Então é hora de buscar outros rumos. Eu saio com o pensamento de dever cumprido. Fiz o que podia ter feito pela sociedade”, disse. O policial resumiu décadas de experiências em poucas palavras, mas que carregavam o peso de quem passou anos lidando com o lado mais duro da sociedade. Ao deixar o serviço policial, Luz — nascido em Canoas, mas hamburguense de coração — passa a mirar com mais ímpeto os caminhos da política. “Atualmente estou como primeiro suplente, mas tudo pode mudar a partir de janeiro de 2026”, projeta.
Carreira policial entre a vida e morte
Nascido em Canoas, em 1950, Luz iniciou a trajetória policial na Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito), setor que já não existe mais dentro da estrutura da Polícia Civil. Foram dez anos lidando diretamente com ocorrências de trânsito, fiscalização e acidentes graves que lhe trazem tristes memórias até hoje: “Em um domingo de manhã, na RS-239, um motorista atropelou sete pessoas e matou seis, entre elas um bebê de colo que ficou caído no banco do carona. Aquilo me marcou muito”, recorda.
Em janeiro de 1991, aos 40 anos, o Inspetor foi transferido para a 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo, onde enfrentou o episódio mais crítico de sua carreira — e de sua vida. Apenas um mês depois de assumir, levou três tiros durante uma abordagem no bairro Canudos. Um dos disparos rompeu o baço, outro fraturou o braço, mas ele sobreviveu.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
“Consegui sair bem, mas com algumas lesões. Eu era chefe de investigação e não lidava diretamente com o público, focava no trabalho. Depois do ataque, vi o quanto a sociedade estava do meu lado”, lembra. O autor dos disparos era Beto Calixto, figura que ganhou fama de “Robin Hood” na cidade, imagem que Luz contesta: “Ele não era herói de ninguém. Teve coragem de matar até o próprio braço direito, um menino de 14 anos, para não ser delatado. Isso é fato, eu investiguei”. Calixto foi morto em confronto com a polícia ainda naquele ano, em Porto Alegre.
Episódios de crueldade
Durante toda a carreira, o inspetor se deparou com a crueldade do crime em episódios que marcaram a cidade. Entre eles, o assassinato de uma jovem de 18 anos no Morro dos Papagaios, morta com um tiro no peito. “Ela saía de casa em seu carro e um bandido que tinha o apelido de ‘Cruel’ abordou ela, que se assustou e tocou na buzina. Ele atirou na hora, matando uma jovem cheia de vida pela frente”, relembra.
Outro caso ocorreu semanas depois, quando houve um ataque a andarilhos. O pai foi assassinado, e a menina “subnutrida”, de 14 anos, foi estuprada. “Nos dois casos, o responsável era o Cruel. No primeiro, nós identificamos em cerca de um mês, e neste segundo, em uma semana eu resolvi e prendi o bandido”, afirma. “Sempre investiguei olhando para o micro, para a vida das pessoas, independente do valor do objeto perdido. Um botijão de gás furtado de uma mãe solo, que não pode fazer um chá para sua bebê doente pode ter mais valor que uma BMW. Essa visão foi minha marca.”
Central de Polícia
Um de seus principais marcos da carreira foi a construção da nova Central de Polícia de Novo Hamburgo, inaugurada em 22 de março de 2012. O antigo prédio, localizado na Rua Graça Aranha, não oferecia infraestrutura adequada, acessibilidade ou segurança para o público.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
“A antiga central não era um ponto convergente para os bairros, tinha problemas de infraestrutura, sem ar-condicionado, os presos passavam na frente das pessoas que aguardavam, e essas pessoas não tem que passar por esse constrangimento de ter que desviar o olhar pro bandido não encarar. O pessoal tinha que subir três lances de escada, e isso era um horror para pessoas idosas, de muletas, grávidas, com crianças de colo”, relembra.
Luz relata que se envolveu diretamente em todas as etapas do projeto, percorrendo bancos (sem sucesso), órgãos públicos e empresários para viabilizar recursos, muitas vezes dormindo dentro do carro para proteger materiais durante a obra. “Foram cinco anos de trabalho, pensando nas pessoas. Passei férias dormindo dentro do meu Santana para proteger as obras. A população e empresários colaboraram, e o Jornal NH divulgava as etapas com frequência. Isso ajudou muito e essa central mudou a forma como a cidade vê a polícia”, conta.
Recompensas oferecidas
Sua carreira também ficou marcada pelo uso de recompensas para obter informações que ajudassem a solucionar crimes, uma prática nem sempre bem vista dentro da corporação. “Sempre fui favorável. Já paguei do meu bolso para esclarecer um assassinato. Tudo o que se faz para ajudar a população é bem visto”, afirma.
Entre os casos mais recentes, Luz ofereceu R$ 1,5 mil em dinheiro para informações que ajudassem a esclarecer o assassinato da comerciante Priscila Diniz, em 2024. “Quem tá oferecendo, sabe que só vai ser paga a quem der algo concreto para solucionar os casos. E chegam informações concretas. Por isso, eu sou favorável que o Estado pague recompensa”, acrescenta.
Se no passado, crimes bárbaros e assaltos a bancos eram mais recorrentes, o cenário atual mostra um avanço do crime organizado e do tráfico de drogas. “Uma coisa que eu não consigo admitir de jeito nenhum é a extorsão de comerciantes. Pessoas honestas que precisam pagar facções para poderem trabalhar.”

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Carreira política
A experiência como policial e a defesa de políticas públicas de segurança o levaram ao ambiente político. Depois de sucessivas candidaturas como suplente, assumiu uma vaga na Câmara em 2012. Foi reeleito em 2016 e voltou a assumir uma cadeira em 2022, quando era suplente pelo MDB. Desde abril de 2024 é filiado ao Progressistas (PP) e atualmente é suplente mais uma vez.
Entrou na política ainda na década de 90 porque via vereadores pedindo favores para pessoas que estavam erradas. “Eu trabalhava no Ciretran e tinha um ou dois que vinha pedir para devolver uma carteira, livrar de uma multa. Então entrei na política para ajudar quem estava certo”, afirma.
Suas convicções o levaram a ter um atrito até mesmo com a então prefeita Fátima Daudt (MDB), quando ainda eram do mesmo partido. “Tive atritos porque entendia que alguns projetos estavam prejudicando a população. Não era geral, mas algumas coisas. Penso que o que eu estava defendendo era o correto.”
No Legislativo, Luz manteve a segurança pública como prioridade, mas também ampliou sua atuação para outras áreas. Foi protagonista na mobilização por recursos que viabilizaram a Central de Polícia de Novo Hamburgo e, mais recentemente, destacou-se na criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos ônibus, no ano passado, para apurar falhas no transporte coletivo da cidade.

Foto: Jaime Freitas/CMNH
Por isso, mesmo com a aposentadoria compulsória, Luz ressalta que continuará contribuindo para a cidade. “O trabalho continua, e o foco permanece nas pessoas, na sociedade. É isso que sempre norteou minha carreira. Política tem que servir à sociedade, não ser ferramenta de interesse para poucos. O Brasil é municipalista: toda política se desenvolve nos municípios. É lá que as pessoas sentem na pele e é para essas pessoas que eu trabalho”, finaliza.
LEIA TAMBÉM