O Brasil tem mais de 4 milhões de motoristas habilitados para conduzir veículos pesados, mas apenas 3,4% deles são mulheres, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). A disparidade de gênero, no entanto, começa a ser encarada como oportunidade de transformação em um setor predominantemente masculino.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Foi com esse pano de fundo que Novo Hamburgo sediou, nesta quarta-feira (9), o painel Elas Conduzem o Futuro, promovido pelo SEST SENAT em parceria com a Iveco, dentro do programa Caminhos para Elas.
A proposta foi reunir profissionais, lideranças e alunas do programa para discutir os desafios e oportunidades na equidade de gênero no setor do transporte. Uma das participantes foi Silvia Pereira, caminhoneira formada pelo programa, que relatou sua trajetória dentro da boleia. “Eu casei com um caminhoneiro e aprendi com a carreta antes do carro. O que me move é o amor por estar na estrada. Tem gente que se estressa dirigindo, eu me desestresso. É o que me realiza”, contou.
A realidade de Silvia se conecta com um movimento mais amplo de inclusão no setor. Para Valmir Torres, do Departamento Executivo Nacional do SEST SENAT, o mercado vive uma lacuna de profissionais que já não é suprida apenas por heranças familiares. “Antes, o ofício passava de pai para filho. Hoje, os jovens não querem mais a estrada, e as transportadoras veem nas mulheres uma oportunidade real de suprir essa falta. Mas é preciso mudar a cultura, investir em mobilidade e abrir espaço. E isso passa por incentivo e qualificação”, afirmou.
Metade da população é feminina
A qualificação, tem sido um dos pilares do Caminhos para Elas, iniciativa da Iveco voltada à formação e valorização de mulheres no transporte. Para a coordenadora de marketing da montadora, Maria Júlia Araújo Ferreira, incluir mulheres não é só uma questão de justiça social, mas de sustentabilidade dos negócios. “A população do Brasil é 50% de mulheres, então se o setor tem dificuldade de preencher vagas, não podemos negligenciar metade da população. Mas para isso é preciso também discutir infraestrutura, como vestiários femininos e pontos de apoio adequados nas estradas. Esse é só o primeiro passo”, pontuou.
A mudança, segundo os debatedores, também exige o reposicionamento de empresas e instituições. Andressa Scapini, superintendente de Relações do Trabalho do SETCERGS e consultora jurídica da Scala Transporte, acredita que a transformação está em curso. “Há espaço, há capacidade técnica e há vontade. O que muitas mulheres não sabem é que elas podem ocupar esse lugar. O evento é sobre isso: visibilidade, técnica e voz. E, sobretudo, mostrar que o transporte não fragiliza ninguém”, defendeu.
Mesmo com projeções ainda incertas sobre o impacto em larga escala, o setor já percebe uma mudança de mentalidade. “A cada ano, o interesse cresce. As empresas aceitam mais, os governos também estão envolvidos, e as mulheres estão buscando o seu espaço”, completou Valmir Torres.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
O evento teve a presença de Suelen Lopes, influenciadora e caminhoneira embaixadora do programa Caminhos para Elas, que compartilhou vivências nas estradas e destacou o papel da representatividade na inspiração de outras mulheres. Como destacou a Iveco, o propósito é claro: “oferecer às mulheres a chance de reescrever suas histórias em uma indústria que precisa urgentemente de mais representatividade feminina”.