Todos os dias dona Ilse Felipina Nunes Monteiro dedica algumas horas a uma atividade que pode ser considerada comum a uma mulher de 81 anos: a costura. São peças de tricô, crochê entre outras técnicas para a confecção de meias, toucas, mantas e variadas peças do vestuário.

Foto: Eduardo Amaral/GES-Especial
Contudo, o trabalho diário tem uma função muito além de um hobby ou distração. Todas as peças que ela produz são voltadas para a doação. “Eu fazia as meinhas e levava todo santo dia para vender, mas nunca vendi muito, mas nunca me passou na cabeça de doar até que eu fiquei viúva. Então comecei a fazer e comecei a doar”, lembra a moradora do bairro São Jorge, em Novo Hamburgo.
Durante seus anos de carteira assinada, Ilse trabalhou sempre como supervisora de caixa em dois supermercados do bairro. Já a costura, embora presente na sua vida desde pequena, só foi entrar na rotina quando ela tinha 60 anos. “Minha mãe fazia, e ela dizia assim ‘tu tem que aprender’, e eu dizia: ‘pra que eu vou fazer?’. Mas depois que ela faleceu, comecei a aprender”, conta Ilse.
De renda para doação
Inicialmente, a ideia de Ilse era que o trabalho com agulhas e linhas fosse uma forma de garantir uma renda extra para ela e o marido, funcionário público na Prefeitura de Novo Hamburgo. Porém, logo após dar início ao projeto, o companheiro dela se envolveu em um acidente de trabalho e faleceu.
Por alguns anos, Ilse se dedicou à criação dos quatro filhos, três homens e uma mulher, e outras atividades foram ganhando mais seu interesse. “Eu jogava bingo, jogava carta, dai eu comecei a pensar: ‘mas esse dinheiro que eu tô gastando no bingo, eu vou fazer uma boa ação’”, conta.
Foi a partir dessa reflexão, que Ilsa se voltou para a confecção de mantas, toucas e meias para doação. Mas o que antes era uma atividade pontual, aos poucos vai se tornando uma rotina com a intenção de criar um legado de continuidade.
Aulas e visitas
As doações, no começo, aconteciam de forma menos regular, mas tiveram crescimento durante o período da enchente do ano passado. Foi com a ajuda da vizinha Sandra Regina que essa ação ganhou um caráter mais contínuo. Há algumas semanas, as duas estiveram no Lar São Vicente de Paula, onde Ilse entregou pessoalmente as doações.

Foto: Eduardo Amaral/GES-Especial
A visita serviu de impulso para que ela seguisse trabalhando, até encontrar uma forma de deixar o legado da solidariedade. Uma nova leva de roupas criadas por Ilse será entregue nos próximos dias para o Hospital Geral de Novo Hamburgo.
A partir da próxima segunda-feira (2) ela começará a ensinar o que aprendeu para um grupo, inicial, de 15 mulheres. A ideia é incentivar que as alunas também confeccionem peças para doação, mas a própria aula já é uma forma encontrada por Ilse para ajudar outras pessoas.
“As aulas serão de graça. Notei que tem pessoas que não fazem nada, passam o dia inteiro no celular, sentadas. Me preocupei durante as enchentes, porque se eu tivesse gente para me ajudar teria feito muito mais”, diz ela.
Doações e dedicação
Com as aulas, Ilse pretende dar uma atividade para pessoas, mais jovens ou da mesma faixa etária, uma ocupação e ainda ajudar ainda mais pessoas. Além das aulas gratuitas, as alunas também receberão as linhas para costurar. “Só vão precisar trazer a agulha”, destaca Ilse.
Já foram cerca de 50 peças de roupas doadas ao longo do último mês e com o apoio das alunas a expectativa é chegar a 200 peças. Para conseguir a matéria-prima, ou seja, as linhas de costura, Ilse tem contado com o apoio de doações.
De uma loja localizada na Avenida General Daltro Filho, 2183, no bairro Canudos, ela recebeu linhas novas. Mas ela também arrecadou roupas feitas à mão, as quais ela desmonta para fazer novas peças. Para quem tiver interesse em colaborar com o trabalho, pode levar linhas ou roupas feitas a mão até a loja do bairro Canudos, que concentrará todas as doações.