Estradas poeirentas, praças lamacentas e muito a ser feito. Esse era o panorama de Novo Hamburgo em 1927. Entre as várias demandas não atendidas pela intendência de São Leopoldo – e que foram parte do argumento para a emancipação –, a falta de urbanização do Segundo Distrito era visível.

Foto: Fotos Acervo Fundação Scheffel
Mesmo com um parque industrial consolidado e tendo representantes no Conselho Municipal de São Leopoldo e na Assembleia Legislativa, Novo Hamburgo era uma pequena vila sem calçamento e com pontilhões de madeira em péssimo estado atravessando seus inúmeros arroios. A estrutura econômica da cidade não condizia com o estado de suas ruas, dominadas pela lama no inverno e com infinitas nuvens de poeira no verão.
Neste segundo fascículo da série especial do Grupo Sinos alusiva ao centenário de Novo Hamburgo, vamos olhar para o Centro. Como era aquele lugar que cresceu ao redor de uma estação de trem e como ele se transformou nas primeiras décadas da cidade? O Centro diz muito sobre nossa transformação. Boa leitura e boas lembranças! Os próximos fascículos serão publicados pelo Jornal NH sempre na primeira quarta-feira de cada mês até o centenário, em abril do ano que vem.
Um Centro a ser “aformoseado”
Quando Leopoldo Petry assumiu como primeiro prefeito eleito, em maio de 1927, sua prioridade foi deixar a cidade com ares mais civilizados aos olhos da época. “Aformosear” a Praça da Estação, transformando o descampado onde chegavam os trens num portal digno para Novo Hamburgo, era o objetivo de Petry.
Para tanto, contratou o engenheiro austríaco Jorge Schury, que estabeleceu metas para transformar a antiga praça num local de fato “formoso”. Em 20 de setembro de 1927, a Praça 14 de Julho finalmente ficou pronta. Batizada em homenagem à data de promulgação da primeira Constituição Republicana Estadual, em 1891, a “nova” praça contava com passeios com calçamento de pedras portuguesas, bancos sob árvores de sombra, palmeiras variadas e um chafariz que chamava a atenção dos passantes.
Nestes cem anos, a atual Praça do Imigrante e seus arredores tiveram inúmeras intervenções urbanísticas por parte dos governos municipais. Entre chafarizes, fontes, conchas acústicas e inúmeras reformas, a região central segue como um testemunho edificado do desenvolvimento urbano de Novo Hamburgo.
Lojas, jogos, hotel, café, cinema…
A Rua da República no início da década de 1930. À direita, junto à atual Av. Pedro Adams Filho, vemos a Ebling & Cia, futura Casa Floriano, fundada em 1925; o Hotel Doeppre, que abrigava o “Víspora Luminoso”, casa de jogos de azar; do outro lado da Rua General Neto, nosso Calçadão Osvaldo Cruz, o prédio do Café Avenida, ainda de propriedade de Eduardo Cramer. Seguindo nosso passeio, vemos a antiga casa da família Schinke, o sobrado dos Kremer, a antiga Intendência Municipal e, bem ao fundo, o Cine Guarany. Uma cidade diferente em tempos diferentes.

Foto: FOTOS: Acervo Fundação Scheffel
Avenida Pedro Adams
Em 1936 foi inaugurada a Avenida Pedro Adams Filho, uma revitalização da antiga Rua da República, desde a Côrte Real até o arroio Nicolau Becker, batizada em homenagem ao pioneiro da moderna produção de calçados, falecido no ano anterior. Para a inauguração, em 17 de maio de 1936, o prefeito Angelo Provenzano mandou publicar um convite no jornal “O 5 de Abril”.
Para além da avenida
A nova Avenida Pedro Adams Filho trouxe novidades para quem circulava pelo Centro. Postes de metal com luminárias triplas instalados no meio da rua iluminavam o trajeto dos passantes, que eram observados por aqueles que estavam sentados nos bancos dispostos ao longo da via. Eis o segredo do footing, ver e ser visto!

Foto: Acervo Fundação Scheffel
Antes do chafariz, o coreto
Entre as novidades instaladas na Praça 14 de Julho em 1936, estava um coreto. Misto de palco, palanque, púlpito e local para conversas e namoros, era disputado por políticos, bandas, namorados e trabalhadores em busca de um descanso. A obra inaugurada por Angelo Provenzano resistiu até 1968, quando foi demolida para o início das obras do chafariz de águas dançantes, inaugurado em 1969.
Chegadas e partidas no Edifício Abrigo
Em 1940 foi inaugurado o Edifício Abrigo, projeto do arquiteto alemão Theo Wiederspahn. Localizado no canteiro central do recuo existente em frente à Rua General Neto (Calçadão), o Abrigo era um ponto de chegada e partida dos ônibus que vinham “das colonias”, como avisava a placa à direita do prédio, e de Hamburgo Velho e São Leopoldo. Ao final daquela década, o Abrigo ganharia mais um andar, projetado pelo professor Kurt Walzer, onde foram instaladas pioneiras mesas de “snooker”, uma atração aos jovens e uma preocupação para os pais.

Foto: Acervo de Diva Walzer Kuhn
Lá no Café Avenida
Numa tarde de domingo, uma galera se aglomera em frente ao Café Avenida. Crianças, jovens e adultos compartilhando vivências pelo Centro, ouvindo músicas e recados irradiados das caixas de som da “Voz de Novo Hamburgo”, instaladas nos postes de iluminação, vindos de uma estação de “rádio-poste” que existia no segundo andar do Edifício Abrigo.

Foto: Acervo Fundação Scheffel
A casa do dentista
A caminho do Centro pela Pedro Adams Filho – ainda chamada neste trecho de Sete de Setembro – vemos a residência do dentista Pedro Cyrillo Wolf, construída em 1932 quase na esquina com a Flores da Cunha, na poeirenta estrada que ligava as propriedades semi-rurais da zona sul da cidade à região central. Nos anos 1990 funcionou uma videolocadora neste imóvel.
E chegam as bancas…
Em 1949 a cidade ganhou novo ponto de chegada e saída de ônibus urbanos. Foi batizado de “Abrigo Municipal”, nome que não colou. Projetadas pelo engenheiro Julio Menegassi e desenhadas por Willy Martin, diretor de obras e desenhista da Prefeitura, as Bancas mudaram a cara do Centro, tornando-se o ponto de convívio popular mais tradicional e democrático da cidade.
…mas o Abrigo ainda resiste
Mesmo com a construção das Bancas, o Edifício Abrigo continuou servindo de ponto de ônibus até a construção da nova rodoviária, no bairro Rio Branco, em 1956. Abaixo podemos ver o refúgio que havia para a chegada e partida dos ônibus ao lado do Abrigo.

Foto: FOTOS: Acervo Ari Harff
Extra! Extra! Futuro da estação em jogo
As Bancas, com seus toldos para proteger os fregueses das agruras do sol de verão e os ônibus estacionados, eram símbolos de modernidade da cidade que não parava de crescer no início da década de 1960. Ao fundo, o prédio da Estação Ferroviária em péssimo estado contrastava com a imagem de progresso que Novo Hamburgo buscava passar, o que não passou despercebido ao recém-empossado prefeito Níveo Friedrich, que já alertava ao Jornal NH sobre sua intenção de demolir o velho galpão, o que acabou acontecendo em 1966.
Trânsito intenso na Primeiro de Março
Do outro lado da Praça 14 de Julho, a rua que corria em paralelo aos trilhos do trem – que viria a ser a Avenida Primeiro de Março – já apresentava movimento intenso de automóveis no começo da década de 1950. Na foto da esquerda, a vista da Primeiro de Março desde a plataforma da estação de trem. A imagem foi captada durante o ano de 1952 por Alfredo Bruno Harff, pai de Ari Harff.

Foto: Acervo de Ari Harff
A casa do prefeito
Na altura do número 5.536 da Avenida Pedro Adams Filho ainda encontramos este belo sobrado construído nos anos 1920. Além de inúmeros comércios, o imóvel foi residência do ex-prefeito Plínio Arlindo de Moura.
Um tesouro da cidade
A esquina da Rua Lima e Silva com a Avenida Pedro Adams Filho ainda preserva esse tesouro da arquitetura hamburguense. Construído em 1934 pela Breidenbach, Mosmann & Cia, sob encomenda de Frederico Juchem Sobrinho, o prédio abrigou comércios tradicionais da cidade, como a Casa Nonô e a Ruval Modas. Ao fundo, a torre neogótica da Igreja da Ascensão domina a cena.

Foto: Acervo Fundação Scheffel
Do Centro se vê o Senai
Na imagem da Avenida Pedro Adams Filho em meados da década de 1960, entre tantas informações – Bancas, ônibus, carros, lojas, o Edifício Abrigo e seu telhado gigante, que motivou o apelido de “Pombal” –, chama a atenção do observador mais atento a vista da escola do Senai no alto do morro do bairro Operário, algo impossível de se ver em nossos dias de cidade verticalizada.
Era assim…
Permanências e ausências no Centro em foto de 1965: o galpão e o prédio da estação de trem, demolidos em 1966; o recuo dos ônibus e o Edifício Abrigo, demolido em 1971; a lateral do Edifício Novo Seguro e, em frente à Ruval Modas, o “Buraco do Bayard” com as primeiras construções após o fracasso do empreendimento liderado pelo juiz Bayard Toledo Mércio em 1949.
Águas Dançantes
Em 1968, mantendo a tradição não-oficial de remodelar a praça de tempos em tempos, o prefeito Níveo Friedrich buscou o “mestre” das fontes de águas dançantes, Artibano Savi, que projetou e executou a instalação de uma das mais presentes marcas do imaginário hamburguense quando falamos sobre o Centro: a Fonte Elda, batizada em homenagem à cidade uruguaia co-irmã de Novo Hamburgo e inaugurada em 2 de abril do ano seguinte.
Novo Seguro
Um dos marcos da urbanização do Centro foi a construção do Edifício Novo Seguro, no início da década de 1960. Por mais que a edificação tenha impactado na paisagem urbana, o mais incrível ainda estava por vir: em 1975 foram construídos mais três andares, deixando o prédio com os oito pavimentos que conhecemos e que são uma das características da cidade.

Foto: Acervo Fundação Scheffel
Nova rodoviária
Em 1956 foi inaugurada a “nova” rodoviária no bairro Rio Branco, pertinho do Centro. A escolha pelo local foi muito polêmica, com disputa entre vereadores e o prefeito Plínio Arlindo de Moura. A razão da celeuma: o risco que a grande circulação de ônibus representava para os alunos do Ginásio Dom Pedro II, hoje Colégio 25 de Julho.
E as pombas?
Para quem viveu os anos 1980, um dos nomes mais populares na lembrança da Praça do Imigrante é “Praça das Pombas”. Em abril de 1976, o Jornal NH noticiava a chegada de pombas para povoar a praça. A compra foi iniciativa do prefeito Miguel Schmitz, que queria dar ares clássicos ao lugar, lembrando praças italianas. Pombais foram instalados e as aves se multiplicaram até que, em 2011, as instalações foram retiradas em nome da saúde pública.
No shopping
A foto abaixo apresenta uma vista aérea do antigo bairro da Mistura, o Rio Branco, mostrando o prédio do Curtume Jaeger e a fábrica de calçados Ciro, localizados na Rua Joaquim Nabuco entre o Arroio Luiz Rau e a Rua Imperatriz Leopoldina, exatamente onde hoje está o Bourbon Shopping.

Foto: Acervo Arquivo Público Municipal