O rapper Eduardo Tamborero, morador do bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo, acaba de lançar o som Caos Climático, um trabalho que une arte, denúncia e vivência. A faixa, que ganhou clipe produzido por DJ Cassinho da ZK Company, foi composta a partir das experiências do artista como morador da periferia atingida pelas enchentes de 2024.

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“O que me motivou a escrever essa música foi justamente o que a gente vive no Preconceito Zero, nosso grupo de rap: retratar a realidade social, os problemas que enfrentamos ao longo dos anos”, disse Eduardo.
A ideia da faixa não surgiu agora. Eduardo começou a compor Caos Climático ainda em 2023, após outra enchente que já sinalizava o que estava por vir. O clipe só foi lançado agora, em 2025, diante de novos episódios de calamidade e da urgência de se falar sobre o tema.
A letra traz uma mensagem direta, como no verso “não existe planeta B, nem pra mim, nem pra você”. Para o artista, é preciso repensar a relação com a natureza e agir antes que os desastres se tornem rotina.
“Esse é o grande recado. A gente precisa construir um futuro onde nossas crianças possam jogar bola, correr no campo, sem catástrofes, sem perdas. É uma questão de consciência coletiva. Para nós, não é só ‘meio ambiente’. É o interambiente: um todo que exige uma relação de cuidado e respeito com a natureza”, explicou.
Apesar do tema duro, a resposta do público tem sido positiva e empolgante. O clipe ganhou força nas redes sociais e foi compartilhado por perfis de rap e trap de todo o Brasil.
“Estou surpreso com o alcance desse trabalho. Nas redes sociais, a gente já passou de 10 mil visualizações, com muitos comentários e compartilhamentos. Várias páginas de rap, de trap, de todo o Brasil têm divulgado essa música e esse clipe”, disse.
“O rap tem um papel fundamental, assim como outras expressões culturais, de manifestar as questões sociais, ambientais, climáticas. Nosso papel é esse: fazer música que desperte consciência, que traga alertas, que provoque reflexão. A gente sempre diz que pensa onde nossos pés pisam. Fazer rap é falar da realidade, daquilo que estamos vivendo, do que nossa comunidade está passando”, afirmou.
Racismo ambiental
Uma das abordagens centrais da música é o chamado racismo ambiental — expressão que descreve como as populações negras, indígenas e periféricas são desproporcionalmente afetadas por desastres naturais e pelo descaso do poder público.
“Quando falamos de racismo ambiental, é importante lembrar que nas enchentes de maio de 2024 saiu uma pesquisa da UFRGS mostrando que os mais atingidos foram pessoas negras, mulheres negras, mães solo, comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas. E isso não é coincidência. São populações historicamente empurradas para áreas vulneráveis, muitas vezes em ocupações sem infraestrutura, porque foi o que sobrou”, falou.
Esse abandono, segundo Eduardo, precisa ser exposto. E mais do que denúncia, o artista pede ação: investimento real nas comunidades que sempre foram deixadas de lado.
“O poder público, em geral, investe nas regiões que já têm estrutura, deixando essas comunidades sem o devido olhar e cuidado. Denunciar isso é necessário. Falar de racismo ambiental é falar da ausência de prevenção, de políticas públicas que deixaram de chegar onde mais precisava. Precisamos de mais critério, mais investimentos e mais respeito com essas comunidades”, completou.