“No dia do nascimento da minha filha, eu estava apostando com ela nos braços”. “De tanto que eu saía de casa, meu marido pensou que eu tinha um amante. Tentei tirar minha vida, e nem isso fez eu parar”. “Devia para seis agiotas e temia pela minha vida e da minha família. Perdi um apartamento e minha esposa me deixou”. “A gente mata até a própria mãe pra pedir dinheiro”. “Achei que meu filho estava envolvido com drogas, mas era um vício sem remédio. Paguei R$ 130 mil em dívidas e achei que ele teria que pagar com a vida”.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Frases que poderiam estar em um roteiro dramático, mas são relatos reais de pessoas mais próximas do que imaginamos. Elas foram ditas por moradores da região que enfrentam a compulsão por jogos e apostas — uma epidemia silenciosa que existe há décadas, mas agora alimentada pelas plataformas online. O desafio, contudo, começa a ganhar respostas no Vale dos Sinos.
Desde agosto, Novo Hamburgo passou a sediar encontros presenciais de Jogadores Anônimos (JA), irmandade que oferece apoio a pessoas com compulsão por jogos de azar e a seus familiares no bairro Rondônia, em espaço cedido por uma congregação da IELB. Segundo o pastor Lucas Pinz Graffunder, que intermediou a chegada do JA ao município, a procura tem crescido a cada semana. “A cada encontro aparecem novas pessoas. A média já tem sido de 20 participantes, entre jogadores e familiares”, conta.
Perfis diversos e aumento entre mulheres
As reuniões, de cerca de duas horas, dão espaço para que os participantes compartilhem experiências, como as citadas no início. E os relatos ouvidos impressionam. “Os casos são assustadores”, admite o pastor Lucas. “Estou envolvido na criação de grupos de apoio há muitos anos e já ouvi muitas coisas horríveis. Houve um casal que apostava junto. O marido tirou a própria vida e uma amiga próxima, que também jogava, fez o mesmo.”
Os danos financeiros também costumam ser devastadores com a perda de patrimônios, carros, casas e acúmulo de empréstimos. “Um jogador me contou que já perdeu mais de um milhão. Mas, para quem tem menos recursos, mil pode ser como se fosse um milhão, porque destrói a vida da mesma forma”, relata o pastor. “Muitos recorrem a agiotas e têm suas vidas ameaçadas”, complementa.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Entre os participantes estão jovens, idosos, viciados em apostas virtuais, em cartas, corridas. Pessoas de diferentes classes sociais, sendo a maioria mulheres em Novo Hamburgo. “Os homens, em geral, vão mais para as apostas esportivas. Já as mulheres têm sido atraídas por jogos de celular, como o chamado tigrinho”, explica Lucas.
“Eu sou motorista de ônibus, vidas dependem de mim. E um dia dormi ao volante porque passei a noite jogando e gastei todo meu salário. Não tenho mais vida social porque vivo sem dinheiro, mas quero mudar, tirar o sofrimento dos meus filhos. Todo mundo está aproveitando a vida e eu trancada dentro de casa”, disse uma participante em seu primeiro encontro no grupo em Novo Hamburgo.
Problema não é de agora
Apesar de recente em Novo Hamburgo, o Jogadores Anônimos surgiu há muito tempo. De acordo com a irmandade, a primeira reunião foi realizada em 13 de setembro de 1957, em Los Angeles/EUA. No Brasil, existe desde 1993, o que mostra que, apesar da popularidade das “bets” e jogos de celular dos tempos atuais, o problema do vício existe desde o século passado. O que muda é o formato do jogo e o fácil acesso.
A motivação inicial também varia: enquanto alguns começam apostando como se fosse um hobby, outros buscam uma fonte de renda extra e ambos acabam se envolvendo em um ciclo de perdas do qual é difícil sair. “Eles ganham uma vez, depois perdem, tentam recuperar, e dali em diante a casa sempre vence. Muitos me dizem: ‘a gente não sabe como chegou nesse ponto’”, comenta o pastor Lucas.
Os encontros em Novo Hamburgo seguem o modelo dos 12 passos, aplicado em outras irmandades como os Alcoólicos Anônimos. Jogadores e familiares são divididos em grupos, de forma a dar espaço para que todos compartilhem suas vivências. O princípio é simples, mas poderoso: ser ouvido.
“No caso do jogo, não existe remédio. A compulsão é controlada pelo apoio de quem está junto. Um liga para o outro no momento do gatilho, alguém responde no grupo de WhatsApp, e isso pode impedir uma recaída. O lema é sempre o mesmo: só por hoje”, detalha Lucas.
“Estou com meu marido há mais de 30 anos, e é muito triste ver ela se transformar em uma pessoa com quem eu não queria estar. Por isso eu entendo quem se separa. Esse grupo fez toda a diferença para eu continuar com ele, num ambiente melhor com os dois filhos. O pior que se perde não é o dinheiro, é a paz”, comenta a esposa de um viciado em jogos.
Para o pastor, o crescimento do grupo em Novo Hamburgo reflete uma realidade que vinha escondida. “É uma epidemia. Só no WhatsApp nacional de Jogadores Anônimos entram cerca de cem pedidos de ajuda por dia. E, infelizmente, vemos que muitos só procuram apoio quando a vida já está em ruínas.”
Casos reais
Com exceção do pastor Lucas Graffunder — que não é integrante do JA, e sim um intermediador — todos os demais nomes a seguir são fictícios para proteger suas identidades. Porém, suas histórias são reais e impactantes. Casos de famílias que foram desfeitas, pais que quase perderam os filhos, pessoas que adoeceram, dívidas contraídas, entre outras situações causadas pela compulsão.
A dor de um pai que quase perdeu o filho para o jogo
Marcelo, 54 anos, viu o vício em jogos entrar pela porta de sua casa há três anos, quando seu filho Henrique, 34, pediu um certo valor em dinheiro e desencadeou uma bola de neve que ainda traz consequências. “Eu dei um jeito, arrumei emprestado. Na outra semana, ele pediu mais. E na semana seguinte…”, conta o pai que, inicialmente achou que se tratava de dívidas comuns.
Um ano depois, mais pedidos e Marcelo vendeu o carro para ajudar o filho, ainda sem saber para onde iam os milhares de reais que Henrique pedia. Oito meses se passaram e a procura por mais dinheiro retornou. “Imaginei que ele estivesse usando drogas, porque era muito dinheiro e não víamos ele adquirindo nada, só dívidas”, relembra Marcelo.
Foram três anos de empréstimos sucessivos, silenciosos e sem explicação. Até que, sem saída, Henrique confessou: “Eu não conseguia mais trabalhar, jogava 24 horas pelo celular. Apostas, cassinos…, foi onde eu caí e recorri ao meu pai por dinheiro. Eu já havia pedido para mais de 200 pessoas.”
Após o choque, Marcelo resolveu ajudar. “Ele devia para sete agiotas e mais de R$ 7 mil em empréstimos com amigos. Paguei cerca de R$ 130 mil para ele, sem contar um apartamento e uma moto que ele perdeu”.
O impacto financeiro foi devastador, mas o emocional foi ainda mais cruel. Marcelo parou de comer, de dormir e adoeceu. Perdeu sete quilos em uma semana e precisou se afastar do trabalho de tanta preocupação com o filho. “O jogador adoece, mas o familiar adoece talvez até mais”, descreve.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Ao descobrir o vício do filho, Marcelo também descobriu um universo de mentiras, dívidas impagáveis, ameaças e riscos constantes. “A gente não entende a cabeça de quem joga, porque um real ou 100 mil é a mesma coisa. Eles não jogam para ganhar dinheiro. Eles querem ganhar para continuar jogando.”
Henrique mentia para a esposa, para os pais, e, principalmente, para si mesmo. “A gente acha que vai conseguir parar, mas é mentir pra mentiroso. Eu dizia para os meus pais que só precisava daquele dinheiro para pagar o que devia e iria parar. Só que foram três vezes, e não consegui parar”. Por não conseguir pagar em dinheiro, achou que pagaria com a vida. Estava devendo para seis agiotas ao mesmo tempo, dívida que aumentava diariamente.
“Essas cobranças vinham com ameaças, porque quando se pega dinheiro com um cara desses, tem que dar o endereço, o telefone do pai, da mãe, da esposa. Então, eles têm tudo. ‘A gente vai na tua casa, se tu não pagar é tchau, vamos pegar o que tu tiver dentro de casa’. Temi pela minha vida, pela da minha esposa e da minha filha. Eles não têm nada a perder”, relata Henrique, que buscou ajuda e encontrou o JA pela internet.
Ao começar a frequentar as reuniões com o filho, em Porto Alegre, Marcelo conheceu também muitas histórias parecidas. “S ó mudam os valores. Vi que é uma doença, isso está nele”, comenta. Marcelo acredita que, sem ajuda, poderia ter perdido o filho. “A dívida vira uma bola de neve e as ameaças aumentam. Tem gente que vê no suicídio a única saída. Se não tivéssemos buscado ajuda, eu não sei o que teria acontecido com meu filho.”
Henrique perdeu seu apartamento, uma moto, um carro, R$ 130 mil, a esposa e muitos amigos. Há um ano e dois meses sem jogar, hoje vive na casa dos pais. Pouco a pouco, busca se reerguer e desde que entrou na irmandade, nunca recaiu. “Já ganhei mais de R$ 10 mil e perdi tudo. Eu andava sempre mal vestido. Agora busco reconquistar minhas coisas e meu espaço, e tenho certeza que vou dar a volta por cima. Minha cabeça está mudada, eu sou novo e tenho a plena e convicta certeza que eu vou conseguir”, finaliza.
Entre a vida e o vício
Casado e gerente de vendas, Eduardo, 36 anos, tinha uma vida estável. Mas tornou-se um jogador compulsivo durante três anos, até encontrar o JA e iniciar sua abstinência há cerca de três meses. Como muitos, começou a jogar por brincadeira, tentando uma renda extra. Ao começar a perder, a compulsão despertou e com ela vieram os problemas financeiros e a falta de confiança até mesmo dos amigos mais próximos. “Nunca dei motivo para isso, e agora as pessoas deixaram de confiar em mim. É algo que me persegue”, admite.
O celular tornou-se indispensável até na hora do banho. “Deixava no suporte do xampu pra continuar jogando no chuveiro”, lembra. No trabalho, sua produtividade diminuiu, jogava escondido por baixo da mesa enquanto atendia seus clientes. “Como gerente, algumas lojas dependem do meu empenho sobre os vendedores. As lojas batiam metas, sempre com vendas boas, e tudo isso começou a ruir quando comecei a jogar.”
Um dos momentos mais marcantes foi no nascimento de sua filha. Com o vício já em alta, seu celular estava bloqueado, mas Eduardo aproveitou que Amanda, sua esposa, dormia após dar à luz e pegou o celular dela. “Estávamos no quarto, a minha bebê nos meus braços e eu busquei entrar no jogo. A gente deixa de aproveitar os momentos, fica cego pelo jogo, esquece o que está fazendo. Nada na minha vida foi melhor que o nascimento da minha filha, e nem naquele momento eu consegui ficar sem jogar.”
A revelação deste fato ocorreu justamente em uma das reuniões do JA, onde ele dava seu depoimento e sua esposa ouvia com os olhos cheios de lágrimas. “Eu nunca tinha falado isso pra ela e revelei aqui porque o grupo ajuda. Nunca fui de me abrir, ainda mais em uma situação vergonhosa. Às vezes é uma frase e muda teu dia”, descreve.
Amanda o acompanha em todas as reuniões, mas antes disso também sofreu perdas. “Envolvi o nome da minha esposa. Fiz ela tirar empréstimos em bancos, até mesmo falando que eu ia jogar. Eu consegui convencer ela que, jogando, conseguiria pagar as dívidas do próprio jogo”. Além disto não acontecer, Eduardo também deve dinheiro para amigos que, felizmente, estão lhe dando tempo para pagar.
Vergonha e a libertação
Sandra, 59 anos, começou a jogar há 23. Desde então, viveu entre recaídas e tentativas de recomeço. Está há quatro anos sem apostar, mas nem por isso livre do vício. “Tive períodos de dois e até cinco anos sem jogar, mas recaí. Até que a ficha caiu. Hoje tenho certeza de que não quero mais aquela vida de mentira, de desespero, longe dos meus filhos”, conta.
Durante anos, ela manteve o vício em segredo. Deixava os filhos com o marido e saía com uma amiga para jogar. Mentia dizendo que ia a aniversários ou outros compromissos. “Andava tanto na rua que meu marido chegou a desconfiar que eu tivesse um amante”, relata. Foi nesse ponto que decidiu contar a verdade — impulsionada também pela ajuda profissional que já vinha recebendo.
“Eu fazia terapia por me sentir sobrecarregada, e numa das sessões surgiu a questão do jogo. Minha psiquiatra me disse que eu era uma pessoa compulsiva e precisava de ajuda. Ela me encaminhou para o grupo de Jogadores Anônimos”, lembra.
O problema, no entanto, continuava crescendo. “Eu nunca joguei pelo celular, tinha que sair de casa para apostar. Pedia dinheiro para amigas, fazia empréstimos consignados. Eu era funcionária pública, tinha uma renda razoável, então era fácil conseguir crédito. Só que chegou um ponto em que fiquei zerada”, relata.
As consequências foram graves e Sandra chegou a tentar tirar a própria vida. “Acho que isso nem foi o pior. O fundo do poço foi a questão financeira. Fiquei sem nada, sem dignidade.” O apoio do marido e do grupo foi essencial para o processo de recuperação. “Hoje não tenho mais dívidas porque ele me ajudou. A minha vida é maravilhosa sem o jogo. Hoje vivo um dia de cada vez, só por mais 24 horas. O grupo me salvou”, finaliza
Entendendo o vício e a compulsão
O coordenador do mestrado em Psicologia da Universidade Feevale, professor Marcus Levi Lopes Barbosa, explica que o envolvimento com as apostas pode ter duas origens distintas: o vício e a compulsão. “O vício é uma atividade prazerosa, que gera a expectativa de ganhar. Cassinos e apostas online têm esse vício associado porque geram prazer, liberam dopamina, assim como futebol ou vôlei, que trazem benefícios à saúde. Mas, com a presença do dinheiro, o envolvimento é muito maior e as perdas também”, observa.
Segundo o psicólogo, o vício está ligado à perda de controle sobre a sensação de prazer. “Quem fica viciado perde o controle da recompensa do prazer. Quer mais um pouquinho e não consegue parar. Ganha uma vez e aumenta os valores, vai se isolando socialmente e apresenta sinais semelhantes à abstinência química”, descreve.

Foto: Feevale/Divulgação
Já a compulsão, explica Barbosa, tem outra motivação. “É a necessidade de sentir alívio, de reduzir a ansiedade, o estresse, a angústia. Buscam o jogo como pessoas que usam drogas para relaxar. Poderiam buscar esportes, meditação, caminhada — coisas saudáveis ou não —, mas buscam as apostas. Pessoas estressadas, pressionadas, com quadros de depressão podem estar mais suscetíveis porque querem esse prazer”, afirma.
Ele compara o comportamento dos apostadores com o de dependentes químicos. “Há cada vez mais casos de pessoas que começam a jogar, e os sintomas são muito semelhantes a vícios em álcool e drogas. Mentem e enganam por dinheiro”, diz.
Barbosa explica que o que prende o jogador não é apenas o ganho financeiro, mas a sensação que o acompanha. “Ganhar é importante, mas com o tempo o dinheiro deixa de ser o principal. O que vale é a recompensa. E o mais curioso é que não é interessante ganhar sempre, porque isso diminui a sensação. A aleatoriedade aumenta a expectativa: o jogador perde, perde, e quando ganha, o cérebro dispara uma enxurrada de dopamina. É isso que o prende.”
Ao comentar o grupo Jogadores Anônimos, o psicólogo elogia a iniciativa. “Acho esse grupo muito interessante, usando a mesma sistemática de um AA. É uma ideia muito acertada, pessoas que se unem para a autoajuda. Estão de parabéns”, avalia.
Como buscar ajuda
Para encontrar o grupo Jogadores Anônimos, acesse o site jogadoresanonimos.com.br, entre em contato pelo e-mail jogadoresanonimosrs@gmail.com ou pelo telefone (51) 98030-2002. As reuniões ocorrem aos domingos, às 17 horas, na Rua Dr. João Daniel Hillebrand, 1349, bairro Rondônia, em Novo Hamburgo.
Se você ou alguém que você conhece está em risco ou com ideias de tirar a própria vida, procure imediatamente atendimento de emergência (telefone de emergência 192 ou serviços locais de saúde) ou disque o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo número 188 — atendimento 24 horas.