Com gritos de incentivo, olhos atentos nas arenas e celulares prontos para registrar cada detalhe das disputas, o ginásio do Câmpus do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) em Novo Hamburgo ganhou, nesta quarta-feira (3), clima de estádio de futebol. Mas quem roubou a cena foram robôs, protótipos e projetos científicos que tomaram conta da Mostra de Produção do IFSul, evento que começou na terça-feira (2) e segue até esta quinta (4), reunindo trabalhos de ensino, pesquisa, extensão, inovação e cultura.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
O ponto alto do dia foi a competição de robótica, que envolveu provas como seguidor de linha, desafios com robôs EV3 e disputas de sumô, além da presença de escolas do município que acompanharam as atividades. Os projetos, porém, se espalham por todos os espaços do campus, mostrando produções que vão da tecnologia à agricultura, da química à inovação industrial, além de oficinas de artes, jogos, terrário, entre outras.
Segundo o diretor do Câmpus Novo Hamburgo, Rodrigo Dias, o evento reúne iniciativas de todos os 14 campi do IFSul e reforça o papel da instituição no desenvolvimento regional. Ele destaca que a mostra aproxima a comunidade da estrutura e das pesquisas desenvolvidas pelo instituto. “É muito importante para Novo Hamburgo um evento que envolve pesquisa, extensão e inovação. Porque faz simular todo esse conhecimento aqui no município. E também contribui muito para o fortalecimento da educação profissional e tecnológica na região”, comentou o diretor.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Imersão por parte dos alunos
Entre quem vive o evento nos bastidores está a estudante Michele Moehlecke, de 17 anos, do curso técnico em mecatrônica, que atua como monitora da Mostra e também ministra aulas de robótica em cursos de extensão.
Michele destaca que a robótica é apenas uma das áreas contempladas e que a mostra também apresenta pesquisas em química, agricultura e educação, o que amplia o contato do público com diferentes frentes da produção científica do instituto. “Ter uma mostra como essa, tudo no mesmo lugar e com todo mundo junto, chegando escolas do município e de fora para ver essas apresentações é muito gratificante”, disse.
Projetos premiados
Um dos projetos que chama atenção é o protótipo desenvolvido pelas alunas Gabriela Ribeiro de Moraes e Isadora Dias, ambas de 19 anos, do curso técnico em mecatrônica do campus de Novo Hamburgo. A dupla criou uma plantadeira automatizada voltada à agricultura familiar, com foco em baixo custo e fácil operação. O equipamento cava a terra, armazena mudas e, por meio de um braço robótico, deposita as plantas no solo de forma automatizada.
Gabriela explica que o objetivo é oferecer uma alternativa viável para produtores familiares que enfrentam dificuldades de acesso a tecnologias agrícolas devido ao alto custo de equipamentos tradicionais. “Os testes iniciais indicaram potencial para uso real e os custos estimados ficaram abaixo dos praticados por máquinas do mercado.”
O projeto foi reconhecido na Mostratec 2025, em Novo Hamburgo, onde as estudantes foram premiadas na categoria Indústria Jovem pelo SinmaqSinos, sindicato das máquinas agrícolas do Vale do Sinos. Para Gabriela, o prêmio representa a validação de meses de trabalho e a esperança de que a ideia possa se tornar um produto que ajude quem vive da agricultura familiar. “Foi muita surpresa para nós (a premiação) porque não estávamos esperando. É tão bom quando a gente consegue um retorno pelo nosso esforço”, define.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Da agricultura para as pistas, o Campus Charqueadas apresenta o Eifchar, um protótipo de carro elétrico de corrida desenvolvido pela equipe de eficiência energética do IFSul. Os estudantes Émerson Fagundes dos Santos e Larissa Moreira de Araújo explicam que o projeto é voltado à competição internacional Shell Eco-Marathon, que reúne universidades de toda a América Latina e desafia os participantes a construir veículos que consumam o mínimo de energia possível.
Com integrantes majoritariamente do ensino médio técnico, a equipe conquistou o segundo lugar nos dois últimos anos e, em 2025, terminou a competição em quinto. O protótipo chega a até 26 km/h e, na mostra, os estudantes criaram uma simulação da pista para demonstrar como funciona o desafio, que exige controle de velocidade e eficiência em curvas.
Herança do Mundial
Outro destaque tecnológico da Mostra é um robô que participou do Mundial de Robótica, realizado em julho, em Salvador, na Bahia. O professor Marcelo Azevedo, do Campus Camaquã, explica que o equipamento integra a Robocup Brasil e compete na categoria de futebol de robôs, em que as máquinas atuam de forma totalmente independentes.
“Esses robôs jogam futebol de forma 100% autônoma. Eu só dou um play e o robô joga. Então, ele tem câmeras nos olhos, tem todo um processamento de imagem, o robô sabe o que é o campo, o adversário, a bola e o gol”, explica Azevedo, que trabalha na Robocup Brasil.
Cada unidade custa em torno de R$ 250 mil, e, após o mundial, 12 robôs foram deixados no Brasil e distribuídos a instituições de ensino para a formação de novas equipes e desenvolvimento de software. “Como o Brasil não tinha dinheiro para comprar esses robôs, a Robocup Federation, como uma herança do mundial, deixou esses robôs aqui no Brasil para que as universidades começassem a formar equipes e programar esses caras aqui”, conclui.