O que começou com a sugestão de um amigo, transformou-se em um marco importante na vida do venezuelano Geremy Nasareal Paredes Marcano, de 16 anos, agora bolsista na Escola de Aplicação Feevale, em Novo Hamburgo. Ele é um dos beneficiados pelo Projeto Futsal Social, voltado a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e organizado pela União Jovem do Rincão (UJR), Universidade Feevale e Prefeitura de Novo Hamburgo.
A iniciativa atende mais de 600 jovens em seis territórios da cidade, incluindo migrantes estrangeiros, sendo 18 alunos venezuelanos participantes das aulas no contraturno escolar.
“Eu não gostava de jogar futebol, não era atleta, não gostava de muito esporte. Daí um amigo meu da escola que já participava, ele chegou em mim e perguntou ‘ô, por que tu não quer participar?’ e eu falei, ‘sei lá, vou ver’”, lembra Geremy, que participa do Futsal Social desde 2024.
“Fiquei pensando por uns três dias e fui ver como era a experiência. Descobri como me inscrever e na próxima semana comecei a frequentar”, continua.
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Foi por meio do projeto que o estudante conquistou sua bolsa de estudos na Escola de Aplicação Feevale, onde se matriculou neste ano. “No início era uma nova experiência, novos amigos, nem os professores eu conhecia. Pensei que ia ser difícil para eu me acostumar, mas não foi, me acostumei rápido, consegui fazer amigos que já são próximos, tenho uma boa amizade tanto com meus professores como com meus colegas, sou muito grato por isso”, afirma.
“Em questão de notas, mesmo sendo meu primeiro bimestre, estão muito boas. Gostei de conhecer a infraestrutura, os alunos, que se dedicam mesmo ao que fazem, isso é muito motivador para mim”, continua.
O Projeto possui, desde 2012, apoio e patrocínio de empresas por meio da Lei de Incentivo ao Esporte do governo federal, como Banrisul, Sulgás, Unique, Apta, SLC, Tacosola, Rissul, BRDE, Tintas Killing, Dass, Openfield, entre outras.
“No nosso país a gente se preocupava com o que ia comer amanhã”
Geremy conta que mora no Brasil desde 2021, quando sua família precisou buscar melhores condições de vida. “Eu tinha dez anos. Era uma noite normal e minha mãe chega em mim e diz o seguinte: ‘se prepara porque amanhã a gente vai pro Brasil’. Foi algo impressionante, repentino, na época eu não entendia o motivo”, narra.
“Agora que eu estou com a mentalidade mais desenvolvida eu compreendo. Era por uma melhor qualidade de vida, para morarmos em um país com uma economia melhor, na época estava muito ruim. Enquanto aqui a gente se preocupa (e não é muito) com contas de água, luz ou aluguel, no nosso país a gente se preocupava com o que ia comer amanhã”, prossegue.
A assistente social Adriani Faria, que acompanha Geremy e seus dois irmãos Danny Luis Martinez Marcano e Andri Geraldo Cabeza Marcano desde a chegada ao projeto, revela, por meio de nota, que o trabalho busca garantir que esses adolescentes compreendam seus direitos e acessem as políticas públicas disponíveis para eles.
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“Nós os acompanhamos no acesso a direitos sociais essenciais, como documentação, saúde, assistência social e, especialmente, educação. Atuamos como ponte entre o adolescente estrangeiro e a comunidade, contribuindo para que ele se reconheça como sujeito de direitos, protagonista de sua história e integrado ao território”, descreve.
Troca de culturas e benefícios
Para o professor Marcelo Hoehr Martinez, da Escola de Aplicação Feevale, iniciativas como o Projeto Futsal Social não beneficiam apenas alunos como Geremy, mas também a própria instituição.
“Não só é um ganho cultural, por ele vir da Venezuela, mas também pela possibilidade de estudantes ingressarem na universidade ou na Escola de Aplicação por meio de projetos sociais. Estão sempre chegando pessoas novas que enriquecem nosso contexto escolar”, destaca.
“Geremy descobriu que a escola estava dando bolsas para atletas e chegou muito feliz, participando de projetos, apresentando trabalhos e mesmo com um pouco de dificuldade por falar espanhol, está com uma rápida adaptação”, comenta também.
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Colega de Geremy na Escola de Aplicação, o estudante Ray Luis de Souza Antunes, de 15 anos, também acredita que cresceu por meio do convívio com uma cultura diferente da sua.
“Foi bom ter ele como colega, eu nunca tive colegas venezuelanos assim, ele foi um dos primeiros. Vi que ele começou a falar de futebol, a se comunicar mais dentro da sala de aula. Acho importante ter essa troca porque ele consegue me ajudar e eu consigo ajudar ele, ele pode me mostrar coisas novas sobre a cultura dele e eu posso fazer o mesmo.”
Professor de Geremy pela UJR, Marco Roberto Marques de Freitas ressalta a evolução de Geremy e o papel de projetos como esse na construção de um mundo mais tolerante.
“A UJR sempre buscou acolher todo mundo e o crescimento de Geremy foi muito significativo, ele chegou como um jovem tímido, não falava muito, e hoje em dia é participativo, protagonista da aula. Iniciativas como essa fortalecem a cidadania, porque incentiva a solidariedade, a convivência e o reconhecimento da diversidade com algo positivo para toda a comunidade.”