Kukrej. A palavra caingangue, cuja pronúncia é Kukrêi e dá nome a uma árvore frutífera, nada mais é do que o nome indígena de Narciso José Antônio, conselheiro da Aldeia Por Fi Ga, no bairro Feitoria, em São Leopoldo.
Em homenagem ao Dia dos Povos Indígenas, comemorado neste sábado (19), a reportagem do ABCMais foi até a aldeia conhecer os detalhes de sua cultura em uma entrevista com Narciso. Trabalho, educação, culinária típica, fé e cuidados com a saúde estiveram entre as temáticas abordadas pelo conselheiro, que conta que a aldeia está de portas abertas para receber visitas escolares durante todo o mês de abril, que é considerado o Mês dos Povos Indígenas – e as escolas também podem receber visitas dos membros da aldeia.

Foto: Bruna de Bem/GES-Especial
As visitas são agendadas por intermédio da Prefeitura de São Leopoldo. Nas atividades, os estudantes são apresentados à rotina indígena por meio de apresentações, palestras, cantos e amostras de comidas típicas e de artesanato. Em entrevista ao Grupo Sinos, ele conta detalhes sobre a cultura e a rotina da aldeia Por Fi Ga (que tem cerca de 200 moradores) – os mesmos que são apresentados aos alunos.
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Autonomia desde cedo
Uma das principais características de aldeias como a Por Fi Ga é o formato de trabalho. De acordo com Narciso, as crianças são ensinadas a desenvolverem sua independência aos poucos, desde cedo. “O indígena trabalha observando seu pai. A gente enfrenta muito isso, na cidade, o pessoal vai para fazer a temporada nas praias e as pessoas pensam que a gente está usando nossas crianças, que é trabalho forçado. Mas na verdade o indígena já está aprendendo a trabalhar a lição da vida observando seu pai, aprendendo a se virar”, explica.
Devido a situações constantes envolvendo denúncias de trabalho infantil ao Conselho Tutelar, uma das maiores reivindicações da aldeia é uma creche. “A gente vive do comércio de artesanatos e isso interfere na vivência dos pais com os filhos, porque a gente não pode tirar a criança da escola para sair com os pais. Inclusive o prefeito e os secretários nos prometeram uma creche aqui dentro”, afirma.
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Narciso conta que, para a comunidade indígena, a autonomia é um traço fundamental, incentivado desde cedo. “Por exemplo, se a criança pega uma faca, os pais não indígenas já dizem ‘vai se cortar’. A gente já ensina a se cuidar, bota para sentar para observar. Tem que dialogar com a criança, contar uma história, ensinar uma cantiga…”
Educação até o 5º ano na aldeia indígena
Na aldeia, está disponível apenas uma escola com educação infantil e anos iniciais, ou seja, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental), com aproximadamente 90 crianças. A partir do 6º ano, os alunos estudam em escolas da rede municipal. Há ainda a construção de uma escola estadual, cuja obra está na etapa de terraplanagem.
Há ainda a construção de uma escola estadual, cuja obra está na etapa de terraplanagem. Embora siga a carga horária e a grade curricular definidos pelo Ministério da Educação (MEC), as aulas são conduzidas de forma diferente de uma escola não indígena. “Fora daqui, o professor tem um horário para começar a dar aula e, se um aluno atrasa, perde uma parte da aula. Aqui o professor espera todos chegarem para começar a falar”, afirma.

Foto: Arquivo pessoal
Alimentação e cultura culinária
Embora os pratos típicos indígenas sejam de origem natural, a maior parte de sua alimentação parte de itens superprocessados comprados em supermercados. “A nossa terra não é própria para plantio, então a gente acaba comprando muito em supermercados, inclusive o peixe, porque não tem rio aqui atrás”, relata Narciso. “Inclusive já estamos programando a coleta de verduras típicas antes que o frio acabe matando”, continua.
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Conexão com a natureza
Para os membros da Por Fi Ga, a conexão com a natureza faz parte da vida como um todo, desde o tratamento de algumas doenças até a escolha dos nomes (como é o caso de Kukrej). “O meu nome foi inspirado em uma árvore frutífera que é bem forte e resistente, que chama muita atenção. Para escolher um nome, o indígena observa as qualidades da criança e de um animal ou uma árvore, e com aquele nome é batizado o filho. O nome é muito importante porque traz força e muita energia positiva também”, afirma Narciso.
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No caso da saúde, o conselheiro descreve que a natureza está presente em medicamentos naturais, oriundos de folhas de plantas como a Laranjinha e a Maria Preta. “A gente utiliza para casos mais leves, como cólicas menstruais. Quando são casos mais graves, a gente recorre ao posto de saúde da aldeia ou às UPAS (Unidades de Pronto Atendimento)”, diz Narciso.

Foto: Arquivo pessoal
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Fé e religião
Com uma fé baseada em Tupã (o Deus caingangue), o líderes religioso da aldeia é o pajé. “Ele é batizado para ser o líder espiritual da aldeia e quando está para acontecer alguma coisa, ele avisa a aldeia porque o espírito avisou ele, então a comunidade já se prepara observando a Lua, o sol, a natureza e o canto dos pássaros”, descreve. Para os caingangues, não existe céu, inferno ou reencarnação, e sim o Numbê. “É um lugar secreto de onde eles não voltam, mas lá eles vivem outra vida”, explica.
Devido à catequização realizada pelos jesuítas no período da colonização portuguesa no século 16, a comunidade indígena também exerce o cristianismo. “Inclusive, temos uma igreja evangélica aqui e eu também faço parte de uma igreja evangélica”, diz Narciso. “Tem muitas crenças que acreditam em São Pedro, São Paulo, Santo Antônio, mas a nossa ainda permanece em Deus, que é o nosso Tupã”, continua.