A jovem moradora de São Leopoldo que morreu após 43 dias internada no Hospital Centenário, queria contar a sua história para ajudar outras mulheres a identificar e enfrentar situações de violência doméstica. Ketlyn Jennifer Vargas da Silva, de 25 anos, foi esfaqueada pelo ex-companheiro, de 42 anos, na noite de 8 de setembro.

Foto: Arquivo pessoal
Conforme a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), ele teria atacado a ex-mulher, pois não aceitava o fim do relacionamento. O agressor fugiu e foi preso horas depois, após ser linchado por populares.
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Foto: Arquivo pessoal
Morta na frente do filho
O crime aconteceu na casa onde ela morava, no bairro Santos Dumont, em São Leopoldo, e na frente do filho do casal, de 5 anos, que é autista nível 3 de suporte, não verbal.
“Ele estava com o menino no colo, se despediu, e ela pegou o menino e foi colocar ele no sofá, foi quando ele golpeou ela pelas costas”, conta a mãe de Ketlyn, Jaqueline da Silva Vargas, 42 anos. A jovem levou duas facadas e caiu no chão, próximo do filho. “Ele não entendeu muito bem o que estava acontecendo, mas deitou no chão com ela, e ficou fazendo carinho”, comenta Jaqueline, sobre a reação do pequeno.
A vítima foi levada ao Hospital Centenário para atendimento e seguiu internada até a última terça-feira (21), quando acabou falecendo.
Contar sua história
Em um dos momentos que conversou com a mãe no hospital, Ketlyn relevou a vontade de contar sua história como forma de ajudar outras mulheres. “Ela falou: ‘mãe, acho que vou escrever um livro sobre a minha história’. E eu disse pra ela: ‘a gente usa as redes sociais para postar qualquer besteira, usa essas armas, texto, vídeo, que vai alcançar mais pessoas’. Ela queria alertar as mulheres sobre essas violências”, destacou Jaqueline.
Segundo ela, Ketlyn resolveu se separar do marido e foi morar com o filho ao lado da casa da mãe, pouco mais de um mês antes do crime.
A mãe da jovem comenta que só ficou sabendo que a filha enfrentava problemas no relacionamento depois do ataque. “Tudo ficamos sabendo depois. Quando ela foi pro hospital, contou pra mim de outras coisas que aconteceram, mas nada que tivesse envolvido agressão antes.”
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“Sentimento de dor, de impotência”
No total, Ketlyn passou por cinco cirurgias, enquanto esteve internada. E desde a noite do crime, seu filho está com Jaqueline. “É uma coisa que ela queria. Quando ela foi para a última cirurgia, ela me disse: ‘se acontecer alguma coisa comigo, cuida do meu filho’”, relata.
“Meu sentimento é de dor, de impotência. Se a gente soubesse de tudo poderia ter feito algo para ajudar ela antes”, lamenta a mãe da jovem. Ela comenta que, após a morte da filha, soube que o ex-genro já havia atacado outras mulheres em relacionamentos anteriores. “Queria alertar: se tiver outras mulheres que foram agredidas por ele, que vão na delegacia prestar uma queixa, que denunciem.”
O corpo de Ketlyn foi enterrado no Cemitério Municipal de Novo Hamburgo, na quarta-feira (22).
Primeiro feminicídio do ano
O agressor continua preso. A titular da Deam leopoldense, delegada Michele Arigony, explica que, a partir do falecimento de Ketlyn, o crime pelo qual ele foi detido muda. “Agora é feminicídio consumado, pois ocorreu a morte da vítima.”
Conforme a delegada, o homem – que não teve a identidade divulgada –, já possui passagens anteriores por violência contra mulheres, casos que aconteceram em Novo Hamburgo. “Vários crimes, desde 2002”, informou Michele.
O caso de Ketlyn foi o primeiro feminicídio do ano registrado em São Leopoldo.