Eleições, retorno ao sacerdócio e saúde mental. Estes foram alguns dos pontos abordados durante entrevista com o Padre Fábio de Melo, que se apresenta neste sábado (9), no Teatro Feevale, em Novo Hamburgo. Além dos tópicos, o sacerdote tratou sobre a relação com o Rio Grande do Sul e novos projetos.

Foto: Reprodução/Captura de Tela
Confira a entrevista:
Grupo Sinos – Recentemente, você falou sobre estar retornando ao caminho do sacerdócio. O que isso quer dizer e de que forma esse retorno está se dando?
PE. Fábio de Melo – “Comecei a perceber que existem dimensões dele (sacerdócio) que eu preciso dar mais atenção. O cansaço acabou me retirando de coisas que eram importantes para mim e que só o tempo foi me mostrar. Estar na Canção Nova, participar dos acampamentos, ter o meu programa, fazia muita falta para mim e eu não havia notado. Acho que passa por aí: uma redescoberta do meu lugar”.
Grupo Sinos – Nesta linha que você comentou, de estar em uma rotina bastante tensa, (lhe questiono) sobre seu quadro de depressão: como está essa situação atual e o quão importante acredita que seja tratar disso publicamente?
PE. Fábio de Melo – “A saúde mental depende de dois pontos, um fator químico, (que) consertamos com medicina, vou ao médico, ele me recomenda um tratamento, se sou fiel e disciplinado, quando acerto o remédio, fico melhor. O outro aspecto é o fator escolha, a ambiência com que estou, a maneira com que eu me trato, que eu permito o outro me tratar, tudo isso tem uma influência determinante na saúde mental de uma pessoa. Em muitos momentos da minha vida, a medicação me afastou de mim, fiquei mais insensível, mais técnico, prático; e eu não quero isso. Já que eu não só tenho o fator químico, tenho, também, um contexto de vida que é muito desgastante, tenho que ficar atento para que a minha vida não seja um fator de adoecimento, mas de alegria”.
Grupo Sinos – Um outro ponto: a propagação de paz em meio a ano de eleições. Você disse que o cidadão deve fazer a divulgação da harmonia dentro de seu recinto. De que forma as pessoas podem fazer isso e de que forma o Padre pode ajudar?
PE. Fábio de Melo – “Vi de perto um dos principais pontos de conflito do mundo. Ver a tristeza que encontrei lá, o sofrimento, me fez pensar muito na necessidade que tenho de pensar na minha faixa de gaza. Acho que cada pessoa tem sua faixa de gaza, seu lugar de principal conflito. Nosso grande desafio é pacificar aquilo que nos diz respeito. É muito desonesto do ponto de vista cristão dizer que ora pela paz, se nós não somos pacificadores. Fui identificando que, ao longo dessa separação que fizeram de dois ‘Brasis’, fomos perdendo a capacidade de conversar com os lados. Uma pessoa não pode ser jogada fora porque ela tem opiniões diferentes das minhas, eu não posso classificar o outro como desprezível só porque ele não se alimenta dos mesmos argumentos que eu. Minha missão é no esclarecimento da consciência, ajudar as pessoas a entenderem cada vez mais, assim como eu, a, que no momento do voto, escolhamos aquilo que consideramos melhor para a nossa compreensão”.
Grupo Sinos – Uma outra menção que você faz: tratar o outro da maneira com que ele precisa. Às vezes, temos dificuldade de fazer isso. Como fazê-lo?
PE. Fábio de Melo – “Tudo depende de como nós fomos criados, da educação que recebemos. Quando eu reconheço o prejuízo, e admito que posso crescer, trazendo elementos para a minha vida que me foram ausentes, já começo a superar isso. Aí, a gente se educa na situação, posso ir criando condições para a minha evolução espiritual. As pessoas estão muito obtusas, não reconhecem que aquele jeito de estar no mundo não é favorável, acham que aquilo é opinião, e não é, é expressão de uma ignorância antropológica, um desconhecimento de como é que nós podemos articular a nossa humanidade nos dias de hoje. Aí, deixamos de ser vítima dos discursos políticos que nos emburrecem, porque o grande interesse deles é justamente nos emburrecer, para que fiquemos se combatendo, enquanto eles se alinham para se defenderem quando for preciso”.
Grupo Sinos – Padre traz uma menção sobre o Brasil estar voltando a rezar. Essa visualização se dá de que forma? E, o quão necessário é isso nos dias de hoje?
PE. Fábio de Melo – “Temos várias iniciativas dentro da igreja católica de movimentos pelas redes sociais de oração. Isso tem muita adesão, mostra que existe uma ausência, uma carência. Se o povo acorda de madrugada para rezar com Frei Gilson, Irmã Kelly Patricia, é porque existe uma necessidade. Isso abre o caminho para uma nova forma de compreender o episódio religioso no Brasil. Neste momento, percebemos um Brasil necessitado de oração. O que acho que é o caminho agora? Da oração abrir-nos à reflexão, porque não podemos ter uma religião em que só rezamos, precisamos ter uma religião em que nossa oração nos motive a transformar o nosso agir”.
Grupo Sinos – Como é para você se apresentar em um momento que simboliza muitas coisas (dias das mães, Ana Maria de Melo, faleceu em 2021)? O quão especial é isso e o que a comunidade vai poder acompanhar com você?
PE. Fábio de Melo – “Minha mãe é a experiência mais bonita que pude fazer de Deus. Tive um amor muito livre com a minha mãe, não tenho medo de errar, ser injusto com as pessoas, que minha mãe foi a pessoa que mais me amou. (Sobre o show) Vamos levar para Novo Hamburgo a oportunidade de celebrarmos isso (amor de mãe e filho). Mas celebramos, também, os amores imperfeitos, feridos. Tenho certeza que estarão conosco muitas mães que precisaram sepultar os seus filhos, muitas mães que foram pais, também, teremos, também, as mulheres que não conseguiram ser mãe (…) Vai ser uma noite muito especial porque vamos falar de sentimentos que são muito comuns à todos. A música é só uma desculpa, o que realmente queremos é um encontro com as pessoas e proporcionar à elas a oportunidade de saírem de lá um pouco mais espiritualizadas e felizes do que quando chegaram”.
Grupo Sinos – Como é estar no Rio Grande do Sul?
PE. Fábio de Melo – “Gosto demais do Sul. O Rio Grande do Sul entrou na minha vida ainda na adolescência, quando tive a oportunidade de ler ‘O Tempo e o Vento’; me apaixonei por Erico Verissimo. Foi muito interessante entender, a partir do romance dele (Érico), a força do povo gaúcho, as revoluções que fizeram o Rio Grande do Sul ser a potência que é. Vimos a potência que vocês são por ocasião das destruições que as enchentes causaram. Vocês reagiram com a mesma braveza que as revoluções foram resolvidas aÍ. Tenho uma ligação com o estado que me deixa muito feliz. Tenho sempre muita alegria em voltar aí”.
Grupo Sinos – E, sobre novos projetos: o que já pode ser divulgado?
PE. Fábio de Melo – “Coincidentemente, estaremos no sul lançando um projeto em homenagem ao nordeste. Estou lançando pela Gravadora Biscoito Fino um projeto chamado ‘Beijo Que Vós me Nordestes’, músicas de compositores nordestinos com participações muito especiais, como Gilberto Gil, Milton Nascimento (…). Vamos lançar agora, na semana do Dia das Mães, e estou preparando um livro cujo tema é Cura Interior, que será lançado em agosto em um acampamento que vou pregar; o primeiro que tenho na Canção Nova com o tema, que eu acho que é necessário demais para todos nós. Quando ficamos curados daquilo que nos traumatizou ao longo da vida, podemos ser pessoas melhores. Muitos impedimentos para as boas ações nos dias de hoje estão ligados a aquilo que em mim ainda é ferido e machucado”.
Grupo Sinos – Recado final?
PE. Fábio de Melo – “Me comprometo que a noite vai ser linda. Vai ser uma noite de muitas bençãos, de oração, de música, reflexão, que tenho certeza que vai fazer bem para todos nós”.