O conflito recente entre Irã e Israel, com participação direta dos Estados Unidos, revela um novo padrão de guerra. Em vez de apenas tanques e soldados em campo, vemos drones cruzando o céu, sistemas automáticos interceptando mísseis e ataques organizados por redes digitais. É um confronto cada vez mais mediado por tecnologia, em que decisões são tomadas em segundos e parte delas já não passa diretamente por mãos humanas.
Costumamos repetir que tecnologia é neutra, que tudo depende de quem a utiliza. Mas essa ideia é confortável demais. Toda tecnologia nasce de escolhas: alguém define para que ela serve, quais são seus limites e quem será afetado por ela. Um drone pode levar medicamentos a uma região isolada ou lançar explosivos. A mesma inteligência artificial que ajuda um médico a identificar um câncer pode orientar um ataque. A ferramenta é a mesma. O que muda são as decisões humanas por trás dela.
O que tudo isso deixa claro é que a tecnologia aumenta o alcance das nossas decisões. Não é só na guerra. Está no aplicativo que escolhe quais notícias aparecem para você, no sistema que aprova ou nega um crédito, no aplicativo que define o preço de uma corrida ou no carro que freia sozinho. As máquinas executam com rapidez e escala. Mas alguém decidiu antes como elas deveriam agir, o que priorizar e quais limites teriam. A responsabilidade não é da máquina. É nossa.
FELIPE MENEZES é colunista de inovação e tecnologia no Grupo Sinos.