Se existe uma posição no vôlei que raramente ganha os holofotes, essa posição é a de líbero. Mas Sérgio Dutra Santos, o eterno Serginho ou Escadinha, reescreveu essa história. Com a camisa de número 10 nas costas e com uma carreira marcada por títulos e superações, ele se tornou um ícone do esporte nacional e mundial.
Agora, ex-líbero chega oficialmente em Novo Hamburgo com a sua escolinha, o Volleyball House, para passar um pouco de sua experiência e metodologia de trabalho para os atletas da região. Nesta sexta-feira (13), o multicampeão e o também ex-jogador Rafael Martins de Almeida visitaram a redação do Grupo Sinos, para falar mais sobre este trabalho que já é desenvolvido em São Paulo.

Foto: Vandré Brancão/GES-Especial
O Volleyball House chega ao bairro Hamburgo Velho graças a uma parceria entre os dois ex-atletas. O local substitui o complexo esportivo RB Sports (Av. Victor Hugo Kunz, 2010). A idade mínima para treinar é 7 anos. Não existe idade máxima.
“Tenho grandes amigos em Novo Hamburgo e sei que o Rio Grande do Sul é um grande celeiro do voleibol brasileiro. Revelou grandes atletas e precisamos resgatar o vôlei gaúcho. Precisa voltar a lapidar as pedras preciosas do Estado. Material humano existe”, inicia o ex-líbero, que conta um pouco da unidade que já existe em São Paulo.
“Eu criei o Volleyball House em São Paulo, que é um centro de treinamento de alto nível. Esse CT é para todas as pessoas que querem treinar vôlei. Não é só para profissionais ou federados. Teremos a mesma estrutura que tem na Seleção Brasileira. O Volleyball House lá em São Paulo, que fica no meu bairro, Pirituba, pega fogo. Ele fica aberto das 7 horas às 23 horas, de segunda a sábado. Proporcionamos o que aprendi na seleção. Os adolescentes podem treinar no mesmo nível em que treinei”, diz.
A ideia de ter uma unidade em NH surgiu em uma das vindas de Serginho ao Estado para disputar o Jogo das Estrelas. Em uma conversa com Rafa, o assunto ganhou força e o projeto saiu do papel.
“Eu sei que aqui em Novo Hamburgo muitas pessoas deixaram de praticar vôlei por não terem um local para jogar, treinar. Muitas pessoas acham que o voleibol é só atacar, mas não é. Tem a manchete, a defesa, o conjunto, a equipe, a educação.”
“O Volleyball House é um centro de treinamento 100% vôlei. Tem academia, fisioterapia e preparação física”, conta Rafa Martins, ressaltando que quem participar terá toda a experiência de um time ou até mesmo da Seleção.
Aparelhos eletrônicos x esporte
Serginho foi questionado sobre como tirar os jovens da frente das telas e fazer com que eles possam iniciar um esporte. “Eu sou de uma geração criada na rua. Sempre falo para os meus filhos que gostaria que eles tivessem a mesma infância que tive, na rua e não na frente do celular ou computador. A nossa ideia é fazer com que as crianças tenham acesso ao esporte, mas antes disso queremos atingir os pais. Não adianta o filho querer se os pais não o incentivarem”, analisa. O ex-atleta também conta que em São Paulo, quando os jovens terminam os treinamentos, os pais entram em quadra para treinar.
“Quem entra lá não precisa saber de voleibol. Temos casos de pessoas com 50 anos que nunca tinham jogado. É um processo, mas você aprende a jogar. Não é igual ao futebol que você nasce sabendo. Quem ensinou o Pelé, o Neymar a jogar? Ninguém ensinou. O vôlei é um esporte de repetição. Se o menino não souber jogar, nós vamos ensinar a dar o toque, a dar a manchete.
“Quando falamos em criança, temos que mostrar para os pais que o esporte é uma ferramenta poderosa de inclusão social, de saúde. Tínhamos crianças com grau severo de ansiedade, crise de pânico e começaram a praticar e tivemos um resultado expressivo. No final das contas, o voleibol ficou de lado. (É gratificante) Você colocar uma criança que está passando por problemas sérios dentro de quadra, e aí, automaticamente, outros resultados vêm. Os resultados são adolescentes que pararam de tomar remédio, saíram das crises, perdem peso, tudo praticamente esporte. Eu falo que o Volleyball House virou um hospital, mas um hospital do bem, porque usamos como remédio o voleibol”, comentou o multicampeão, ressaltando o trabalho do Volleyball House.
“Quero que o Volleyball House de Novo Hamburgo seja realmente uma casa, onde a pessoa possa deixar o filho lá e ela possa fazer as coisas paralelamente, sabendo que o filho está num local bacana e com profissionais capacitados.”
Novos talentos
Serginho e Rafa também vão buscar novos talentos. O ex-líbero contou que diversos atletas que passaram pela Volleyball House de São Paulo foram encaminhados para clubes. “O vôlei é para todos, mas, com certeza, desse montante, vai ter uma pedra preciosa que precisa ser olhada diferente. E isso que eu e Rafa estamos fazendo, queremos pegar e indicar aos clubes. No primeiro ano da casa em São Paulo, conseguimos federar 30 atletas entre meninos e meninas.”
“Uma coisa que fico triste é que eu não tenho mais esses meninos. A gente cria uma convivência tão grande que parece que são da nossa família, mas sabemos que eles estão em seus clubes e que podem mudar a vida da família deles assim como eu mudei a da minha. Isso é um troféu gigantesco.”
Uma carreira dourada
Serginho conquistou tudo o que era possível com a seleção brasileira. Esteve presente em quatro finais de Jogos Olímpicos consecutivas, conquistando duas medalhas de ouro (Atenas 2004 e Rio 2016) e duas de prata (Pequim 2008 e Londres 2012). Além disso, venceu dois Campeonatos Mundiais (2002 e 2006), sete Ligas Mundiais (2001, 2003, 2004, 2005, 2006 e 2007 e 2009) e diversos títulos continentais.
“Todos os títulos têm uma importância gigantesca. Desde a minha primeira Olimpíada, em 2004, até o meu último jogo pela Seleção, que foi em 2016. O primeiro foi confirmação de um ciclo maravilhoso, aí depois tiveram as Ligas Mundiais, Copa do Mundo, Mundiais, aí depois para encerrar a Olimpíada no Rio de Janeiro”, comenta Serginho.
Sua performance em quadra era marcada por reflexos quase sobre-humanos, coragem para se jogar em qualquer bola e uma comunicação constante com os companheiros. Serginho elevou o papel do líbero a um novo patamar, sendo frequentemente comparado a grandes craques de outras posições ofensivas. Seu talento também foi premiado ao ser eleito o MVP da Liga Mundial de 2009 e o melhor jogador da Rio 2016.
Coroado no Rio, já perto de sua aposentadoria definitiva da Seleção, Serginho contou que não pensava sobre ser o melhor jogador, mas sim na vitória da equipe. “Nunca pensei nisso (em ser MVP).. Muito pelo contrário, eu queria ganhar, queria que o time ganhasse e deu certo. O resto era consequência, mas não me preocupava com isso não.”