Com voz baixa, serena e firme, sempre acompanhada de um humor refinado, Josenildo Carvalho conduziu, na tarde desta sexta-feira (21), o primeiro dia de ensinamentos para professores e estagiários das equipes MaxVôlei e OnLine Vôlei, nas dependências da Associação Beneficente Antônio Mendes Filho (ABAMF), em Novo Hamburgo. Aos 80 anos, um dos nomes mais influentes da história do voleibol brasileiro voltou ao Rio Grande do Sul para fazer aquilo que mais o move: ensinar.

Foto: Jorge Grimaldi/GES-Especial
Com mais de meio século dedicado às quadras, dezenas de medalhas e centenas de atletas e treinadores formados ao longo da carreira, construída em clubes e também nas seleções masculina e feminina do Brasil, Jô, como é carinhosamente chamado, estruturou sua aula de forma surpreendente: antes de ir à quadra, levou todos para uma pequena sala.
Foi ali, no espaço apertado, que ele começou a erguer o alicerce técnico e pedagógico do treinamento, com sete professores – de idades que variavam dos 18 aos 30 anos. Entre conversas, orientações e exercícios iniciais, apresentou princípios básicos do vôlei a partir de funções motoras, biomecânica e lógica pedagógica.
A decisão de iniciar longe das quadras não foi casual. Josenildo explicou que trabalhar com professores ainda em formação exige uma abordagem que une fundamentos de jogador iniciante com uma nova concepção de ensino.
“Como eles não são jogadores experimentados, eu estou fazendo uma miscelânea entre o conhecimento de um jogador novo para um novo professor. Não é um professor novo, para um novo professor, com outra concepção pedagógica. Ou seja, cuja pedagogia é mais importante pela didática, a forma de ensinar, do que propriamente pelos métodos”, explicou Josenildo.
Segundo ele, a progressão do conteúdo precisa acompanhar a evolução do grupo. Por isso, antes de explorar a quadra, garante que todos entendam como reagir aos comandos e dominem movimentos simples.
“Depois, eu vou para a quadra, porque eu vou precisar de mais espaço. Como a turma é grande e se o espaço for grande também, o que eu falar fica disperso no espaço e no tempo. Aí eu saio daqui e vou para lá, e eles já sabem reagir ao meu comando: para a direita, para a esquerda, mais alto, mais baixo. Eu não preciso ir para o detalhe”, disse.
O foco, explica Jô, é conduzir o aprendizado em sequência lógica e pedagógica. “A gente tem que trabalhar em cima de uma ordem pedagógica. Primeiro, sempre partir do conhecido para o desconhecido. Segundo, do pouco para o muito. Terceiro, do simples para o complexo. E por último, o mais complexo.”
A biomecânica surge, então, como ferramenta fundamental. A partir de exercícios que envolvem a bola presa, rolando ou quicando, ele trabalha tempo de reação e noções espaciais. Mesmo sem rede ou bloqueadores, demonstra como preparar o corpo e a leitura de jogo para situações reais.
“Estou terminando agora com um estudo como se houvesse um bloqueio ali. Não tem rede, não tem ninguém bloqueando. Mas a altura da bola é a mesma que sai da largada. Então as medidas dizem como é que eu devo fazer com o mais complexo”, completa uma das maiores lendas do esporte.
As atividades também ocorrem neste sábado e domingo.
Lembranças do Rio Grande do Sul
Além do caráter formativo, a visita a Novo Hamburgo trouxe sentimentos antigos ao treinador. Josenildo reviveu memórias de quando o Rio Grande do Sul figurava entre as potências do voleibol nacional.
“Eu te digo que eu conheço mais o Rio Grande do Sul do que Pernambuco. Eu sempre vim muito aqui. Na década de 60, era um dos melhores estados com voleibol do país. Minas, Rio, Pernambuco… numa disputa enorme com o Rio Grande do Sul. As equipes da Sogipa eram intransponíveis. Gerson, Marco Volpi e outros. E a gente fazia muitos campeonatos. É uma ligação bem antiga.”
Entre as lembranças, destacou também o treinador porto-alegrense João Batista e atletas como o leopoldense Renan Dal Zotto e Amauri Ribeiro, nomes que mais tarde levariam o Brasil ao ouro olímpico.
“Eu tenho uma honra de ter participado da carreira deles. Se não fossem eles, nós não teríamos conseguido. Porque uma coisa é trabalhar com quem tem talento – se você trabalha errado com quem tem talento, ele fica lento mesmo, não melhora”, afirma.