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Pioneiro internacional

Muito antes de Alisson, goleiro de Novo Hamburgo era campeão pela Seleção Brasileira e ídolo nacional

Júlio Kunz, natural de Hamburgo Velho, fez história no Flamengo e integrou a Seleção campeã do Sul-Americano de 1922, considerado o primeiro grande título do Brasil

Dário Gonçalves
Publicado em: 01/07/2026 às 12h:23 Última atualização: 01/07/2026 às 13h:49
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Quando o goleiro Alisson Becker entrou em campo para disputar mais uma Copa do Mundo com a camisa da Seleção Brasileira, reforçou um feito que todo hamburguense conhece: o de ver um atleta nascido em Novo Hamburgo representar o País no maior palco do futebol mundial.

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O que poucos sabem é que essa história começou muito tempo atrás. Mais de um século antes de Alisson vestir a amarelinha, outro goleiro nascido em Novo Hamburgo já era um dos grandes nomes da Seleção Brasileira antes mesmo das Copas do Mundo existirem.

Seleção Brasileira campeã de 1922. Em pé: Fortes, Formiga, Neco, Bartó, Lais, Palamone, Amílcar, Heitor Domínguez, Tatu e Rodrigues. Agachado: Kunz  | abc+



Seleção Brasileira campeã de 1922. Em pé: Fortes, Formiga, Neco, Bartó, Lais, Palamone, Amílcar, Heitor Domínguez, Tatu e Rodrigues. Agachado: Kunz

Foto: Restaurada por IA

Titular na conquista do Campeonato Sul-Americano de 1922 — competição que hoje corresponde à Copa América —, Júlio Kunz Filho (embora muitas grafias mostrem “Kuntz”) era considerado um dos melhores goleiros do País e ganhou projeção internacional defendendo o Flamengo, onde conquistou dois Campeonatos Cariocas e recebeu da imprensa argentina um apelido que ajudou a eternizar sua fama: “El Colosso”.

Apesar da importância histórica, seus feitos praticamente desapareceram da memória coletiva, inclusive na cidade onde nasceu.

A história, porém, nunca desapareceu completamente. No Rio de Janeiro, onde Júlio Kunz constituiu família durante a carreira no Flamengo, o legado foi preservado pela viúva, Ondina Gomes Kunz (in memoriam). Foi dela que o neto, Júlio Kunz Neto, ouviu praticamente tudo o que sabe sobre o avô, já que seu pai, Antônio Guilherme Kunz, tinha apenas cinco anos quando o goleiro morreu, em 1938.

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Das ruas de Hamburgo Velho ao futebol nacional

Filho de Nicolau Júlio Kunz, empresário, líder comunitário e personalidade que mais tarde daria nome ao tradicional Coral Júlio Kunz, da Sociedade Aliança, o futuro goleiro cresceu em uma família bastante conhecida em Hamburgo Velho. Nasceu em 3 de setembro de 1897, quando Novo Hamburgo ainda era distrito de São Leopoldo.

Enquanto o pai ajudava a construir a história econômica, política e cultural da então vila, o filho escreveria seu nome nos gramados, tornando-se um dos primeiros grandes jogadores brasileiros de projeção internacional.

Os registros sobre o início da carreira de Júlio Kunz ainda apresentam lacunas, mas documentos preservados ajudam a reconstituir seus primeiros passos no futebol em Hamburgo Velho.

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Guardião do que restou do acervo histórico do extinto Football Club Esperança, Daniel Rönnau afirma que os indícios apontam que o goleiro integrou a primeira equipe do clube, fundado em 10 de maio de 1914. Embora a relação completa dos atletas tenha se perdido ao longo do tempo, uma carta manuscrita produzida em 1938, relembra sua ligação com o Esperança.

“O clube foi extinto e muito do acervo se perdeu. O máximo que consegui localizar foi uma cópia da ata de fundação e essa carta, escrita por um dirigente do Esperança quando o Júlio Kunz faleceu, relatando a ligação dele com Hamburgo Velho e com o clube desde muito jovem”, explica Rönnau.

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As poucas imagens conhecidas dessa época também sobreviveram graças ao trabalho de preservação da memória do Esperança. Segundo o pesquisador, elas integram um álbum histórico organizado pelo então dirigente Emílio Sibel, que reuniu fotografias e relatos sobre a trajetória do clube entre as décadas de 1910 e 1940.

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“Pouquíssimas pessoas tinham máquina fotográfica na época. O Emílio Sibel foi pedindo que os associados doassem imagens para montar esse álbum e registrar a história do Esperança para as gerações futuras. Hoje ele está preservado na Biblioteca do Câmpus II da Universidade Feevale. Tive a oportunidade de digitalizar esse material e guardar uma cópia junto ao acervo histórico que preservo”, conta.

Depois da passagem pelo Esperança, foi para o Novo Hamburgo. O talento chamou atenção rapidamente e, em 1917, transferiu-se para o Grêmio, em Porto Alegre, onde passou a atuar em competições de maior visibilidade. Pouco tempo depois seguiria para o Rio de Janeiro, então capital federal, iniciando a carreira que o transformaria em um dos principais goleiros brasileiros da década de 1920.

O primeiro grande goleiro do Flamengo

Foi no Flamengo que Kunz alcançou o auge. Dotado de grande elasticidade e reflexos rápidos, conforme registros históricos, tornou-se titular absoluto da equipe rubro-negra logo na chegada. Participou diretamente das campanhas invictas do Campeonato Carioca de 1920 e do bicampeonato estadual de 1921, sendo constantemente destacado pela imprensa esportiva da época pelas defesas consideradas espetaculares.

Os jornais cariocas frequentemente o apontavam como o melhor goleiro em atividade no Rio de Janeiro, então principal centro do futebol brasileiro.

“A pugna foi ‘cavada’ de princípio a fim, assumindo o S. Christóvão domínio franco sobre o adversário no segundo tempo, quando Kuntz teve ensejo de se empregar com raro brilhantismo para livrar a sua cidadella de cerrados ataques, produzindo ahi difficíllimas defesas, que lhe valeram calorosos applausos da multidão. Ao keeper, que tão auspiciosa estréa fez hontem, deve o Flamengo não ter sido derrotado, aliás por um significativo score, tal foi o número de pegadas por elle praticadas e cada qual mais diffícil e mais linda”, escreveu o jornal A Gazeta de Notícias após vitória de 1 a 0 sobre o São Cristóvão na final do Torneio Início no dia 4 de abril de 1920.

Julio Kunz nos tempos de Flamengo (fotos restauradas com auxílio de IA) | abc+



Julio Kunz nos tempos de Flamengo (fotos restauradas com auxílio de IA)

Foto: Divulgação

Pelo clube carioca, atuou em 58 jogos, alcançando 33 vitórias, 15 empates e 10 derrotas. No museu do futebol do Flamengo, figura na Galeria dos Monstros Sagrados.

Titular da Seleção Brasileira

As atuações abriram caminho para a Seleção Brasileira. Convocado inicialmente para o Campeonato Sul-Americano de 1920, no Chile, Kunz chamou atenção mesmo em uma campanha discreta do Brasil. No ano seguinte voltou a defender a seleção na Argentina, realizando atuações tão destacadas que, ao final de uma partida, foi carregado nos ombros por torcedores locais em reconhecimento ao desempenho.

O reconhecimento internacional aumentaria em 1922. Na competição disputada no Rio de Janeiro durante as comemorações do Centenário da Independência, Kunz integrou a equipe que conquistou o título continental, considerado o primeiro grande troféu oficial da Seleção Brasileira.



“El Colosso”

As atuações renderam fama também fora do Brasil. A imprensa argentina passou a chamá-lo de “El Colosso”, apelido que refletia o prestígio conquistado diante dos rivais sul-americanos. Segundo pesquisadores da história do Flamengo, o reconhecimento foi tão grande que o maestro argentino Francisco Canaro chegou a compor um tango em homenagem ao goleiro hamburguense.

Em uma época sem televisão, transmissões esportivas ou redes sociais, poucos jogadores brasileiros alcançavam repercussão internacional. Kunz foi um deles.



Excursão histórica à Europa

Após deixar o Flamengo, o goleiro passou a defender o Paulistano, um dos clubes mais fortes do futebol paulista na época. Na equipe, estava também Arthur Friedenreich, a primeira grande estrela do futebol brasileiro, considerado o Pelé de sua época.

Em 1925 participou da histórica excursão do clube pela Europa, um marco para o futebol brasileiro pois foi a primeira vez que um clube cruzou o oceano rumo ao Velho Continente. Foram mais de 20 dias de viagem em um navio.

Em sua primeira partida, o Paulistano enfrentou e goleou o Selecionado Francês por 7 a 2. Ao todo, foram nove vitórias em dez partidas contra adversários da França, Suíça e Portugal entre 15 de março e 28 de abril daquele ano. O desempenho sob frio e neve rendeu ao Paulistano a alcunha de “Os Reis do Futebol”.



Após quase três meses fora, voltaram ao Brasil e foram festejados em Recife, Salvador e Rio de Janeiro com direito a desfiles pelas cidades. Em São Paulo, Kunz e os companheiros foram saudados por mais de 100 mil pessoas em uma carreata da Estação da Luz até a sede do clube.

Segundo Júlio Kunz Neto, a viagem só aconteceu porque a esposa, Ondina, embarcou junto. “Ela era muito ciumenta. O vovô já era um destaque muito grande no Rio de Janeiro e não deixou ele viajar sozinho. Uma das condições para liberar a viagem foi acompanhá-lo”, conta.

Uma carreira interrompida cedo

Como era comum na era amadora, o futebol não era sua única atividade profissional. Entre 1925 e 1929 dedicou-se ao serviço público antes de retornar ao Flamengo para encerrar a carreira em 1931. Também atuou como industrial no ramo de artefatos de alumínio.

Em 1938, aos 40 anos, morreu em São Paulo após contrair uma infecção hospitalar decorrente de uma cirurgia de apendicite, numa época em que os recursos médicos eram muito mais limitados do que os atuais.

“Vovô tinha um parente que era médico, e eu acho que ele teve uma crise de apendicite, em visita a família que era de São Paulo. E aí, com essa crise de apendicite, na época não tinha antibiótico, tentaram de todas as maneiras reverter, mas ele morre por lá em visita”, conta Neto.



A morte precoce mudou completamente o rumo da família. Viúva e com três filhos pequenos, Ondina precisou reconstruir a vida praticamente sozinha. Como o futebol ainda era amador, a carreira do marido não deixou segurança financeira.

“Ela ficou com uma mão na frente e outra atrás. Não existia dinheiro no futebol. Por isso não deixava o meu pai seguir carreira como goleiro. Dizia que não queria ver os filhos passando pelo mesmo aperto que ela passou”, relata o neto.

“Maior arrependimento foi não ter jogado na Argentina”

Mesmo após encerrar a carreira, Júlio Kunz ainda era lembrado como uma das grandes referências do futebol brasileiro. Em julho de 1932, concedeu uma entrevista ao Jornal dos Sports para falar sobre o recém-implantado profissionalismo no futebol. Foi durante a conversa que revelou o maior arrependimento da sua vida.

“Em 1923, quando estive na Argentina, onde a imprensa se referia ao meu jogo como os maiores encômios, recebi uma proposta para jogar por um clube local, mediante 1.000 pesos mensais. Recusei e, agora, cá estou. Esse foi o maior arrependimento de minha vida.”

Kunz exaltado pelos argentinos | abc+



Kunz exaltado pelos argentinos

Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Na mesma entrevista, Kunz explicou que, naquele período, acreditava que fazer do futebol uma profissão era algo incompatível com os valores do esporte. “Achei que era princípio futebolista procurar ganhar dinheiro com sua habilidade técnica. Ser-se profissional de football não é nenhuma coisa de outro mundo”, afirmou ao jornal, demonstrando que sua visão havia mudado com o passar dos anos.

A declaração mostra a transformação vivida pelo futebol brasileiro no início da década de 1930. Ídolo de Flamengo e Seleção em uma época em que o esporte ainda era predominantemente amador, Kunz viu nascer o profissionalismo e reconheceu que a oportunidade recusada na Argentina poderia ter mudado os rumos de sua carreira.

Contudo, sua paixão era, incontestavelmente, a Seleção Brasileira. Em 1937, em uma entrevista para O Imparcial, o ex-goleiro foi questionado sobre as críticas que jogadores brasileiros recebiam após derrotas para os argentinos. Ao defender os atletas e exaltar o compromisso de vestir a camisa do Brasil, resumiu em uma frase o sentimento que carregava pela seleção:

“Não há dinheiro que compre o orgulho de se prestar um serviço à pátria”.

Mesmo quase uma década após sua morte, seu nome ainda era lembrado por antigos adversários. Em 1947, José Alfredo López — campeão sul-americano pela Argentina em 1921 e então presidente do Boca Juniors — recordou os grandes jogadores que enfrentou ao longo da carreira. Ao comparar diferentes gerações do futebol sul-americano, colocou o hamburguense entre os maiores que viu atuar.

Em sua opinião, o único goleiro rival de Kunz foi o argentino Américo Tesorieri, que atuou praticamente toda a carreira no Boca e defendeu a Seleção Argentina entre 1919 e 1925. “Kunz (…) o maior dentre os maiores. Maior que Badoglio, Nassazzi, Cortella, Benincassa, e tantos outros”.



O esporte continuou na família

Mesmo sem permitir que o filho mais novo seguisse o caminho do pai no futebol, a ligação da família com o esporte permaneceu. Antônio Guilherme Kunz chegou a atuar como goleiro, mas abandonou a ideia de construir carreira profissional por decisão da mãe.

O neto, por sua vez, encontrou outro caminho. Hoje treinador de voleibol, Júlio Kunz Neto acredita ter herdado do avô ao menos uma característica. “Eu tinha aspirações assim, mas não tive um empurrão grande pro futebol. Me aproximei do voleibol e, se tiver alguma coisa a ver, herdei a habilidade com as mãos. Virei levantador, joguei até onde deu e depois, picado pela mosquinha do esporte, segui como treinador.”

Neto é ex-assistente técnico da Seleção Brasileira feminina, e atuou em grandes clubes do Rio de Janeiro como Flamengo, Fluminense e Tijuca Tenis Clube.

Um pioneiro quase esquecido

Mais de um século depois de deixar Hamburgo Velho para construir carreira no futebol, Júlio Kunz continua sendo um personagem pouco conhecido na cidade onde nasceu. No Rio de Janeiro, porém, sua história atravessou gerações pelas lembranças de Ondina e chegou ao neto, que hoje trabalha com esporte e ajuda a manter vivo o legado da família.

Enquanto Alisson Becker segue escrevendo novos capítulos como um dos maiores goleiros do futebol mundial, a trajetória de Júlio Kunz lembra que Novo Hamburgo já tinha um representante entre os principais nomes da Seleção Brasileira muito antes das Copas do Mundo existirem.

Kunz em atuação em 1928 | abc+



Kunz em atuação em 1928

Foto: Arquivo Pessoal

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